6.12.11

ESPERTA

Sapatos TUDO (inclusive impossíveis de andar) da Datelli

Olhei para a porta de vidro contornado por recortes de madeira, que confere ao prédio de quase 100 anos aspectos curvilíneos e sinuosos vindos da Art Noveau.

Motivo algum para ficar nervosa.

Porém, qdo o vi adentrando o Café, pensei:

- "Estou ferrada".

Fingi que não vi.

Afinal, ele não lê pensamentos e não iria adivinhar que eu olhava insistentemente para a porta antes da sua chegada.

- "Oi", então eu disse, fingindo surpresa ao vê-lo e certa de que estava sendo convincente.

Se eu pudesse, fecharia os olhos naquele momento e o mandaria embora. Ou imploraria para ele me agarrar, imediatamente.

URÉIA

Esperando o portão para a prova do Concurso para Itaipu abrir. Sapatilha: Santa Lolla. Curitiba, novembro de 2011.

Andei sondando seu passo
Com olhar benevolente
Mas não acompanho rastro
Que vai fora da patente

4.12.11

RESTOS

Linha de trem na Barreirinha, Curitiba, PR


Comida de gente no prato do cachorro, comida de cachorro no prato de gente.

Cupins da afetividade destruíram o chão, sob o qual há apenas a dureza da rocha.

Tempestades emocionais carregaram para longe as telhas.


A porta do desafeto só abre com um faca travestida de maçaneta.


O jardim desprotegido é agora um pátio barrento.


O tapete do desamparo abriga a placenta canina.

Eu, antigo capacho, agora não abrigo nem compreensão.

ROADS

Área em frente à casa da minha mãe, em Curitiba.




Abriu a porta, calada.

Meu sorriso, minhas perguntas, minhas expctativas: todos sem resposta.

Olhou de costas para o vazio da janela.

Sumiu.

Dormiu.

Fui embora.

19.11.11

WELCOME

Show da banda Pie'n'Gusso, parte do projeto Garageiras Curitibanas,  no TUC. Curitiba, 19/11/2011.

Chego no TUC - Teatro Universitário de Curitiba - num final de tarde ensolarado, em tempo de testemunhar os preparativos para o show da banda Pie'n'Gusso, idealizada por Norberto Pie e Marcus "Coelho" Gusso. A eles juntaram-se o guitarrista Lucian, que tem 22 anos e toca em 6 bandas,  e o baterista Giva, das bandas ruído/mm e Red Tomatoes. Parte do projeto "Garageira Curitibana", o show reuniu no palco dois dos caras que eu mais admiro no rock curitibano.

Não sei quem eu conheci antes: Beto, Coelho, July et Joe, Vorvolaka Pray,  Skdjcutle (como se escreve?), Garotos Chineses, Magnéticoss, aaaaaa Malencarada, Maremotos, Hellfishes ou Easy Players. Sei que esses "meninos" conseguem estar presentes em bandas sempre fabulosas. 

Coelho se tornou meu amigo a partir dos anos 90. Multinstrumentista, produtor musical e engenheiro de som, sempre foi capaz de conservar nossa amizade, não obstante seu talento e incrível crescimento de seu círculo social.

Já Norberto tem um incrível alinhamento musical com minhas preferências, embora a gente nunca tenha conversado especificamente sobre... música! Eu acho isso simplesmente admirável, é como se ele captasse o que eu quero e gosto de ouvir - muitas vezes o que eu estou ouvindo em determinado momento, sendo uma coisa nova ou velha - e transformasse aquilo simplesmente no seu trabalho, que foi concebido muito antes de eu estar naquela fase sonora.
 
Ontem de tarde, enquanto a banda passava o som, eu comia um pastel com a namorada do Coelho e falava da minha imensa alegria por estar de volta a Curitiba. Do prazer em encontrar as pessoas com as quais eu me identifico, mesmo após tanto tempo sem vê-las, e ser tão recebida.

Ela então falou, muito prática:

- É amigo, né?

É, Rita, é amigo. Amigo é assim, e eu tinha esquecido. 

E meus amigos trabalham duro. Não bastasse o extremo talento, ainda têm uma coisa que eu tenho de menos - paciência. Para passar o som, ver o retorno, a altura do microfone, os graves e agudos da voz, a afinação da guitarra.

Sim, qual é a novidade disso?

A rigor nenhuma, pois metade da minha vida foi com as bandas e metade no mato. Ver passagem de som não é exatamente uma novidade para mim.

Mas percebo que há 20 anos atrás eu não tinha essa percepção da trabalho alheio. Talvez até porque fosse muito natural se fazer o que gosta, e sobreviver disso. Aliás, quem há 20 anos se importava, realmente, com a maneira pela qual ia sobreviver? Alguns, reconheço, mas não eu, verdadeiramente.

Sobreviver era criar. Sobreviver era pensar. Sobreviver na verdade era algo que se fazia sem esforço algum. Brotava.

E enquanto aqueles "meninos" - sim, eram meninos, ainda mais com o desvio padrão etário quando se leva em conta Lucian e Giva na amostragem - trabalhavam na minha frente, preparando o espetáculo, eu pensava na importância de se gostar do que faz e - no meu caso -  estar onde se gosta.

27.10.11

SWEET DREAMS


Ele dorme.

E hj eu sem sua voz. Sem seu acalanto, sem seu conforto.

Mas com meus sonhos.

Boa noite.

11.9.11

O NOSSO 11 DE SETEMBRO

A cerimônia nem tinha começado e a pessoa já se debulhava em lágrimas

Quebra de protocolo parte 1: a pessoa AGARRA a oradora (mas ela me deu motivos, teve uma fala de arrasar - acho)

Falar não foi a parte mais difícil

O discurso para Marinoca, para variar, emocionou.

No banner do evento, uma frase do meu pai: "É preciso se deixar surpreender e surpreender sempre".

O Esquadrão se apresentou no final. Todos os irmãos juntos, eu no início, as irmãs na apresentação e os meninos na plat[eia, tirando as fotos com nossas máquinas de disquete.

Eu, o Esquadrão e o sonho que não acabou. Quebra de protocolo número 2: como uma pessoa vai a uma cerimônia oficial com uma saia desse tamanho? Ok, era uma saia nova e eu estava entusiasmadíssima com minha aquisição.


Em 2003, eu estava participando de um curso de Manejo e Inventário Florestal em Guanambi, no sudoeste baiano. A repartição não andava muito contente com os resultados técnicos de alguns Relatórios. A idéia era boa - fazer florestais, biólogos e agrônomos compreenderem a realidade e diversidade dos biomas baianos sob a perspectiva do licenciamento e fiscalização de empreendimentos com alguma inteface com recursos florestais (ou seja,muitos).

O Curso, com excelentes professores da UFRPE, transcorria muito bem quando eu recebi a notícia:

- Parece que o povo do Conama está se mexendo para que o dia do aniversário do seu pai vire Dia do Cerrado.

Não reagi bem. A morte dele era muito recente, e eu não queria homenagem alguma. Queria ele vivo, ali, ao meu lado.

Estava feliz pelo momento político que estávamos vivendo, principalmente no Ministério do Meio Ambiente e reconhecia que em outros tempos isso jamais teria acontecido. Lula - que não teve meu voto (que é nulo desde os 1989 anos nulo, com poucas excessões) tinha feito um bom MMA, um bom Conselho de Meio Ambiente, com "gente como a gente" lá dentro.

Achei que finalmente a questão da mineração seria resolvida por lá. Nada mais de mineração em APP, de mineração ser declarada de utilidade pública, de processos indeferidos na análise técnica passarem nos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente.

Olhando para trás, não creio que eu tenha sido ingênua por acreditar nisso. Hoje tenho, irremediavelmente, mais experiência, mas na época eu não era assim tão tola. O que nenhum de nós - ou ao menos não todos nós - sabíamos era como se comportaria um governo de "esquerda" operando em regime de "governabilidade".

Apesar de esperançosa, na prática eu estava - e isto seria apenas o começo de uma LONGA jornada - preocupada com os rumos do licenciamento na repartição. Procurava alternativas, sempre, trabalhavao muito e me via totalmente sem lastro para segurar a onda, que estava longe de ser uma marola.

Aí, eu no meio do nada, vendo o quanto gostava da Ciência Florestal mas o quanto ela estava longe da realidade burocrática de uma instituição licenciadora, parti rumo a Brasília encontrar meus irmãos e seguir numa van para Goiânia, onde o pai seria homenageado no III Encontro e Feira dos Povos do Cerrado.

Não foi fácil. Mas foi preciso estar lá.

Hoje, oito anos depois, vejo mais uma vez que as coisas têm seu tempo para acontecer.

Tenho saudades do meu pai, vontade de contar para ele as novidades. Ele ficaria feliz.

Assim como nós ficamos ao pensar nele.

Pai, Feliz Aniversário!

7.9.11

PÁTRIA AMADA

Vinícius (estudante Eng Florestal/UFPR), Éder (estudante Biologia UFPR) e eu no gabinete do vereador Toninho da Anderson (PP), enquanto este preparava o discurso em defesa do Código Florestal. Câmara Municipal de São José dos Pinhais, 01/09/2011.
Adelson, estudante de Biologia da UTP, Toninho, eu, Éder e Vinícius após a sessão plenária.


Nota no Correio Paranaense


Visita do SOS Florestas/PR no site da Câmara Municipal de São José dos Pinhais.


Após as palestras de abertura da XIII Semana de Biologia da Universidade Tuiuti do Paraná, um estudante nos procurou. Animado, nos convidou para ir no dia seguinte à Câmara Municipal de São José dos Pinhais/PR, para falarmos sobre o Código Florestal.

Em tempos bicudos - se não o fossem, não teríamos, dentre outras coisas, a proposta de mutilação do Código tramitando no Senado - o convite vindo de alguma instância de poder já me causou um (boa) surpresa.

Parecíamos todos revigorados com os ventos que sopraram após a palestra de Teresa Urban, que compôs a mesa para tratar de "Patrimônio Natural do Paraná: presente e futuro", e fez um recorte sobre o Código Florestal, bandeira que empunha com firmeza.

O convite era irrecusável. Durante a palestra de Teresa, o rapaz havia telefonado para o chefe, um dos 14 vereadores de São José, e deixado tudo engatilhado. Só estava esperando nossa resposta:

- Sim, disse eu.

Ainda sonolentos, na manhã seguinte eu, Éder (19 anos, estudante de Biologia da UFPR) e Vinícius (20 anos, estudante de Eng Florestal da UFPR) nos dirigimos pelo caminho que a moça do GPS nos indicou para chegar ao nosso destino.

Adelson, o estudante, futuro biólogo e assessor parlamentar entusiasmadíssimo nos recebeu e em poucos minutos chegou o vereador Toninho da Anderson (PP). Seria realmente uma manhã de surpresas.

Não me cabe aqui elogiar a vida pública de alguém cuja conduta nunca acompanhei, mas posso falar dos momentos que passamos no gabinete. Em primeiro lugar, se eu encontrasse com aquele senhor num local que não fosse uma casa legislativa, talvez não suspeitasse que ele seria vereador. E, caso ele pedisse para eu adivinhar de que partido ele era, jamais eu diria que ele seria do PP.

Então, começamos a conversar sobre o Código. Logo, Toninho escreveu seu discurso, conclamando todos os vereadores a assinarem o manifesto em defesa das florestas, feito cumprido por todos os presentes à sessão.

Para um município como São José dos Pinhais, onde a presença dos mananciais estabelece sua importância no abastecimento de água da Região Metropolitana de Curitiba, a discussão do Código se reveste de especial interesse.

Após a sessão, andamos por alguns Gabinetes - com a facilitação do escudeiro Adelson e conseguimos o comprometimento de alguns vereadores em relação à divulgação do abaixo-assinado junto às suas bases.

- Ah! Comprometimento? De políticos, ainda por cima? Vc deve estar brincando!

Pois eu tb reagiria incrédula. Contudo, tivemos notícias que a avó de um estudante, que participa de um clube da Terceira Idade, assinou o manifesto, bem como o tio desse mesmo estudante, que é bancário.

Não por coincidência, visitamos dois vereadores cujas bases são exatamente essas.

O SOS Florestas é uma campanha apartidária. Une-se em torno de uma causa. É, eu não imaginava que isso seria possível num país em que vejo, desde que comecei compreender as coisas, mais ou menos aos dez anos de idade, o que todos nós temos visto.

Mas sempre temos muito a aprender. Muitas vezes, com os mais jovens, muitas vezes com o que já fizemos, e muitas vezes com o que está bem perto da gente.

Feliz Dia da Pátria para todos nós.

10.7.11

RETURN




De repente, duas bandas que passei décadas sem ouvir - mas que no último semestre ficaram girando REPETIDAMENTE em todos os aparelhos emissores de som ao meu alcance - iam tocar na cidade na qual me encontro.

Calhei de ouvir antes DeFalla, e depois, Beijo aa Força, desde que me mudei para São Paulo.

DeFalla porque me pareceu cru o bastante para expressar toda a euforia e desforra pelo fato de eu estar numa megalópole após 13 anos de desidentificação cultural nos cantos onde morei.

Ouvia na academia quando tentava emagrecer para novamente ter a vida saudável e o corpo almejado, ouvia ao levantar em horário mais tardio que o recomendado pela culpa cristã, ouvia ao enfim começar meu dia, e cantava alto enquanto me embrenhava nas tarefas domésticas, fingindo que elas eram realmente essenciais para que as profissionais (re)começassem.

Ouvia antes de sair, sempre sozinha, para todas as agora atingíveis programações culturais e pensava que sim, logo logo eu estaria ambientada e não sairia, como sempre, sozinha.

Ouvia ao chegar, invariavelmente sozinha, em casa e subir com meus caros e espalhafatosos sapatos cosmopolistas os degraus do meu tão suado sobradinho da Mooca.

Já Beijo aa Força eu ouvia menos - e menos para uma pessoa superlativa nunca é pouco - por absoluta covardia. A covardia que me afastou 16 anos de Curitiba, com raros e sumários retornos.

Conforme a resistência ao visitar Curitiba se esvanescia, minha história sonora com a cidade se refazia. Por meio de downloads no Stereo Toaster, as fitas cassete remendadas com durex e as coletâneas de vinil compartilhadas com as amigas ressonavam, de uma maneira que não precisava ser dolorosa nem incômoda.

Eu não precisava mais fugir da minha juventude. Afinal, parece que eu já sou gente grande.

6.7.11

ENREDA

Santo Antônio olhou por nós. Pecadores. SP, junho de 2011


2003.



Balcão do Sheena com o China.


Sobrenome alemão.


Jaqueta de couro.


- "Ele não morava aqui, ela não mora mais aqui".


Cabelos.


Dia seguinte.




2011.



Sobrenome alemão.


São Paulo, Salvador, Curitiba, Florianópolis.


Skype, Facebook, telefone celular, beijo na boca.


Acolchoado que esquenta.


Cabelos.


Todos os dias.

RIGHT NOW

Ipê-roxo no roxo da rua Jaboticabal.





Agora o meu sorriso não é de esperança.



É de certeza.


Agora minha risada não é de euforia.


É de satisfação.

2.7.11

DOIS PARA CÁ

Detalhe de obras para a peça "Náufragos da Louca Esperança", do Théatre du Soleil, em cartaz a partir de outubro em SP.

Aí a vida real chega, e é bom que ela nunca tenha ido embora.

22.6.11

LICENÇA

Lareira no dia de Santo Antônio

Ele veio de um jeito tão tranquilo que nem parece que eu esperei metade da minha vida por isso.

10.6.11

VIVALDI

My new old home.



Faz frio. Mas aqui é primavera.

20.5.11

PAUSA

Banheiro de Trainspotting em bar da rua Augusta - SP

As luzes de SP que esperem - agora respiro vapor do leite quente.

Um quarteirão estava sendo pouco para um mundo de óleo diesel.