28/03/2009

VÁ E ME CHAME

Ingressos da peça

Vista de um pedaço do MOM

Nessas férias, estou aproveitando para conferir algumas peças do Festival de Curitiba. Logo que cheguei fui ao Müeller comprar os ingressos, e as poucas peças da mostra oficial que eu gostaria de ver não tinham datas disponíveis com o meu calendário de TIA (sim, sou tia de um bebê lindo, mas isso fica para outro post).

Peguei a revista com a extensa programação e comecei a analisar o cruzamento de datas e horários, lembrando de um amigo de uma amiga (não conheço o cara pessoalmente, mas deve ser uma figura!) que faz planilhas no Excel quando participa de Mostras de Cinema, tipo vê seis filmes por dia.

O burbirinho lá na fila do Müeller estava grande. Logo de cara, aquela constatação: "nooooossa, como Curitiba é moderna!". Mas depois, passa e fica normal. Principalmente após uma olhada mais apurada na programação do Festival. Monólogo com Marília Gabriela? Comédias com "atrizes" do Zorra Total? Ter povo indo ao teatro é legal, mas não significa necessariamente que esse pessoal está indo ver coisas boas.

Gostaria de ver "Calígula", pelo texto e tb para agradar minha mãe, que AMA o Thiago Lacerda (risos), "O Zoológico de Vidro", porque acho que Tenesse Willians é satisfação garantida e gosto da Cássia Kiss, e tb gostaria de ter visto "Rainhas", com a Julia Lemmertz, se bem que parece que deu um chabu pela duração de 4 horas da peça.

Mas no Fringe, acabei escolhendo os dramas (oh, que novidade!) para ver com mamacita. Minha tendência é escolher clássicos, por mais que algumas sinopses me atraiam. Mas a gente nunca sabe o que vai encontrar pela frente. E percebi que o Fringe e até mesmo a Mostra têm isso, muito número e não exatamente o mesmo em qualidade.

Maíra, minha irmã que é atriz, já veio para o Fringe produzindo uma peça e falou que no Fringe o povo vem bancando o seu, então quanto mais gente vier, melhor. O que interessa para a produção é o número de inscritos, eles querem ter essa marca, de muitas peças participantes.

A primeira peça que fui ver foi "Fala Comigo Como a Chuva". Texto de Tenesse Willians, dois atores no palco. Trilha sonora escolhida a dedo, com músicas antigas francesas, alemãs. Os atores, muito bons. Na medida certa. Passam o que todos nós já sentimos numa relação a dois. Sacadas do cenário e do figurino fenomenais, atemporais, clássicas e profundamente vanguardistas ao mesmo tempo. Gostei muito da peça, se pudesse ver outras da Companhia, conhecer mais dos atores e da diretora, iria a fundo.

No mesmo dia, fui ver "A Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca. Foi um contraste, pois a peça tinha um lenco bem maior, dança e música ao vivo, era outro gênero de espetáculo. Os atores (as atrizes, melhor dizendo - o elenco é todo feminino) não me pareceram tão afinadas, embora de qualidade. Tinham algumas bem experientes, outras novinhas. Nenhuma fez feio. Gostei bastante do figurino e das soluções das danças, dos véus, aquela coisa bem austera do luto. A bengala da matriarca marcando o compasso percurssivo, uma coisa meio rodriguiana da tragédia anunciada quando a opressão e a moral são excessivamente rígidas.

Por mim, suprimiria sem dó nem piedade alguns trechinhos mais "engraçados". Achei um saaaaco! Sem graça total, e ainda tinha que ficar aguentando a platéia rir. Riem de quê, meu Deus do céu? Acho que banaliza, perde a verve. Tenho a impressão que fazem para que o público médio consiga digerir o amargor que é o texto.

Soy contra.

Uns dias depois, fui ver "2 de novembro". Não rolou, Bial. O texto tratava da relação mãe e filho e uma maneira meio superficial. Muita gente na platéia chorou, de soluçar. Eu tinha ovntade de lixar as unhas. Quer ver o que é drama de mãe e filho? Ligue djá, saímos comentando eu e mamãe querida (os mais chegados sabem beeeem do que eu falo). Não vira, uns dilemas de família classe média, com som de Roberto Carlos ao fundo, uma coisa kitsch demais.

"Nóis" só gosta se for drama bem di profundis mesmo.

Hoje vou ver "As Bruxas de Salém", e amanhã, "Camille Claudel".

26/02/2009

SALMORA

Passeio das Nove Ilhas
Visitando os manguezais pela Lagoa de Mundaú

Algumas ilhas são habitadas, e nessa tinha uns Pinus horrorosos! Quem plantou isso?
Numa delas, teve até criação de bodes e cabras, que o órgão ambiental, sabiamente, proibiu.


Um canalzinho lindo, onde só se entra em embarcações menores

O pescador, contando que no dia anterior achou um super cardume que lhe rendeu 47 kg de peixe. História de pescador?


A "cebola do mar", um tipo de água viva, mas que não queima.

No final do passeio, passagem sobre a ponte e o etenoduto da Braskem

Estragando a paisagem

Uma coisa que me causou assombro foi a fábrica da Braskem à beira-mar. Como pode, a região tradicionalmente mais nobre em todas as cidades, ser entregue de mão beijada para uma indústria? O que me chamou mais atenção foi o impacto visual, mas esse sem dúvida é só um dos múltiplos impactos associados ao empreendimento.

Quando voltei e fui pesquisar sobre o assunto, não deu outra. A Câmara de vereadores debateu o tema, mostrando-se favorável à relocação da indústria. Para mim, é o mínimo que deveria ser feito. Lugar de indústria é num Pólo Industrial, que preferencialmente tenha sido desenhado com todas as opções necessárias para garantir a saúde humana e do meio ambiente. E mais, eles devem sair de lá e continuar mantendo a área como um Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Obviamente, com aquela localização, fica muito mais difícil de manter boas condições emergenciais. E, pelamordedeus, que privilégio é esse? Qualquer um vem e se instala como e onde quer? Sem regras, sem normas?

A "desculpa" para a instalação da indústria no local é o sal. Devido à extração do mineral, necessário para o processo de obtenção de cloro e soda, utilizado na fabricação do PVC da Braskem, os espertos acharam mais conveniente que a fábrica ficasse lá, pertinho das minas. A Braskem comprou a antiga fábrica denominada Salgema, mas a minas de sal já foram esgotadas, hoje ele extraem o mineral de outro canto, pelo que li.

Para processar o cloro, a Braskem utiliza o eteno, que vem por um etenoduto que tem cerca de 470 (quatrocentos e setenta!) km de extensão, ligando a fábrica de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, à de Maceió. Hã? Porque não fizeram esse etenoduto de maneira menos agressiva ao olhar, ao menos na zona urbana? Isso detona o potencial turístico, e mais ainda, o direito do morador da cidade conviver harmoniosamente com a paisagem.

E porque eu achei na pauta de uma reunião do CEPRAM de Alagoas a revisão da Licença de Operação do etenoduto? Sendo um empreendimento que está presente em mais de um Estado, o licenciamento compete ao IBAMA, e não aos órgãos estaduais de meio ambiente (isso me faz lembrar que os gênios da Bahia deram o nome de IMA ao antigo CRA, deixando o "novo" instituto com o nome idêntico ao de seu congênere alagoano. Mas isso já é outra história). Os órgãos estaduais, no caso de um empreendimento de impacto regional, podem agir de forma suplementar, apenas.

Outra questão é: precisa-se mesmo desse etenoduto? Existem outras opções para a obtenção do eteno, a partir do gás natural ou da fermentação do caldo de cana. Esta última opção é chamada de plástico verde, mas deve-se tb atentar para o impacto da monocultura que vem a reboque dos biocombustíveis.

De qualquer forma, o que se vê nesse caso não é novidade: favorecimento econômico (a Braskem é do grupo Odebrecht) e os cidadãos pagando a conta.

25/02/2009

VELA ABERTA

Ao embarcar na jangada, várias visões diferentes

Jangadas na areia, edifícios, o mar...

De um lado, os barcos de pesca

Do outro, as canoas

A lida de todo dia no mar

Abrindo a vela, trabalho duro

Depois de colocado o mastro tranversal, desamarrar a parte de cima

Trabalho pronto, partir para outra etapa.
Molhando o tecido, para que a trama fique mais resistente a não haja rompimento com o vento.

Lá no meio do mar, somente uma jangada

Pé no sargaço

Pé com pé

Estacionamento de jangadas

O cardápio

Um dos passeios que fizemos foi a ida às piscinas naturais de Pajuçara. Essa coisa de turismo de massa sempre me fez torcer o nariz. Quando me falaram que era uma delícia, vc ia para alto mar e encontrava as piscinas, onde era servida por garçons, eu pensei: vai dar merda, imagina um monte de gente no mar, comendo e bebendo? Para onde vai o lixo todo, será que existe algum estudo de impacto de carga, limitação para o número de visitantes?

Essas coisas fazem com que eu tenha um pouco mais de consciência crítica em relação ao senso comum, que se empanturra de cerveja, joga as latas não sei onde e fica feliz ouvindo música ruim. Mas tenho que ter cuidado para não virar cricri, para odiar tudo, reclamar de tudo e acabar ficando uma pessoa chata (admitindo-se que ainda tenho salvação, hahaha).

Então, acho que se deve buscar um equilíbrio entre o patrulhamento e a diversão, entre ser totalmente dotada de personalidade e não ter capacidade para aproveitar os momentos simples que a vida nos proporciona.

É um aprendizado, ao qual eu tenho me mostrado disposta, e que tem me rendido alegrias e serenidade. Muita presunção achar que vai mudar o mundo, né? A dicotomia da menina que foi punk aos 15 anos e a mulher de 40 que quer tranquilidade.

Como dizia o Sérgio Sampaio, não é vivendo que se aprende mas é vivendo que se aprende a viver.

NOVIDADE?


Andreazza entre ACM e Figueiredo: tutti buona gente.
Foto: Veja


Funai demitiu antropólogos por protestos durante a ditadura


No segundo semestre de 1980, um grupo de antropólogos e indigenistas da Funai rebelou-se contra a política oficial de "integração" dos índios à "sociedade nacional" e entregou uma carta de protesto ao então ministro do Interior, coronel Mário Andreazza. Além de pedir a substituição dos coronéis do Exército e da Aeronáutica que comandavam a Funai, os indigenistas protestavam contra a demissão de colegas ligados à nascente SBI (Sociedade Brasileira de Indigenistas). A reação foi imediata: 68 indigenistas, antropólogos e outros servidores foram demitidos "por justa causa" ou "indisciplina" nos dias seguintes. Os arquivos da ASI (Assessoria de Segurança e Informações), o braço do SNI na Funai, revela que os antropólogos eram acompanhados por arapongas meses antes da crise -
FSP, 25/2, Brasil, p.A5.
Fonte: ISA

Não fico surpresa, pois desde os dez anos de idade esse Mário Andreazza não me desce. O que se podia esperar de um cara que votou a favor do AI-5? Que desse um tapinha nas costas dos antropólogos e falasse: é isso aí mesmo, tá tudo muito esquisito? Ainda por cima, dá nome a um viaduto aqui em Salvador. Para quê ficar lembrando de sua existência?

Só se for para tentar fazer justiça a esses profissionais corajosos. Não vivemos mais na ditadura, mas esse tipo de retaliação no serviço público ainda é comum, infelizmente.

24/02/2009

MARTELO ALAGOANO


Fachada da Catedral de Maceió

Interior da Catedral

"Balcão" lateralInscrições
Detalhe da porta, em vinhático

Anexo da Assembléia Legislativa, visto da Catedral de Maceió


Painel em alumínio, com motivos regionais

Várias cenas que remetem ao folclore e paisagens alagoanos

A autoria do painel é de J Maciel, escultor pernambucano.

Fugindo do Carnaval, fui conhecer Maceió. A primeira capital do Nordeste que conheço, fora Salvador, e o primeiro Estado, fora a Bahia. No início, pensávamos apenas em dar uma descansada, ir para o Litoral Norte, ficar aqui pela Linha Verde mesmo.

Mas a galera não tem noção, colocou os preços de pousada lá em cima. Aí dá um aperto ao pensar em pagar o quádruplo do preço numa viagem que está à mão, que vc pode fazer em qualquer final de semana pagando bem menos. Outras opções? Chapada Diamantina, onde os preços tb estavam salgados, e para onde também se pode escapar em uma outra oportunidade.

Aí, A. sugeriu Aracaju. Comecei a conversar com o povo do trabalho e descobri que Aracaju é o "quintal" dos baianos. Só que já estava tudo lotado, mesmo 30 dias antes da data. Então veio a sugestão de Maceió, idéia que eu prontamente encampei.

Foram todas as delícias de planejar a viagem, de comprar (consumo, consumo!) as coisas que faltavam para compor um look praiano, de reservar hotel e passagem, de saber que finalmente eu ficaria dias e dias ao lado dele.

Foi tudo maravilhoso, calmo, tranquilo. Até mesmo pequenos choques de visões, que inevitavelmente temos, serviram para consolidar mais o nosso namoro, que fez aniversário de dois meses. Foi interessante perceber como nos comportamos em situações que poderiam gerar alguma crise (eu e os meus radicalismos, muitas vezes inevitáveis) e que, ao menos por ora, a vontade que temos de ficar juntos supera outros aspectos.

Chegamos em Maceió num dia nublado, que aproveitamos para fazer um tour pela cidade. Conhecemos a Catedral, alguns mirantes, fomos à Lagoa do Mundaú, ao Mercado de Artesanato... Passamos em alguns outros lugares que eu gostaria de conhecer, como o Museu Palácio Floriano Peixoto, mas acabamos não entrando, em decorrência de outras escolhas no roteiro.

Gostei muito do painel no anexo da Assembléia Legislativa, assim como gostei de ver uma faixa numa avenida da cidade, dizendo não aos Taturanas. Impossível esquecer que eu estava na terra do Fernandinho Cheira Pó, o mauricinho, o playboy ladrão das carteiras das velhinhas, o cara que nunca deveria ter voltado.

Queria ter ficado mais por dentro de algumas manifestações culturais como o Boi Bumbá e também ter visitado algum memorial sobre Zumbi dos Palmares. Certamente há muito mais para se ver na cidade do que o que foi visto, mas para o tempo que dispunhámos e para os propósitos que tínhamos, valeu.

11/02/2009

O GOLPE DO CARNEIRO


Foto retirada d' O Globo

Filmes de boxe sempre têm um componente dramático na narrativa. Pelo menos os que eu me lembro de ter assistido, como "O Campeão", "Menina de Ouro" e "Cinderella Man". Assim, foi querendo e não querendo que fui ver "O Lutador", que marca a volta de Mickey Rourke às telas.

Sendo do diretor Darren Aronofski, o mesmo de "Réquiem para um Sonho", eu já fui esperando algo que não fosse um dramalhão abobalhado (mesmo que eu me entregue a eles muitas vezes). Esteticamente, "Réquiem" tinha apresentado alternativas para mim inovadoras, falando de velhos assuntos de uma nova maneira.

Não deu outra. Sombrio, introspectivo e principalmente, solitário. Assim foi o clima das cenas iniciais de "O Lutador", que tem recebido excelentes críticas. Curioso é o fato de Rourke voltar justamente num filme sobre, ou que envolve o boxe, já que de 1991 a 1995 ele chegou a deixar a carreira de ator um pouco de lado para se tornar um lutador profissional de boxe.

Se bem que não estamos falando de boxe. Estamos falando de luta livre, o vale tudo ou coisa do tipo. Isso é que Random "The Ram" faz no filme, após o seu auge. E se prepare, se vc for como eu, que se encolhe na poltrona do cinema a qualquer pancadazinha que vê na tela ou não gosta de ver sangue.

Ali, se ultrapassaram as barreiras éticas do boxe, e vale realmente tudo. E o diretor explora isso muito bem, propositadamente mostrando o que é para mim uma espécie de masoquismo. As cenas me causaram mal estar, pensei: mas que porcaria, odeio vir ao cinema e ficar vendo essas coisas.

Mas após essa necessária, segundo a visão do diretor, exposição dos bastidores e da dinâmica das lutas, a estória começa a se desenrolar. E não vitimiza The Ram. Ele sabe dos seus dramas pessoais, assim como sabe que o caminho foi escolhido por ele. Não cai na pieguice.

Existem momentos silenciosos, reflexivos. Em que ele percebe essas coisas. São momentos um pouco incômodos para o expectador. Marisa Tomei está bem no papel da streapper, quantos quilos eu tenho que emagrecer para ficar com aquele corpo que ela está aos 44 anos?

Para mim, a questão central do filme foi a dificuldade de se abandonar hábitos e estilos de vida, mesmo quando se sabe que alguns são menos recomendados que outros. As tentativas de se enquadrar na "normalidade", as explosões. O encontro com a nossa própria personalidade, a falta de amadurecimento.

Caiu como uma luva a preferência dos protagonistas pelas bandas de metal dos anos 80, tanto que o filme conta com Cinderella, Quiet Riot, Ratt, Accept e Scorpions, dentre outras do gênero, compondo essa atmosfera trash. Curioso um trecho da conversa entre eles, sobre os anos 90.

Quando tocam Guns N' Roses, tudo faz sentido: é difícil lutar contra nossa própria natureza. Ou contra o que nos acostumamos a achar que ela é. Maravilhosa é a canção final, que leva o nome do filme, intrepretada por Bruce Spingsteen.

08/02/2009

TONIGHT SO BRIGHT

Foto: Rebeca Gorender, roubada do blog Dois em Um (show do dia 28/11/08 no Boomerangue - Rio Vermelho - Salvador)


Time is never time at all
You can never ever leave without leaving a piece of youth
And our lives are forever changed
We will never be the same
The more you change the less you feel

Believe, believe in me, believe
Believe that life can change
That you're not stuck in vain
We're not the same, we're different tonight
Tonight, so bright
Tonight

And you know you're never sure
But you're sure you could be right
If you held yourself up to the light
And the embers never fade in your city by the lake
The place where you were born

Believe, believe in me, believe
Believe in the resolute urgency of now
And if you believe there's not a chance tonight
Tonight, so bright
Tonight

We'll crucify the insincere tonight
We'll make things right, we'll feel it all tonight
We'll find a way to offer up the night tonight
The indescribable moments of your life tonight
The impossible is possible tonight
Believe in me as I believe in you...
Tonight

(Smasihng Pumpkings)

Fui ao show do lançamento do CD do Dois em Um, projeto dos músicos e casal Luisão Pereira e Fernanda Monteiro sem saber ao certo o que me aguardava. Sabia que o som seria de qualidade, pois por Luisão ser multinstrumentista (ex-Penélope) e produtor musical, imaginava que passeava por várias searas e daria conta da proposta ao lado de sua parceira.

De Fernanda, eu só sabia que era vioncelista clássica (integrante da OSBA), linda, simpatissísima e que tem um gosto musical contemporâneo. Ela e Luisão foram duas ou três vezes lá em casa, levados por amigos em comum, quando eu ainda morava na Graça, e vendo o CD do Nick Drake ela comentou algo sobre "Cello Song".

Apesar de ter lido a matéria que saiu n'A Tarde sobre o show, eu fui para lá realmente despreparada. Fiquei com a palavra "melancolia" um pouco na cabeça, mas ela de certo modo não combinava muito com a impressão que eu tinha nem de Fernanda nem de Luisão.

Chegando ao Teatro Vila Velha, lamentei por não ir tão pouco ao teatro. Nem parece que sou filha de diretor de teatro e irmã de duas atrizes, e que passei parte da minha infância a adolescência nos bastidores. Lamentei também pelo espaço tão majestoso do Vila ser tão pouco reverenciado e ter que sobreviver, sabe-se lá como, batalhando patrocínios.

Nos acomodamos numa mesa de frente para o palco, embora a timidez de A. quisesse uma mesa menos escancarada no ambiente do Cabaret Café, onde se realizou o show. Mas eu queria ter a oportunidade de ver a dupla, participar dos pequenos momentos entre eles, compartilhar silenciosamente. E quando chegamos ao café do Vila Velha, ele ainda estava vazio, e as mesas ocupadas de uma forma que só praticamente nos restou aquela, na frente mas ao mesmo tempo no canto, nos convidando.

Então entram os dois. Para minha surpresa, Fernanda canta. Curioso, eu nem havia pensado que havia vocal. Nem que não havia. E, se havia, quem é que cantaria. Simplesmente abstraí o assunto. Então, foi uma surpresa ouvir a bela voz de Fernanda, dando o tom da noite.

E o tom é a suavidade. Aí nesse ponto, discordo em relação à melancolia. Não é nada melancólico, é suave, na melhor expressão da palavra, ou no que ela tem significado para mim.

Engraçado é que dentre as referências que li nas críticas no blog do My Space deles, todas muito boas, do que eu não discordo, eu vi muitas referências à Nara Leão (seráááá?), e ao Portishead, mas não vi nada escrito sobre o Stereolab.

E quando eu ouvi "Dias", que por enquanto está entre as minhas preferidas, imediatamente me veio à mente não algo sofisticado, cool, etéreo como Portishead, mas algo mais alegre, leve, colorido, juvenil como Stereolab.

"E Se Chover?" tem uns arranjos que me lembram Mutantes (eu e minha poucas referências musicais, claro que devem ter muito mais coisas lá no meio, tem toda uma coisa muito mais contemporânea no meio disso tudo).

Todas as músicas são de uma beleza profunda, como "Florária", e o Samba "Quem Era Eu?", que quando foi tocado, foi meio contagiante (para mim, isso que é samba, essa coisa meio os primeiros discos de Chico, 1966/1967, que eu tenho ouvido muito). A letra, com um certo quê de orgulho, com palavras um pouco arcaicas, me remeteu um pouco a Noel (claro, isso tudo é no meu imaginário, não é uma crítica especializada), e eu pensei: "deve ser um samba antigo que eu não conheço, muito bom esse samba!". Aí, hoje vou ver no CD que comprei, e o autor é Luisão! Ponto para o moço, né?

Para matar a véia a Fernanda e o Luisão me veem com "Tonight Tonight", dos Smashing Pumpkings. Aí foi fogo. A força do roque vindo com toda aquela suavidade. Eu ouvia no meu íntimo a voz de Billy Corgan se lamentando, e ao mesmo tempo a voz de Fernanda, apaziguando as coisas. Era como se fosse o encontro de tudo, a resolução da equação.

Eu, a punk, que gritava todas as músicas e para quem Smashing Pumpkins era uma banda leve, estava lá adorando ouvir tudo aquilo, num final de semana em que eu tinha me descorberto muito apaixonada pelo A., confiante e feliz por ele estar ao meu lado, compartilhando boa música comigo.

Ele também estava gostando de estar lá, embora não fizesse a mínima idéia de quem seja Smashing Pumpkings, e realmente, não é isso que importa. A sensibilidade dele permitiu que adorasse o show e ficou de cara com a humildade dos dois, o que eu referendo. Ao final do show, na hora de autografar meu CD (é claro que eu tinha que ter meu momento tiete), Fernanda falou que sabe das limitações de sua voz.

Quase esqueci de contar que entre as minhas preferidas também está a, segundo Luisão, brega (todo mundo tem um monento meio Márcio Greik, meio Odair José) "Eu Sempre Avisei", e a talvez mais down do CD, "Mais Uma Vez".

Mas a mais mais, o meu hit, a lálálá, é sem dúvida, "Do Seu Lado". Aimeudeusdocéu. Tocaram no show e já era. Eu me hiptotizei, transcendi. Depois eu fui ver que o parceiro de Luisão nessa música é o Peu Sousa, que fez várias pérolas e que eu admiro bastante como músico. Ficou redondinha, e agora eu acho que posso, sem pieguice, compartilhar as palavras da letra (apesar dela ter sido escrita num estado melancólico e eu não me sentir nada assim no atual momento):

"...
Acordar do seu lado é nascer
Dormir com você é existir
(...)
Esta melancolia é um contraste, um disfarce sem explicação
Para quem tem você na vida a tristeza é uma contradição"

02/02/2009

DIA DE FESTA NO MAR

Num dos extremos do percurso da festa, o mais próximo da minha casa, o módulo policial, ainda desativado, afinal eram 06h00. Passa lá 15h00, passa... Vai estar cheinho, cheinho....

No Largo da Mariquita, o início das mudanças no trânsito

Comprei logo minhas flores, porque achei que mais perto do fervo ia estar mais caro. O vendedor, maior simpatia. Avisei que ia tirar foto das flores, ela falou: aproveita e tira uma foto minha com o buquê na mão!

Chegando perto da colônia de pescadores, desci uma escadinha que dá para as pedras, pensando em fazer uma oferenda mais intropectiva dessa vez.Como não tenho o hábito de fazer longas orações de agradecimento (sim, a gente tem que agradecer mais do que pedir, pedir é feio!), e na verdade eu estava tão excitada com aquilo tudo acontecendo, tanta gente, tanto barulho, tanta coisa para ver, eu me desconcentrei total, eu pensava: onde eu estava mesmo? Achava muito mais interessante ver as pessoas à minha volta, olhar a paisagem, do que propriamente bancar a fervorosa. Quando chegou um cara todo arrumadinho, camisa, calça e sapato social brancos, e tirou da sua sacola um coco verde que devia ter um preparado muito especial, é que eu vi que aquilo, aquela reza, aquela entrega, era coisa para quem realmente tem fé. O cara fez seu cântico em voz baixa, bateu suas palminhas de modo discreto e silencioso, aquilo era importante para ele. Bem diferente de eu e meu papo de "onde eu estava mesmo?". Aí eu desencanei e subi a escadinha, para ver o resto da festa.

Até pensei em ir pelas pedras, mas pensei que se havia um caminho mais fácil, para que complicar?

Passei batido pela fila que as pessoas faziam para para depositar suas oferendas em balaios que vão para alto-mar. Desci a escadinha para a praia dos pescadores, onde haviam vários espetáculos a céu aberto, ainda bastante autênticos, mas alguns já um pouco sob encomenda para turistas e baianos interessados em desembolsar algum.

São oferecidos passeios rápidos de barco para que as oferendas sejam deixadas no mar.

Havia várias barracas instaladas na praia, algumas se preparavam para rituais, outras davam sinais que mais cedo tinham armazenado oferendas que já tinham ido para o mar.

Havia também vários iniciados no camdomblé (não sei como se chamam) com barracas com folhas, água de cheiro, sal grosso, arroz, enfim...
Um desses me chamou, falou que Iemanjá falou para ele que queria falar comigo. Bem, eu já tinha resistido ao assédio de umas baianas ao pisar na areia no início da praia, e chega uma hora em que vc pensa: eu estou na festa de Iemanjá, tenho que tomar um banho de cheiro e limpar minhas energias". Claro que no final do ritual, eu tinha que deixar R$ 20,00 para Iemanjá, mas por sorte eu saí apenas com R$9,00. Cincão foram nas flores, e assim, me desculpe Iemanjá, mas vc ficou com R$ 4,00. Minhas três rosas brancas, que eu estava vendo que eu não tinha onde deixar, foram providencialmente convidadas a ficar lá na barraca do chegado de Iemanjá.

A parte mais bonita da festa: uma roda que eu acho que era de umbanda

É emocionante ver como pessoas do dia a dia ficam majestosas

É uma comunhão com as forças da natureza. Ali, na areia, no mar, é o melhor lugar para aquilo tudo ocorrer. Tudo fica simples, tudo faz sentido, tudo deve ser louvado e agradecido. Estar ali , compartilhar aquele momento com aquelas pessoas, é uma dádiva.


Fui cedinho para a festa em homenagem a Iemanjá, realizada todos os anos no dia 2 de fevereiro, na colônia de pescadores do Rio Vermelho. Não tão cedo a ponto de ver a Alvorada, quando há um estourar de rojões e há a "inauguração" oficial da festa, ao amanhecer.

Desde ontem já havia pessoas depositando suas oferendas no mar. A fila na colônia, que fica ao lado da igreja de Santana, é grande desde cedo (cheguei lá às 06h30 e sem chances, fiquei com minhas três rosinhas brancas na mão, pois Iemanjá não faz conta se eu entrei na fila ou se joguei no mar, néam?).

Uma iniciativa louvável é a do Instituto Nzinga de Capoeira Angola, que está realizando uma campanha de conscientização para que as oferendas sejam menos nocivas ao meio ambiente. Contudo, há resistência por parte de líderes do candomblé.

Vejo que isso precisa ser trabalhado, e muuuuito. Alguém precisa usar esses métodos educacionais intelectualizados todos que estudam nas escolas de educação, nos mestrados e nos doutorados da vida, nas questões de aproximação da linguagem popular, para explicar para a galera que Iemanjá é vaidosa sim, mas ela é um orixá, muito mais antigo que a gente. Que nós somos uma abstração perto dela, que sabonete, boneca de plástico, tudo isso surgiu depois dela, então ela não pode fazer questão disso, que é apenas uma representação.

Isso me irrita. Como assim, se Iemanjá não gostasse disso, não dava mais peixe no mar? Já não está dando, e com todo o respeito, não é em decorrência da vontade de Iemanjá não. Então, Fundação Cultural, pega um pouquinho dessa dinheirama que tu joga nessas festas bizarras de shortinho e bunda de fora e investe no processo educacional ao longo do ano para essa galera do candomblé, que merece todo o respeito, mudar um pouco a opinião sobre a questão das oferendas.

Mas ante a grandiosidade da festa, essas questões, embora importantes, ficam secundárias. Não chegam a estragar o meu humor, embora eu as observe. Há modos e modos de curtir a festa. Por pouco que eu a conheça, eu acho que o melhor dela se dá na areia. Nos detalhes, nos cultos, nas crenças das pessoas.

Quando eu tinha quatro, cinco anos de idade, morava no Rio de Janeiro com a minha mãe e meu pai (último ano antes deles se separarem). Passamos um Ano Novo na praia, acho que em Copacabana, e tinha aquela festa toda, mas o que mais me chamou a atenção foram as baianas do cambomblé.

No ano seguinte, eu e minha mãe passamos o Ano Novo em Piracicaba, na casa da minha vó, aquela caretice total, bem família. Uns dias depois da festa, eu, intrigada, perguntei para a minha mãe se aquele Ano Novo que a gente comemorou em Pira era a mesma coisa daquele Ano Novo (afinal de contas tããããão animado) do Rio.

Pois é, vivam as baianas, viva a manifestação religiosa africana, viva o pé na areia, viva a oportunidade de poder comer uma feijoada e sair da dieta!