27/01/2009

ENGANO NOVO

Foto: "limpeza de pasto" clandestina na região de Teixeira de Freitas, extremo Sul da Bahia, abril de 2008.

DAF/SFC/SEMA - CANCELAMENTO DE Reconhecimento e emissão de crédito de Volume Florestal

O Superintendente de Políticas Florestais, Conservação e Biodiversidade da SFC/SEMA, no exercício de sua competência, que lhe foi delegada Resolve: Cancelar o Reconhecimento de Crédito de Volume Florestal Nº 204/08, publicado em 18 de setembro de 2008, objeto do processo n° 14.2006.0035124, tendo como requerente ORLANDO CARVALHO DE OLIVEIRA.

Salvador, 22 de janeiro de 2009. PLÍNIO AUGUSTO DE CASTRO LIMA – superintendente EM EXERCÍCIO.



RESOLUÇÃO Nº 3917 DE 23 DE JANEIRO DE 2009. O Presidente em exercício do CONSELHO ESTADUAL DO MEIO AMBIENTE – CEPRAM, no uso de suas atribuições e, tendo em vista o que consta do Processo SEMA nº 1420090000651, RESOLVE: Art. 1.º - Conceder “Ad Referendum” do Colegiado, PRORROGAÇÃO DE PRAZO PARA CUMPRIMENTO DOS CONDICIONANTES EM LICENÇA DE IMPLANTAÇÃO veiculada pela Resolução CEPRAM nº 3904 de 7/11/2008, concedida à SESAB para o Hospital do Subúrbio, na forma do requerimento que consta do referido processo . Art. 2.º Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação. EDUARDO MATTEDI WERNECK – Presidente em exercício



RESOLUÇÃO Nº 3918 DE 23 DE JANEIRO DE 2009. O Presidente em exercício do CONSELHO ESTADUAL DO MEIO AMBIENTE – CEPRAM, no uso de suas atribuições e, tendo em vista o que consta do Processo SEMA nº 1420090001232, RESOLVE: Art. 1.º - Conceder “Ad Referendum” do Colegiado, PRORROGAÇÃO DE PRAZO PARA CUMPRIMENTO DOS CONDICIONANTES EM LICENÇA DE IMPLANTAÇÃO veiculada pela Resolução CEPRAM nº 3892 de 21/10/2008, concedida à SESAB para o Hospital da Criança, na forma do requerimento que consta do referido processo . Art. 2.º Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação. EDUARDO MATTEDI WERNECK – Presidente em exercício

Fonte: Diário Oficial do Estado da Bahia - 24 e 25 de janeiro de 2009.


Número um: de novo, Sema? Até hoje estão revendo as sobras do trabalho estranhamente executado por vcs?

Numeros dois e três: de novo, presidente do CEPRAM? Ad referendum? Prorrogação para cumprimento de condicionantes? Porque a gente não fecha logo o órgão licenciador e fica emitindo licenças como num cartório, só carimbando? Seria mais condizente com a realidade.

26/01/2009

A ONDA DO MAR LEVA

Girona, Catalunya, 6 nov 2008 © Federico Franchesc
Fonte: Pelos Mares

O show ontem foi uma delícia. Chegamos mais cedo e nos acomodamos num bom lugar, observando o cenário com longos panôs em tons de azul com estampas de cavalos marinhos e arabescos que desciam pelo palco, na frente do qual havia uma enorme concha em tom areia.

Todo esse ambiente, ao cair da tarde, foi perfeito para a aparição de Adriana. Com um improvável e maravilhoso figurino vermelho (by Gilda Midani), num belíssimo contraste com o cenário, ela surgiu, tranquila e ao mesmo tempo suntuosa, com músicas de "Maré".

O show foi se desenrolando bem, ela conversando pouco com a platéia, mas mantendo um contato cordial. Não precisa muito além disso, a comunição se desenrola é pela música. Conta um caso, outro, mas não precisa ficar dando uma de animadora de auditório.

Durante essa primeira parte do show, senti uma tranquilidade muito grande ao perceber que o vento estava soprando sobre a Concha Acústica, que eu estava vendo aquele cenário elaborado, ouvindo aquelas canções que eu já tinha ouvido em casa em decorrência de ter conhecido o A. e que eu estava lá, serena, de mãos dadas, com um sorriso nos lábios.

Lembrei de um outro show em que fui na Concha Acústica, em 1997, quando vim morar na Bahia, onde tocaram Penélope, Cascadura, Dead Billies, Brincando de Deus e mais uma banda que eu não lembro. Lembro que eu detestei o show, detestei tudo, passei o show inteiro reclamando, só gostei de Dead Billies. Tudo era pouco demais para mim.

Então, ontem fiquei bem feliz por eu estar tranquila.

Quando Adriana apresentou a banda, bem competente por sinal (eram dois bateristas, isso me intrigou bastante), é que eu percebi que o tecladista era o Bruno Medina, ex- Los Hermanos. Depois da banda apresentada, ela iniciou uma sessão solo, ela e o violão. Aí cantou os hits, e dessa parte eu não gostei tanto, fiquei pensando como ela fez tanto sucesso, pois as letras nao são tão fáceis assim.

Mas vi que o trabalho dela amadureceu bastante, hoje as canções estão bem melhores, antes ela era bem mais chatinha, hoje está mais leve, menos imperativa, menos egocêntrica nas letras.

Achei que depois dessa parte ela fosse encerrar o show, mas então, na volta de banda, ela deixou o "banquinho e violão", ficou em pé, e fez ainda uma terceira parte do show, demonstrando muito prazer em estar lá.

No bis, surpreendeu. Cantou "Quem Vem para a Beira do Mar", de Caymmi, num clima intimista que me comoveu e me fez pensar que talvez aí esteja o motivo de eu ter ficado em Salvador. Depois, beirando o brega, atacou de "Meu Mundo e Nada Mais", de Guilherme Arantes, uma música que não é alegre. Muito boa a proposta de adequar ao clima depressivo da letra o figurino de um robe de chambre, tipo "please don't disturb".

Em seguida, veio "Deixa o Verão", de Los Hermanos. Emendando com o clima "nem tudo deve ser alegria sempre", veio o refrão "deixa o verão para mais tarde", no rock/ska com Adriana empunhando a guitarra. Ela fez questão de se aproximar de Bruno Medina, como se disesse que é uma honra para ela tê-lo na banda.

O que eu achei fantástico foi que no final da música a banda ameaçou uma coisa percursiva, eu até pensei que eles fossem emendar com outra música meio axé, para encerrar como tudo se encerra na Bahia. Iniciou-se um arremedo de berimbau, a platéia ensaiou uma dança mais rebolativa, ficou-se nessa alguns momentos e... a banda interrompeu tudo, voltando para o rock, e para o refrão "deixa o verão para mais tarde", hahahaha. Sacanearam vocês, galera!!!!!

Mas foram aplaudidíssimos, pediram bis e voltaram... Aí já tinha sido muito show e fui saindo mais cedo para não encarar a multidão.

25/01/2009

APRENDENDO A JOGAR


Não seria improvável. Seria impossível, se me perguntassem há tempos atrás, que eu fosse a um show da Adriana Calcanhotto. Confesso que quando recebi o convite, fiquei meio sem jeito de disparar, com aquela minha peculiar delicadeza: "mas eu odeio a Adriana Calcanhotto, o que eu vou fazer lá, com aquele monte de idiotas que vai estar assistindo o show dela?".

Então falei que a gente podia ir. E comecei a pensar em como fazer disso uma coisa que não me deixasse de mau humor. comecei escutando as músicas da Adriana Partimpim com as qual eu simpatizava, e aí fui me familirizando com a obra dela. Quando se despe de preconceitos, fica mais fácil. Leve-se em consideração que meu olhar talvez fosse benevolente, uma vez que eu já estava a caminho da "forca" mesmo.

Mas gostei desse último álbum, Maré, achei bem leve, não me irritou como é o costume entre esses cantoras (incluindo ela) atuais da música brasileira. E a partir de Maré, fui passeando por outros álbuns dela, mas sempre com medo de chegar naqueles dos hists que tanto me traumatizaram. Até ouvi alguns, mas confesso que voltei ao Maré e ao Partimpim.

Claro que quando se está apáixonada tudo é mais suave, mais sorridente. Estou indo feliz ao show, e não deixo de achar a vida uma coisa muito curiosa.

21/01/2009

CUCA FRESCA

Lá embaixo, o rio. Não adianta um otário(a) medir com GPS nem anotar o estado de conservação de vegetação, nem advertir o proprietário para recompor a área, porque quando isso for ocorrer, a Lei já mudou, ele já se reuniu com o deputado ruralista dele e com o meu, o seu e o nosso chefe, a multa já virou um quadro na parede e...
... o capim já tomou conta, ele já usou para pasto, ou já plantou dendê e vai montar uma barraquinha de acarajé.



Minc recua no Código Florestal


Diante do impasse sobre o Código Florestal, em exame pelo Congresso, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, decidiu retirar o apoio a mais de metade das propostas de ONGs ambientalistas. Com a mudança de posição, Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e Minc voltaram a atuar em conjunto. Com o acordo feito entre Minc e Cassel, das 13 propostas iniciais dos ambientalistas restaram apenas 6. E elas permitirão a flexibilização nas regras do Código Florestal. Por exemplo: fora da Amazônia os agricultores poderão utilizar as margens dos rios para compor a reserva legal. Também deverá ser autorizado o plantio de espécies exóticas arbóreas perenes nas reservas legais, como o dendê. Falta definir somente o porcentual máximo de plantio. Também será permitida a compensação de reserva legal em outra sub-bacia na mesma bacia federal, no mesmo bioma e ecossistema -
OESP, 21/1, Nacional, p.A8.




Não posso trabalhar em algo em que não acredito. Fiscalizar isso é como se eu fosse votar em alguém, quando voto nulo - nem amarrada, meu chapa! Vão juntar APP com RL? Porque não se juntam todos e vão pro raio que os partam?

Eles mudam as Leis e querem que EU colabore com isso? Que me empenhe trabalhando, viajando, indo pro campo, gastando meus vigorosos quarentinha, perdendo meus finais de semana maravilhosos e serenos agora ao lado do meu gajo, sob o sol de Salvadô, para ficar no meio do mato em nome de um ideal que já não é mais factível perante a mixórdia que se tornou - ou sempre foi - a máquina política com a qual eles se mantêm no poder?

Uma água de coco, por favor.

14/12/2008

CRISE? QUE CRISE?

Foto: ventania provoca acidente caseiro.


Nesta semana o nosso brilhante presidente, ao lado de sua grande equipe econômica, anunciou um pacote para incentivar o consumo, reduzindo as alíquotas do Imposto de Renda e do IPI de carros populares, entre outros.

É claro que essa redução é temporária, pois o governo não quer deixar a mamata de ter esse dinheiro fácil e garantido, dando retorno social inexistente para nós (ah, esqueci das bolsas esmola!). Que eu entendo pouco de economia, não é novidade. Mas pera lá, em vez de incentivar o consumo (agir no sintoma), os imbecilóides babacas não deveriam estar incentivando a produção e o emprego, que pelo que sei, é onde o bicho vai pegar?

16/11/2008

DIFERENTES VERSÕES











Todas as fotos de Fernando Vivas/Agência A Tarde (13 e 14/11/08)

Existem alguns estudos científicos que fatalmente serão utilizados por gente mal intencionada para distorcer os fatos. Alie-se isso a jornalistas que não sabes escrever as coisas com os detalhes que eles merecem ter, e pronto, o estrago está feito. É o que pode acontecer com essa simples matéria do jornal A Tarde.

É óóóóbvio que as espécies que vivem num ambiente onde há uma estação notadamente seca possuem suas estratégias de sobrevivência e reprodução em situações adversas, inclusive o fogo. O que provavelmente esse pesquisador está estudando é como e em que intensidade isso ocorre, em em quais espécies. Um estudo desses leva anos, décadas, séculos, e ele provavelmente está estudando apenas um grupo de espécies.

Agora vem uma jornalista, pega uma frase solta e faz uma manchete. E lá vem um fazendeiro e pronto: "vou queimar, porque as espécies estão adaptadas e vão sobreviver". O pesquisador tem razão quando diz que há que se pensar em custos de combate, porque é óbvio que tem se traçar estratégias, vias, rotas de combate, assim como de recuperação ambiental.

O histórico da área, quantas vezes ela pegou fogo, e seus usos passados (agricultura, pecuária, compactação do solo etc) interessa muito para dizer sobre sua recuperação. Há que se pensar nisso tanto no combate como na sua recomposição. Para isso, monitoramento é essencial, e nisso, o IBAMA, com todas suas falhas, dá banho na SEMA.

Aliás, achei bem lúcida a declaração do Coordenador da Rede que concentra os guias e brigadistas, com bem mais noção de sucessão florestal e sobre os danos do fogo, até mesmo logisticamente. Falou com bem mais responsabilidade que o pesquisador e que as autoridades.

Enquanto isso, o mesmo analista ambiental que escreveu a mensagem do post anterior deu uma descrição bem mais clara dos danos irreversíveis que um evento desses causa. Faltou à jornalista (ou ao revisor da publicação on line) fazer um cursinho básico e aprender a escrever nome científico corretamente, mas mesmo assim o conteúdo não foi comprometido.

Lendo as duas matérias, a que diz que os danos à biodiversidade são inexoráveis, que cita o incêndio nas áreas onde tinham sido recém descobertas espécies endêmicas de orquídeas, que lembra dos danos aos cursos hídricos, com o assoreamento, e a outra, do Doutor em que diz que o fogo pode não ser o grande vilão, eu até entendo que o pesquisador tenha suas razões para dizer isso, mas vejo que ele está muito debruçado sobre seu tema de estudo e não consegue sair dele, enxergar o mundo lá fora.

Esse é um dos problemas da academia, e tem gente que nunca saiu dela. Sai da faculdade, entra no mestrado. Sai do mestrado, entra no doutorado. Sai do doutorado e começa a dar aula e a formar os futuros profissionais. Torcem o nariz para os que não são do seleto clã acadêmico, mas na verdade muitas vezes têm pouca interação com a praticidade da vida real.

15/11/2008

CORAGEM











Todas as fotos de Fernando Vivas/ Agência A Tarde (12/11/08)


Não o conheço, mas com o e-mail deste analista ambiental do ICMBIO, que circulou por aí, muitos servidores públicos da área ambiental, como eu, que vivem sob pressão, ouvindo dos chefes para serem mais compreensivos e condescendentes, mas vendo de perto as mazelas pelas quais o meio ambiente passa em virtude da inoperância que nos assola, se sentiram profundamente solidários e ao mesmo tempo vingados pela mensagem dele ter vindo a público (o que infelizmente não ajudou a apagar o fogo da Chapada).

Vai aí o e-mail dele:

"Há momentos na vida em que precisamos fazer balanços e avaliar nossos rumos, paravermos que direção iremos tomar. Hoje, completo 39 anos e dentro de quatro dias completarei seis anos de serviço no IBAMA/ICMBIO. E sou obrigado a concluir que foram seis anos perdidos. Tudo o que fazemos é inútil. Este parque nacional perdeu o sentido de existir. Exagero? Mais de 50.000ha queimados só dentro do PNCD, fora as áreas ao redor. Toda área do PNCD ao sul de Mucugê foi destruída.

Isto significa que provavelmente algumas espécies endêmicas do parque foram extintas. Entre os animais, os pequenos mamíferos vão morrer de fome, pois não há o que eles possam comer. As aves, que estavam nidificando, devem ter perdido suas crias. Esta é uma tragédia sem precedentes. De minha parte, fica a sensação de impotência e de ter trabalhado todo este tempo em vão. Todos os esforços para elaborar o plano de manejo da unidade, todo o esforço para ver se saímos do atoleiro burocrático das questões fundiárias, todos os outros trabalhos, tudo sem sentido. Isto não é vida.

O que causa isto tudo? A verdade é que a gente faz de conta que administra um parque nacional. Ou alguém em seu juízo normal pensa que uma área com 152.000ha, com mais de 100 familias morando dentro, cercada por cinco cidades que, de alguma forma, dela se utilizam para atender a suas necessidades, pode ser administrada por cinco analistas ambientais e está tudo bem? Pelo que eu ouvi de um colega de Brasília, decerto sim, pois ele teve o despautério de me dizer que nos EUA as UC federais tem apenas um servidor federal, o resto é estadual ou municipal, ou mesmo particular (umas três mil pessoas). Bem, três mil pessoas é provavelmente muito mais que todo o efetivo da Secretária de Meio Ambiente do Estado da Bahia. Mas este colega vive realmente em outro mundo, já que queria que participássemos de uma reunião fora daqui e se sentiu ofendido quando dissemos provavelmente não poderíamos mandar ninguém devido a tragédia que enfrentamos.

É esta maldita divisão do IBAMA/ICMBIO? O setor do IBAMA que cuida do combate aos incêndios já não vai mais atuar nas UC no ano que vem. O setor do ICMBIO que cuida disso conta com três ou quatro pobres coitados que vão ter que rebolar para dar conta dos problemas. E quando chegar outubro do próximo ano? Não vou usar palavras de baixo calão, mas dá vontade. O IBAMA da Bahia não está nem aí para a questão do fogo. E a estrutura do
PREVFOGO, vão fazer o que com ela? Formar brigadas municipais na Amazonia, como fizeram este ano. E aí tome chamar os colegas no meio da temporada de incêndio para ministrar cursos em outras partes do País, porque faltam instrutores, como também aconteceu este ano, quando nosso gerente de fogo teve que vir às pressas de Sergipe onde tinha sido mandado, contra a nossa vontade, para dar apoio a outras UC. Nada contra apoiar outras UC, mas no meio da temporada de fogo?

E os Equipamentos para os brigadistas? Fora o problema dos coturnos de má qualidade, que pode acontecer, fica a questão dos voluntários, que até agora não receberam os EPI. Já mandamos diversas vezes listagens e mais listagens com as relações dos voluntários, mas nada!! E temos 150 caras apagando fogo dentro da UC sem equipamento. No dia em que um deles se machucar feio, quero ver quem vai se responsabilizar. Isto sem falar no tal seguro, que era para vir e até agora nada.

O que ficamos vendo, o tempo inteiro, são nossos superiores imediatos batendo cabeça, atolados em mil coisas a fazer, sufocados no meio da loucura destas instituições falidas. Muitos tem até boa vontade, nem que seja para dizer que, no meio desta desgraça, alguma coisa boa vai acontecer. Duvido. Na verdade, acho que era hora de pensar em acabar com esta falácia e extinguir o PNCD. Podemos criar uma outra coisa no lugar, como uma Flona. Estou tentando ser pro-ativo e salvar alguma coisa.. Com a FLONA, nós poderíamos corrigir uma série de problemas que hoje, com o parque, são impossíveis, como regularizar a extração mineral na área, manter as comunidades, organizar a coleta de sempre-vivas, produzir mudas de espécies nativas, manter e ordenar a visitação, e até fazer o fundo de pasto em áreas de gerais. Não mudaria muito em relação ao que já existe hoje, além de aproveitar muito do trabalho já feito no PNCD, apenas adaptando o Plano de manejo e fazendo a regularização fundiária. E para nós, que vivemos aqui, seria uma vida muito mais fácil e feliz.

OU alguém acha que nós gostamos de ficar, como meus colegas, 10 dias seguidos sem ver filhos e esposas? Vendo seu filho acordar de manhã e dizer "adeus, papai" ao invés de "bom dia"? Isto sem contar com a revolta de brigadistas e outras pessoas da comunidade, que recaem sobre nós. É o caso de um dos lideres de brigada que já lançou manifesto na internet, como sempre atacando pessoalmente os servidores. Coitado! Sempre errando o foco! Não consegue perceber que o problema é mais em cima. Poderia ser quem fosse aqui, qualquer liderança ou chefe, o problema seria igual, porque o problema é estrutural: os órgãos é que são falidos! Além disto, o belo movimento de brigadas voluntárias que temos aqui só existe aqui - e este é seu problema: como vamos conseguir convencer os chefes dos irmãos siameses ICMBIO/IBAMA que isto é importante, se os outros 65 parques nacionais funcionam sem elas? E eles nem conseguem implantar políticas gerais para todas as UC, quiçá fortalecer e melhorar uma única experiência local. É um desafio conjunto. Mas quando não dá certo, o jeito é bater em quem está mais perto, mesmo que seja peixe pequeno neste mar de tubarões em que vivemos.

No estado de espírito em que estou agora, é provável que eu fosse para qualquer lugar onde quisessem me mandar (menos a Amazônia - se aqui é o inferno, lá é onde mora o diabo - quem trabalha lá sabe). É provável que amanhã eu mude de idéia. Mesmo a vontade de chutar o balde e me demitir também não deve se concretizar - tenho duas filhas em quem pensar e uma esposa que está estudando para concretizarmos um projeto, agora não é hora. Vou levar a vida e fazer o meu trabalho, mesmo sabendo que não serve para nada. Não tem jeito, por enquanto.

Finalmente, preciso deixar claro que tudo o que disse aqui é minha opinião pessoal. Eu vou utilizar os recursos disponíveis no parque, à revelia de meu chefe, para enviar esta correspondência, mas ele não sabe do teor - vai saber, é claro. E minha revolta é grande, mas acho que vou superar. Feliz aniversário, Cezar! Os que estão em casa agora, curtindo seu fim de semana, se puderem, lembrem de mim e de meus colegas. Mas duvido que isto vá acontecer. Amanhã, devo receber umas ligações de superiores dizendo: o que isto, Cezar? Você tem que ser mais político! Bom, venham para cá, no nosso lugar, que nós seremos mais políticos."

ARDENDO

Fumaça
Tudo fumegando
O fogo avança
Aqui ainda não chegou, mas ao fundo....

O Secretário, arrumadinho com seu impecável gel no cabelo, fotografa, curioso, enquanto metade da Chapada se incendei
a

O avião da FAB é um monstro

Brigadistas na mistura do pó químico (atividade que oferece risco, como as outras, liás, e precisa ser supervisionada e ter segurança).

Nuvem de fumaça

Fogo, fumaça, combate

Como me disseram, pareciam paisagens vulcânicas

Brigadista corajosa, guerreira em ação

Triste cenário

Mais um foco sendo checado

O fogo chegou perto das casas

Todas as fotos de Fernando Vivas/Agência A Tarde (10 e 11/11/08)


No dia 31 de outubro, o IMA - Instituto de Meio Ambiente do Estado da Bahia - noticiou em sua página que os incêndios na Chapada Diamantina já estavam controlados em 6 dos 20 municípios, que decretaram estado de emergência e 53 dos 60 focos já tinham sido apagados. Daí para a frente, foram só elogios à bravura e ao trabalho árduo dos bombeiros (que realmente, merecem todos os elogios), mas não citaram, em nenhum momento, algo como planejamento, parceria com outros orgãos, (federais, inclusive - sim, eles existem!), metas ao curto e longo prazo, perspectivas para o próximo ano e coisas do tipo.

Ok, ok, talvez não fosse o objetivo da nota. Mas talvez simplesmente eles não tivessem o que falar mesmo. Não falo especificamente do IMA, mas do Governo do Estado da Bahia, que me parece despreparado, desarticulado, perdido.

Tanto que no dia 01 de novembro saiu no Diário Oficial do Estado da Bahia que a situação do incêndio na Chapada estava controlada, a verdade de campo era outra. Ou talvez, como é habitual não só neste, mas em todos os governos, quis dar a entender que tudo estava bem quando na verdade não estava.

No dia 09, o DOE publica uma matéria dizendo que os órgãos ambientais estão preocupados com o número de queimadas, porque historicamente o período crítico vai de agosto a outubro.

Oh, meu Deus! O que devemos fazer enquanto metade da Chapada pega fogo? Seria uma boa alternativa rezar para São Pedro? Mas a data do padroeiro já passou, será melhor esperar o ano que vem? Ué, mas eu li no jornal que já estava tudo controlado.... Mas rapaz, você não sabe como é a natureza, rebelde? Quando menos se espera, ela vem e pimba, prega uma peça na gente... Culpa do fim dos tempos!

Fim dos tempos é colocar nas manchetes dos jornais que a situação está controlada e depois ter que passar a vergonha PÚBLICA de ver a incompetência da propaganda falsa virando cinzas.

Três dias depois, o mesmo Diário Oficial anunciou a intensificação do combate aos incêndios. Mais uma vez, a matéria jornalística se detém em números que tentam impressionar o leitor desavisado.

Vem cá, se o governator decreta situação de emergência todo ano para um bocado de municípios pela mesma causa, se é sabido que todo ano ocorrem incêndios (não só na Chapada, mas tb no Extremo Sul), se já sabem e dizem que desde junho estão trabalhando nisso, qual é o problema? O clima, esse grande traidor? Ou os culpados pela ação criminosa, esses mal-va-dos?

Ora, se apagar incêndio fosse fácil, não precisaríamos do trabalho de base das brigadas, tão esquecidas e mal assessoradas, sem comida, sem equipamento de proteção individual, sem trabalho de articulação durante todo o ano para finalmente poderem - com a condição que merecem - trabalhar dignamente nas situações de emergência, e com comando efetivo. A articulação, nunca é demais lembrar, cabe aos órgãos governamentais, IBAMA (ou ICMBIO?) incluídos.

O caso do IBAMA/ICMBIO é bem grave tb, não custa lembrar. Eu nem sempre cito aqui, porque não sinto muito de perto, mas a crise de identidade dos dois órgãos causa sequelas até agora. Servidores do PREVFOGO já se manifestaram em relação a divisão do IBAMA em maio de 2007, e a situação no ICMBIO de perto é desesperadora como bem confirma o testemunho de um analista ambiental servidor do Parque Nacional da Chapada Diamantina (PNCD), que lotou as caixas postais de boa parte dos ambientalistas nesta semana.

Enquanto as colunas especializadas estão de olho nos órgãos federais, nos resta ficar lendo o jornal A Tarde e ter o desprazer de nos deparar com as declarações esdrúxulas do Secretário Estadual de Meio Ambiente.

Se o IBAMA e o ICMBIO têm seus problemas, que não são poucos, o que dizer da Secretaria de Meio Ambiente do Estado da Bahia? Como melhor adjetivá-la? Abaixo da crítica? Talvez seja pouco.

Quem será que tem informações mais confiáveis a respeito das proporções do incêndio? O pessoal do PNCD, que sobrevoou a área, mapeou os pontos de foco de incêndio e fez uma estimativa de 50% da área do Parque incendiada, ou o Secretário Juliano Matos, que contestou a informações?

Ele não sabe se é mais ou se é menos, mas diz que a SEMA "está fazendo uma fotogrametria de satélite". Eu achava que fotogrametria era só para fotos aéreas, com imagens de satélites o caso era outro, mas como não é a minha área posso estar falando besteira....

Eu achei que a SEMA tivesse dito que tava tudo controlado; assim, que não tivesse se programado com a antecedência necessária para fazer licitação para a compra das cenas das áreas atingidas, justamente nos períodos em que o fogo pegou para valer.

Aliás, eu nem sei se em casos como esses o satélite funciona como ferramenta eficaz de avaliação, ou se ele é uma ferramenta para avaliação de um período para o outro. Mas de todo modo, contestar a informação de um sobrevoo fresquinho é um pouco demais, néammmmm?

A Defesa Civil também diz que a informação "não procede" e que o PNCD abrande apenas nove dos 31 municípios da Chapada. E que todo mundo fica acusando o Estado, ai meo Deos, que coisa, gentem, parem com isso, ai ai ai!

Além do mais, se o plano está pronto desde abril, não tem problema, nós estamos em novembro e está tudo certo, não estão vendo? Para ficar melhor, só a chuva, afirma o Cezar, esse grande e corajoso cara.

04/11/2008

ADIOS

Salmões preparados por mim em duas versões: com molho de mel, mostarda e castanhas e arroz com iogurte, alho frito, manjericão e alcaparras e Com salada de tomate, rúcula e palmito

Que eu amo salmão não é novidade. É bem fácil de fazer, já escrevi sobre isso, em um dos meus inúmeros posts com fotos de delícias salmonescas (aqui, aqui, aqui e aqui). Mas me enganei ao achar que era saudável. Saudável é o salmão lá do Hemisfério Norte, em seu habitat natural, nadando contra a correnteza.

Só que o que a gente come (e só por isso consegue comprar, porque senão não ia estar abarrotado de salmão nas prateleiras dos supermercados) é salmão criado no Chile. Nos mesmos moldes da carcinocultura (criação de camarões) aqui no Brasil, e especialmente aqui na Bahia, cujas desconformidades são bastante criativas, tanto sociais quanto ambientais.

Na samonicultura chilena, o caso não é diferente. Primeiro, porque sendo o salmão criado em condições diferentes das naturais, ele tem que receber vários hormônios, suplementos alimentares e antibióticos. Aquela coloração linda dele, ele só tem porque tem a atividade física que lhe é inerente, então dá-lhe corante. Pronto, temos um salmão totalmente falsificado (não pensem que com o camarão de carcinocultura é muito diferente!).

Isso tudo vai conduzindo a situação para um manejo genético com efeitos no mínimo desconhecidos, fala-se num supersalmão. E uma coisa dessas, sendo super ou não, é bem capaz que tenha substâncias cancerígenas mesmo. Não se trata de ser carola e desconfiar de tudo, mas de primar pelo Princípio da Precaução, que é o que o Brasil não faz em relação aos transgênicos, por exemplo.

No caso dos produtores de salmão, como em casos similares (soja, camarão), eles preferem, desqualificar os estudos que desapontam os interesses econômicos deles a discutir de maneira sensata maneiras de diálogo, ajuste, certificação.

Para produzir 1 kg de salmão são necessários 3 a 5 kg de peixe fresco. É insustentável. Como a criação de camarões, que custa mais de R$ 12,00/kg, e o kg é vendido por kg ao distribuidor (ou algo assim, é um disparate). Como fecha a conta? O segredinho é que as empresas multinacionais que fornecem a ração são subsidiadas pelos bancos públicos (o maravilhoso BNDES capitaneando isso), ou seja, com o nosso Imposto de Renda de 27,5%.

E os salmões chilenos, assim como os camarões baianos, por conta da enorme densidade dos tanques e outras detonations, ficam doentes, e dá-lhe remédios que o FDA (agência reguladora de produtos alimentícios e farmacêuticos nos Estados Unidos) não aprovam, mas que no Chile são utilizados indiscriminadamente. Além disso, as redes que revestem os tanques têm umas pintura com cobre e benzeno para que a lea não se agregem outros organismos marinhos.

Não obstante a catástrofe ambiental, a samonicultura é um modelo de exclusão social, que como todos seus similares é abraçado vigorosamente pelos governos irresponsáveis e amadores, porque produz excelentes indicadores econômicos. Quer dizer, me recuso a acreditar em indicadores econômicos que não levem em conta a depreciação dos recursos naturais e em PIBs que não considerem externalidades. E em números de empregos gerados que não analisem a qualidade desse emprego face a outras alternativas que poderiam ter sido implantadas.

Fazer política assim, numa república de bananas, salmões ou camarões, não fica tão difícil. Trazer uma indústria de pescado que na Noruega tem que andar pianinho e no Chile pode fazer a festa tributária, trabalhista e ambiental, todo mundo quer.

Eu quero é saber como faço na substituição disso na minha dieta alimentar.