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15/02/2016

DELICADEZA



Entro na sala do médico:

- Oi, Doutor.

Sempre sentado atrás do seu escudo, digo, escrivaninha, faz uma força muito grande para levantar sua cabeça por um minuto e me dar um desanimado aperto de mão: 

- Por que vc está aqui?

- Eu gostaria de fazer meus exames endocrinológicos, estou há algum tempo sem fazer.

- E porque vc acha que precisa?

- Minha mãe teve nódulos e retirou a tireóide. Desde então eu tenho recomendação para acompanhamento periódico.

- Ela teve câncer?

- Não, a biópsia não acusou malignidade.

- Mas então porque tiraram a tireóide?

- Pelo motivo que eu apontei, Doutor. 

- Mas quem recomendou a retirada? Foi um endócrino ou foi o cirurgião? Vc sabe que endócrino não faz cirurgia, né?

- Sim, doutor, eu sei que quem faz a cirurgia em várias especialidades não é necessariamente o médico que detectou a necessidade de cirurgia. Ela foi ao cirurgião encaminhada pela endócrino.

- E vc sabe o que estava escrito nessa biópsia? 

- Não me lembro, Doutor.

- Preciso que vc me traga o laudo.

- Doutor, essa cirurgia foi feita há cerca de 15 anos, eu acompanhei e participei de todo o processo mas eu realmente não sei entrar em detalhes e certamente não existe mais nenhuma documentação a respeito.

- Só se retira e tireóide se há câncer. Então eles retiraram a tireóide sem motivo, né?

- Não. Isto é você quem está dizendo, a partir das informações prestadas por mim. Além de discordar da sua inferência, eu não afirmei isso.

(Se esse neurótico soubesse que a cirurgia foi feita na Bahia, o grau de de preconceito e falta de ética dele iria às alturas. Apenas para registro, o Hospital da Cidade, onde minha mãe fez a cirurgia, nos atendeu de maneira exemplar e prima pela pesquisa científica em seu corpo médico)


Ali não volto mais.

21/10/2013

GENERAL


"(...) a origem desse estereótipo nada tem de benigno. Foi engendrado pela elite da Bahia com o objetivo de depreciar os negros, a maioria esmagadora da população local. 
(...) 
Uma empresa com sede no Pólo Petroquímico de Camaçari, a 41 quilômetros de Salvador, registrou menos faltas de funcionários durante o Carnaval de 1994 do que sua filial de São Paulo. 
(...) 
Numa tarde de domingo, ficou impressionada com o que viu numa festa freqüentada por gente da elite de Salvador, políticos, advogados e empresários. 'Eles começaram a reclamar da preguiça dos empregados negros, enquanto eram servidos por eles. Os negros eram os únicos que estavam trabalhando ali', lembra.
(...)
O valor que o tempo e o trabalho têm para os baianos, diz a tese, é fortemente influenciado pelo candomblé. (...) No fundo, vem da tradição africana o conceito de que o trabalho não é o foco principal da vida, que trabalho e lazer não se opõem. O que não significa que as pessoas não trabalhem. Ao contrário, trabalham muito, mas sem colocarem o trabalho como objetivo central da existência e cuidando muito das relações que ocorrem fora da esfera do trabalho”

18/09/2013

...:NEM VEM:...

Morei 13 anos na Bahia, 10 dos quais em Salvador. Quem me conhece (se bem que não precisa me conhecer muito bem para deduzir) sabe que eu tenho severas críticas à cidade. Mas não venha falar mal de baiano ao meu lado, principalmente com generalizações rasas, desinformadas, preconceituosas e, porque não dizer, burras. Coisa tipo "baiano é preguiçoso, baiano não gosta de trabalhar, ou baiano faz festa o ano todo". De minha parte, reservo meu preconceito para quem faz esse tipo de "piadinha", ou piada racista, xenófoba ou homofóbica . Geralmente são pessoas muito desinteressantes.

29/10/2012

...:ETE:...


Lamentável! O Caetano é uma vergonha completa, e Gil, quem sabe, terá um cargo na Secretaria de Cultura, para manter o esquema Ivete - Margarete - Chiclete.

28/10/2012

...:MIGUXOS:...


Daí o cara que votou a favor do DESMANTELAMENTO do Código Florestal tem uma vice prefeita do PV, que provavelmente ficará com a pasta ambiental da cidade.

06/04/2010

ALBEDO


 Parecia ser "apenas" mais um areal irregular. Relevo totalmente modificado, vegetação suprimida, indícios de movimentação de veículos.



Logo na entrada, a abordagem clásica dos incansáveis  policiais da COPPA ao condutor da primeira caçamba. O sujeito, que terminava o carregamento de areia,  desceu da carroceria.


"Sou sargento da PM"

Meus ouvidos se aguçaram. Minha porção caga-regras já imaginou: O quêêêêê? Da Polícia e participando assim, deslavadamente de uma infração? O Sr. tem noção que é a própria Polícia a responsável pela segurança nessas Operações?

Mas fiquei ali, no ladinho, só fingindo que não estava observando.

Os policiais perguntaram apenas: "o Sr. é da Reserva?". E conferiram os documentos. Simples, sem dramas, sem grandes casos.

Enquanto isso, a equipe se dissolveu, cada um caminhando rumo a maiores informações. Tentando ver se entendia a real dimensão daquilo que estava acontecendo.








 Havia solo desagregado circundado por manchas de mata testemunhas da mineração. Havia sol, aridez, calor. E fui percebendo que havia muito, muito mais gente lá dentro que eu pudera imaginar.




Os meninos do Escritório Regional confirmam: sim, aquele areal é o mesmo que eles haviam interditado há cerca de um ano. O encarregado apresenta notas de saída das carretas.


Saem, por dia, cerca de 90 carretas. Umas maiores, com 12 ou 13 m3, outras menores, com 8. Uma de 8 paga R$ 120,00. O cara passa lá na matiz da Fazenda, paga, e vai ao areal com uma ordem de saída de areia.

Ou seja, o proprietário da área tem, por baixo, uma renda de R$ 10.000,00 por dia. Duzentos mil por mês, se não trabalhar aos findis. Trezentos mil se trabalhar, ou melhor, roubar de sol a sol.

Sim, porque além dele não ter licença ambiental para a tividade, está ROUBANDO recurso mineral da União. Para um cara desses o crime ambiental compensa. Tanto é que ele não deu a MÍNIMA para a interdição à qual estava condicionado.

Claro, né? Quando se tem um sobrinho que é AMIGO do governador, tudo é tão tranquilo...

Eram duas, três, quatro, DEZ caçambas.


O patrão, ao saber que algo tinha saído errado em seus planos, pediu logo pro funcionário passar o celular para os fiscais. A Capitã então falou:

"Não posso falar com ele, estou trabalhando"

ATORON!!!

Aí o Sr. Areia liga pro sobrinho, que vai, em Salvador, direto para a Repartição, reclamar que o tio estava sendo mal atendido pelos fiscais. E que era uma vergonha para o tio, pessoa pública e importante, ser levado pela gente para a delegacia.

Não dá, colega, não dá. Alguém esqueceu de avisar o sobrinho que o tio nem pisou no areial naquele dia e que a gente nem sabe a cara dele. E acho que esqueceram de avisar lá na Repartição que não deviam atender esse tipo de gente sem hora marcada.

Muito barulho por nada. Quem foi para a delegacia foram SÓ as dez caçambas e o trator que foram encontrados no local, juntamente com TODOS os ELEMENTOS que lá estavam.

Inclusive aqueles dois que estavam entrando no Areial e que quando viram a gente, tentaram dar meia volta. Falaram que só entraram porque a gente chamou, pois na verdade estavam indo para outo local. E que não vendiam areia não, que aquele anúncio de venda de areia estava na carroceira porque o antigo dono do veículo o fazia.

Vamos, então, resolver tudo isso na deléga?


Todos enfileiradinhos, bem bonitinhos, tá?



O que entrou POR ACASO no Areal falou que a caçamba quebrou. Ohhhhh, coitado, que coisa, quebrar bem na hora do deslocamento, né? 

Fico DE CARA com a ousadia desse povo. Se fosse eu que tivesse lá no monte de fiscais e policiais, eu ia fazer tudinho, é Sim Senhor e Não Senhor. Os caras ainda tentam de todo modo burlar, contornar uma situação que está mais que óbvia....


Quando soube que tudo bem, ele podia não ir, mas os documentos deles ficariam retidos, ele consertou o carro rapidinho.

E lá fomos nós naquele comboio gigante pela estrada, parando a cidade até chegarmos à Delegacia.


O Delegado foi simplesmente FANTÁSTICO, abraçou nossa ação com muito entusiasmo. Os agentes da Polícia local disseram que já tinham pego o cara em situação irregular, mas ele apresentou as notas, dizendo que o negócio estava totalmente regularizado, e ainda ameaçou processar os agentes.

Nessas horas, me sinto completamente FELIZ com o meu trabalho. São raras, mas existem. E pagam qualquer grana que eu fosse ganhar trabalhando numa estrutura privada, em prol de dilapidação dos recursos naturais. Se máquina nenhuma funciona, que eu esteja na que mais me sinto representada, a mais isenta, por princípio (embora não por prática).


Burburinho na frente da Delegacia. Todos os veículos e chaves lacrados, aguardando o inquérito.

A galera de Repartição, em Salvador, teve a  manha de ligar para o telefone fixo da Delegacia para falar conosco, já que nenhum de nós atendia o celular qdo via que era da lá. Me sensibilizo com tanta atenção. Era o segundo contato com fundo político que o people da Sede fazia conosco no mesmo dia.

Eu já terminei meu processo da carreta. Quanto à multa diária do areal, estou esperando para assinar.

05/04/2010

PULGUENTO

Acajutiba - BA, março de 2009.

Chegamos noutro areal. Eu já descrente de resultados efetivos da Operação, pensando logo em chegar em casa. A casa para a qual eu havia mudado numa sexta e a qual havia deixado, cheia de caixas com as coisas da mudança, na segunda imediatamente posterior.

Eu podia ter dito na repartição que não queria viajar porque era minha semana de mudança, mas não quis dar essa deixa para ser classificada de reativa. Mas após uma semana de Operação, meu balanço dos resultados não estava sendo dos mais animadores.

Era MUITA falta de planejamento. Como assim gastar horas para se deslocar para uma cidade e lá, na hora, que frequentemente era a mais imprópria, procurar a Prefeitura? 

"Ah, queríamos saber onde tem maior incidência de tais infrações aqui no município".

Alo-ow! É claro que os caras só vão falar o que quiserem, né Bial? Esse "procedimento" (ou falta de) é TÃO diferente daqueles em que íamos visitar as Prefeituras do Sul e Extremo Sul na Operação de Silvicultura... E porquê, para quê? Qual é a função da galera de Fiscalização, especialmente os que ficam nos Escritórios Regionais?

Não temos seminários internos, feitos por nós e para nós, não temos espaço nem vontade de discutir nada. Cada um vai achando um problema e resolvendo do seu modo, na maioria das vezes capenga. E fica assim, porque as esferas acima estão ENTUPIDAS de coisa para resolver.

E a Instituição vai andando. Como bem diz um colega meu, carece a de cabelos brancos, "não é o cachorro que balança o rabo, é o rabo que balança o cachorro".

02/04/2010

CONTROLE




Esquematizadazinha, metida a certinha, fominha. Nuns dias.

Preguiçosa, letárgica, relapsa. Noutros.

Talvez meu corpo seja apenas o laboratório prático do coquetel de adrenalina, serotonina, endorfina e outros neurotransmissores que me guiam. Tentei e realmente ocnsegui, após alguns anos de terapia e outros de remédios, dar uma melhorada na minha impulsividade.

Já consigo me calar-me em situações onde antes eu ne esperaria o sujeito terminar a frase. Fico olhando, asism, pensando se ninguém vai dizer nada. Aprendi que muitas vezes a coisa é tão óbvia, minha reprovação à situação é tão evidente, que eu nem preciso dizer.

Mas às vezes não dá.

O caminhão veio chegando, chegando. Estávamos na estrada, todos paramentados.

"Oi, bom dia, tudo bem, somos de tal lugar, estamos verificando a presença de animais silvestres nos veículos, o Sr poderia abrí-lo?".

E quando vi aquela carreta vindo em minha direção, pensei: é agora. Estava sem NENHUMA documentação de comprovação de origem da matéria-prima. E eu sabia para onde estava indo. Sim, tava indo para virar carvão daquela empresa que, como todas, sempre pede para a gente aliviar. Aquela que é ÓTIMA e nunca é resposável por nada.

Perguntei aos meus colegas se aquilo se configurava em infração. Recebi resposta positiva e a  informação que eles estavam agindo de forma continuada. Delegacia. Termo circunstanciado.

Chororô. É sempre a mesma estória. Ah, doutora, eu não tenho culpa. Ah, não faz isso, eu sou trabalhador e gero empregos. Dessa vez, botaram a culpa no motorista.

"A Sra. sabe como é, esse pessoal sai correndo para chegar logo ao destino, ng mandou ele sair com a carreta, ele saiu sem avisar e nem pegou a nota fiscal. Isso nunca acontece, a gente trabalha com isso há mais de 20 anos".

Olhei pro cara, pensei em dizer que  CLARO  que o motorista saiu correndo com o caminhão, porque os patrões sempre ficam ESCRAVIZANDO-os com os horários. Mas deixei meu discursinho libertário para outra hora. Só disse que se ele trabalha com isso, sabe que deveria ter a nota fiscal.

E, como tudo na vida,  um dia acontece. Aconteceu, Bial. Perdeu. Sinto muito, mas essa nota que vc está me apresentando foi emitida HOJE e a ingração coorreu ontem.

Expliquei isso para a tuma do deixa disso e perdi meu dia todo na deléga. Mas ganhei o mês. Achei estranho os caras da Empresa não aparecerem e deixarem os caras da terceirizada se virarem sozinhos.

Segunda-feira, na repartição, um cara da Empresa me liga para falar que aquilo não existe. Lamento, mas existe. Esse auto de apreensão que vc tem em mãos existe, queridinho. Ah, vcs não precisam de documentação, porque têm um acordo com não sei quem? Legal, vc pode me apresentar isso por escrito no prazo de 20 dias. Não, não dá para reverter. Ah, sei... Claro, fique à vontade para falar com meus chefes.

A-D-O-R-O!

28/03/2010

TERRA DE ALGUÉM







B - Tá vendo o cara com a caçamba? Vc pede para ele parar o serviço e desprezar a carga.

A - Tá.

(caminham em direção aos INFRATORES)

A - Olá, bom dia, vcs são os responsáveis aqui pela área?

X - Não, moça, a gente só vem pegar areia.

A -Ah, tá. Vcs tem assim, alguma documentação, licença, autorização para fazer isso?

X - Não, a gente só vem aqui pegar mesmo.

(A, B e C fazem perguntas básicas: para onde vai, há qto tempo explora, quem são os envolvidos).

G - A documentação do veículo está atasada, a habilitação dele vencida.

B - Vcs poderiam esvaziar a caçamba, por favor? E aguardem, pois quando formos para a cidade, vamos todos juntos, levar a caçamba para a Delegacia, tá?

27/03/2010

ASHES TO ASHES

 Início de um dia de trabalho - Inhambupe

A - E no areal de seu José Carlos, vai rolar multa?

B - Ah não, tadinho, ele é pobre, coitado. A gente só vai interditar e pedir para ele se regularizar.

A - Ahã.

(silêncio)

A -Eu tirei umas fotos desse pedaço aqui. Como sempre, vários danos ambientais estão associados. Não bastasse ele minerar sem nunca te obtido licença, a APP dele tá completamente detonada, secou o rio, usa mão de obra familiar sem condições de trabalho... É o dano social aliado ao ambiental.

B - Esses buracos aqui, ele disse que vai usar como tanques para peixe.

A - Sei.

(silêncio)

A - Mas o certo seria ele revegetar tudo, né? Apresentar um PRAD. Porque senão ele minerou ANOS na ilegalidade, aí diz que não quer mais e ainda tem outra atividade econômica em cima do dano ambiental.

B - Ele é pobrezinho, coitado.

C - Mas tem carro. Vc viu ele com a chave do carro dele? Eu demorei anos para poder comprar meu carro, porque só o fiz qdo pude arcar com as consequências de tê-lo.

(silêncio)

A - E esse forno?

D - Está abandonado, ele não faz mais nada aí.

A - Sim, mas ele fazia. Explorava o recurso natural da forma mais impune posível. Claro, a gente é muito incompetente, NUNCA foi feito um mapeamento dos areais em cada região, e planejada uma ação realmente EFETIVA de resolver essa questão.

C - Sei lá tb o quanto adianta a gente se preocupar com isso se a própria instituição autoriza MILHARES de supressões de vegetação em biomas ameaçados.

A - Sim, qual é a POLÍTICA de gestão, o que realmente a instituição quer?

(silêncio eteno)

A BALANÇA

 Forno abandonado de carvão em Inhambupe - BA

Qual é a diferença entre o seu Joselito do carvão e seu Moisés do Areal? E como fica seu José Carlos no meio disso tudo? O fiel da balança não pode ser subjetivo quando se trabalha com LEIS.

I'm so sorry, mas na prova da segunda fase do concurso que fiz para exercer a função que exerço a gente só tinha um foco: legislação ambiental. Acho que isso era importante, senão a galera da repartição não ia tirar do nada, iam preferir falar de influências político-econômicas na gestão pública. Talvez fosse mais sincero.

Depois de anos, esbarro sempre na mesma coisa: Ah, não vamos multar seu Coisinho, porque ele é pobre. E o seu Coisão tb não dá para multar, porque, sabe como é, nunca dá em nada. Então, a rigor, a gente faz o que, pelamordedeus? Finge que trabalha?

Se é para fingir, sou mais ficar escolhendo a cor do meu próximo esmalte. Mas é o seguinte: se me chamaram pro campo, vou ter que trabalhar. Sem essa de fingir que trabalho, em pleno campo. É lá que se tem a oportunidade única de se registrar o que realmente ocorre.

Apesar de ser onde realmente se efetiva o olhar que a instituição deve ter sobre seu objeto (meio ambiente, alguém já ouviu falar?), há um despreparo total para enfrentar as situações de campo. Porque, entre outras coisas, não há uniformidade.

Não aquela uniformidade que engessa, mas a homogeneidade necessária para que as decisões não sejam toscas, amadoras.
Aí a gente se enconta com seu Joselito, tadinho, cuja filha de 12 anos parece saída de uma foto de Sebastião Salgado. É até um desrespeito fotografá-la cheia de fuligem, no início de sua adolescência, ali, naquela nesga de tera, alijada de todo e qualquer futuro cidadão.

Sim, eu sinto muito e a conversa com seu Joselito deve ser a mais conciliadora possível. Agora, o que não dá é para fingir que não viu o forno de carvão dele. Não dá para não falar que ele precisa se regularizar.

Mas o consenso, essa imposição da maioria, travestido de processo democrático, nos leva a abrir mão. O perigo é que nisso, já levaram não só o braço, mas o corpo todo e tambémn a alma dos que pensam que com o curto alcance do braço de fiscal estão conseguindo intervir, de modo significativo, na realidade social.

22/03/2010

NEM COM REZA

 Culto religioso - Inhambupe - BA - 02/03/2010

Depois de dois anos sem participar de Opeações de Fiscalização, resolveram me escalar novamente. Havia um acordo tácito: não me incomodem que eu não os incomodo. Resolveram quebrá-lo, e eu, como sou boazinha,  não falei "não".

Pensei nos pontos positivos e decidi que não seria uma boa hora para ser reativa, o que de maneira alguma significou que correu tudo às mil maravilhas. Aliás, é uma coisa quase certa: não vai correr tudo bem numa estrutura de faz-de-conta.

Começou antes de ir: avisam a gente por e-mail. Nessas horas vejo a decadência da área técnica, da gestão. Não tem mais reunião de planejamento da Operação, de alinhamento, de nada. Aliás, reunião para quê? O lance é cumprir as metas, o lance é no final do ano falar que fizemos 30 Operações, X apreensões, Y interdições.
Para quê, porque, como? Não interessa, e para de questionar. Para onde o órgão quer caminhar, qual a finalidade das ações, quais os procedimentos? Ah, cala a boca e não enche o saco!

Não quis fazer a estressada, mas me lembrei da época em que ainda achava que minha dedicação podia REALMENTE influir nos rumos do lugar onde eu trabalhava: se vc não grita, nada sai. Então, fui procurar saber quais eram os objetivos da Operação, como ia ser a logística, quais eram as rotas, como a gente estava da mapa, enfim, coisas que até a pessoa mais limitada pensa em fazer.

Mas claro, eu sou ansiosa e criadora de caso, para que saber? Afinal eu sou experiente, sei tudo (é aquela velha desculpa- eu confio em vc, vc é bala, vai lá e se vire), a Operação está redonda e mais detalhes vcs terão no  dia da chegada.

Ah tá, então a gente vai perder um dia que poderia estar trabalhando efetivamente, tendo reunião, sendo que podia tê-la aqui? Zuzo bem, só para saber.

Qdo entrei no carro, o motorista já avisou que o mesmo não devia nem estar rodando. ADORO! Adoro viajar em carro que não está apto para o trabalho! Ainda mais agora, que eles são alugados, acho MASSA a repartição ter um contrato com uma Empresa que nem é da Bahia, que oferecia carros que não eram nem plotados (assim algumas pessoas nomeadas pelo PV podiam usá-lo para ir dar aula na faculdade sem dar bandeira), e que não tem nem competência para colocar um carro decente em substituição a algum que quebra.

Assim, torceríamos para aquele carro não quebrar, e se a gente fosse em terreno de difícil acesso, não poderíamos ir sozinhos, já que havia risco REAL e aumentado de uma quebra. Tem nexo escalar um carro que não pode se distanciar de outros numa Operação? Ou o povo que vai estar no carro vai fazer só figuração? Ah, vem  cá, mas reunião de planejamento para quê, né?
Ao descobrir que o ar não funcionava  e os vidros traseiros não abria (melhor que isso, só se tivesse um aquecedor permanentemente ligado), pensei, apertada num bando traseiro onde não havia espaço para minhas pernas: essa vai ser minha última Operação!

Pilates para quê, se minha coluna já estava doendo? Ergonometria? Nem pensar, vc é experiente e enfrenta todas, vá para a Operação. Lembrei de todos os técnicos, concursados como eu, que se submetem a andar de ônibus, muitas vezes pagando a passagem para receber depois. Fiquei pensando que realmente não há limites, e se vc impõe limites, fica mal vista. 

Minha aceitação para participar da Operação estava provando que após dois anos eu estava disposta a relevar algumas coisas, mas que se tinha havido alguma mudança, decididamente ela não tinha sido para melhor. Apostam cotidianamente no  EMBURRECIMENTO das pessoas. Ficam incutindo que fazer tudo isso, enfrentar a incompetência gerencial e técnica é edificante, que a gente é uma espécie de Indiana Jones.

Só que a gente não é. A instituição não tem procedimento NENHUM documentado, ao contrário do IBAMA, que mesmo assim enfrenta as dificuldades sabidas. 

Chegando no Escritório Regional, os meninos de lá falam, felizes com nossa chegadam: vem cá, vcs que estão chegando de Salvador, digam para a gente como vão ser as coisas.

Hahaha, é para rir?

08/10/2008

ESCRETE

"Brevemente neste local será montado o hotel cinco 'estrela' com o apoio do meu grande (....) ACM JN" - Placa indicativa de empreendimento na região de Santa Maria Eterna, município de Belmonte, Sul da Bahia. A foto foi tirada em 2003, durante uma inspeção técnica. O tal de JN era maníaco por ACM (Toninho Malvadeza ainda estava no poder).


Um pouquinho antes das eleições, a Tita escreveu um pouco sobre o voto nulo. Logo depois do pleito, a Katy pronunciou-se. A questão do voto nulo é complexa e os esquedinhas a-do-ram chamar os adeptos do voto nulo de alienados.

Interessante é que exercer a OBRIGAÇÃO do voto e colocar nas urnas aberrações como o/a Léo Kret não é alienação, né? Isso não é voto de protesto, isso não é voto consciente contra o preconceito homofóbico. O/a dançarina da pagode quer ser "presidenta" do Brasil.

Entre curiosidades que nada têm de cômicas, a tragédia se desenha. Pena? Lamento? Sim, claro. Mas raiva também. Tenho visto adesivos nos carros: Lula é PT.

Meu Deus do céu, precisam fazer adesivos para lembrar que Lula é PT. Porque subir no palanque dos candidatos do PT, ele não vai. Ao menos onde houver disputa com a base aliada. Pega mal. O que pega mal, sapão dos infernos, é vc ter retalhado esse queijo fedorento entre tanta gente que agora tu não sabe nem de onde tu veio.

Aqui na cidade do Léocrete, por exemplo. Foram ao segundo turno o Pinheiro, do PT, e o Carneiro, do PMDB. O lógico era que Lulinha apoiasse Pinheiro, néam? Mas o Presidente não pode, porque se comprometeu tanto, mas tanto com o PMDB (sabemos disso, basta dar uma olhadinha nos cargos do governo federal), que se ele apoiar abertamente o Pinheiréte, o Geddelzéte, aquele santo que é nosso Ministro da Integração Nacional, fica brabinho. E Luléte, como se sabe, é todo pacífico, não gosta de se indispor com ninguém.

Claro que Geddelzéte solteou uma granete para o Carneirete fazer uma obrinhas bááásicas em Salvador antes das eleições, coisa com o seu, o meu, o nosso dinheiro, já que a grana veio o Governo Federal.

16/04/2008

SAUDADES DO MATÃO?

Eu não sei o que aconteceu lá em Teixeira de Freitas, mas eu, que não gosto de cães, achei uns bichos simpáticos.

Era linda, ela.

Morava nessa casa de fazenda...

Onde trabalhava esse vaqueiro...

Que fumava cigarrinho de palha

E nos ofereceu um queijo mineiro (já estávamos quase na divisa com Minas) feito lá mesmo, no dia anterior.

30/03/2008

PEDRA BRANCA


Depois de quase uma semana sem acesso à internet (fui caçar borboletas, como diz a Tita), encontro - vejam só - comentários que não são nem da Katy nem da Tita no meu blog. Zuzo bem, mas o interessante é que era numa postagem antiga, sobre o município de Itapebi.

Os autores dos comentários são pessoas que nasceram e amam aquela cidade, que acharam meu texto na web e publicaram no site que mantêm.

Apesar de eu não suportar morar em cidades pequenas (o céu é o limite) e me irritar com o provincianismo em geral, admiro uma coisa: a sensação de pertencimento dessas pessoas a seu local de origem. Talvez eu não goste de cidades pequenas exatamente porque não saiba o que é isso, ter origem fixa, ter uma referência.

É extremamente curioso ver como as cidades adquiriram independência, se desmembraram de outras, entraram no seu período de apogeu... E como as pessoas se referem às outras: "fulano, filho de beltrano". Talvez eu me sentisse um pouco oprimida com isso, e falasse: filha de ninguém, sou Tatiana e pronto.

Mas isso é porque eu não tenho referências, buááááá! Numa cidade do interior, tudo deve ser calmo, imagino eu. Fora as desavenças políticas e as fofocas... Mas talvez quem nasça lá já venha se acostumando com isso há mais tempo...

O que achei bonito no texto que fala da história da cidade foi o final:

Hoje, Itapebi continuação a sua história acompanhando, de uma certa forma o "progresso" da região com seus novos traços, novos sabores noturnos e ao som de novos embalos, comemorando seus anos na esperança de um novo amanhã.

É preciso ter esperança e trabalhar por ela!

29/03/2008

ON THE ROAD

BR 101, proximidades do Parque Nacional Monte Pascoal, município de Itamaraju, BA

Em busca de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente

Trabalho duro, mais uma vez. Tenho me questionado muitas coisas. Estou perto dos 40. Tem coisas que não cabem mais. Campo é muito bom. Inegavelmente, sou muito boa de campo. Em dupla, sou melhor ainda, se meu parceiro for bom, como é o caso. Tivemos uma boa afinação, no primeiro dia a dinâmica flui bem. Natural. Ele gosta de levantamento topográfico, geoprocessamento, é detalhista nos mapas. Fica manejando o GPS com gosto. Eu, levemente controladora e com mania de organização, fico com a ficha de campo, coisa que ele não faz questão ("anota vc, que tem a letra mais bonita"), e tiro as fotos. Anoto as Coordenadas e as fotos associadas a cada uma delas.

A questão é: paramos em todas as nascentes secas, todas as represas, medimos toda a área para estimar a largura do rio? Quando estou no campo, não consigo deixar passar. O caso é que demora, e a Chefia às vezes quer pressa. Eu já vi Chefe chamar o peão para fazer o trabalho melhor, nunca vi chefe chamar e falar: "escuta aqui, vc tá fazendo muito bem feito, tem que fazer mais matado"...

Por essas e outras que vejo que embora tenhamos um objetivo maior - apesar deste também estar se esvaindo em acordos e pressões, me sinto tolhida por ter discernimento, ter capacidade crítica além da média - que só quer fazer suas atribuições e olhe lá - e não ter capacidade alguma de decisão.

Tô ficando mais velha e não quero ser peoa a vida toda, não por ambição, por grana, por poder ou por dificuldade em cumprir ordens. Hoje vejo que é por ser capaz de ter uma visão mais apurada da situação, uma visão que talvez a estrutura paquidérmica do Estado não permita que os parasitas se afastem da máquina. Tenho procurado, ao menos imaginariamente, outras alternativas.

Enquanto isso não ocorre, trabalho com prazer, afinal amo o que faço e quando faço, modéstia às favas, faço bem. E já que estou na estrada, pé no acelerador e música no último volume. Gás não me falta!

11/03/2008

TRABALHO, ESSA COMPLICAÇÃO


Paisagem bucólica? Mas parece que estão tentando fazer um atracadouro por lá...


A cidade é a "praia dos mineiros" por ficar na divisa da BA com o ES. Aí não é a sua orla, é a baía. Tem muitos pescados, mas não deu para eu ir ao Mercado do Peixe - afinal, eu estava trabalhando.



Chegamos em cinco - nós quatro e o que tirou a foto - à Secretaria de Meio Ambiente, para dar uma olhada nos processos emitidos para a atividade de silvicultura.

Semana passada foi um trampo duro. O bom de estar em campo é que eu acostumo a acordar cedo. Quando chego na capital, já me acomodo. Lá não, acho que fico tão ansiosa com os horários, tirar tudo da mala, deixar as coisas prontas, separar documentos, rever papeladas, que cinco e meia, seis horas, pulo da cama.

São dois tipos de estresses diferentes. Tenho tentado medir e escolher. "Agora, vou para o campo; agora, volto para Salvador". Não sou bem eu que escolho, as coisas têm seu período para acontecer, cabe a mim no máximo decidir se vou viajar ou não. Das últimas vezes, quase não fui, num processo de ruptura total. Mas transigi, visto que sou uma candura de pessoa.

Desta vez, não me estressei muito, não quis mudar o mundo, e acho que essa minha própria ruptura anterior gerou um pouco de descompromisso com as coisas, e que aliviou um pouco a tensão. Outra coisa que ajudou muito foi ter ficado na casa da Flávia, com as crianças, respirando coisas boas, ao invés de ter ficado num hotel impessoal e maçante.

Mas é claro que o meu "descompromisso" é apenas momentâneo. Isso, porque, sem querer parecer presunçosa, eu realmente tenho iniciativa no trabalho, agilizo as coisas, tenho desenvoltura para falar com as pessoas. Além da minha franqueza, que se por muitas vezes me atrapalha, por outras me ajuda, então faz com que eu seja lembrada. Se comumente é para os dissabores, às vezes também é para as coisas se desenrolarem, e aí, se não tem a minha mão, sinto que algumas coisas não saem tão rápido.

Isso é "sopa no mel" (aliás, que expressão ridícula é essa - sopa no mel? - ninguém toma sopa com mel, , nem põe mel na sopa, enfim....) para a minha ansiedade. Tatiana é ansiosa e é requisitada? Deixa tudo nas costas dela, uai! Então, nessa viagem desacelerei um pouco, mas nos últimos dias já resolvi umas coisas - que se eu tivesse resolvido desde o início, não teriam se encavalado tanto.

Mas deixa estar, assim as pessoas talvez tenham chance de ver que não foram muito competentes.

O fato é que eu amo o que faço. Mesmo. Quando vou ao campo, ou quando estou, como hoje ou ontem, em contato direto com o Ministério Público, corre em mim um ímpeto, uma empolgação, uma fé, uma crença que as coisas vão dar certo, que serão resolvidas, que o meu trabalho está adiantando para algo e faz parte de uma coisa maior...

Mas quando vejo as pessoas envoltas em pilhas de papéis que não despacham por acharem que precisam corrigir todas as vírgulas, quando vejo assessores que nunca foram ao campo comandarem equipes inteiras, quando vejo as multas paradas por um, dois, cinco anos sem serem emitidas, quando vejo os filhos de coronéis galgando cargos na Secretaria do Meio Ambiente, quando vejo todos os "novos" Diretores saindo para se candidatarem, quando vejo que o MEU trabalho talvez só sirva para que os infratores façam acordo com meus chefes....

Aí me dá uma vontade de sair... Sair, sair. Assobiando, se eu fosse calma e dissimulada. Não sou, fui sair esse poço que jorra espontaneidade. Tenho um plano: pedir meus mil dias de férias, ficar em casa, escrevendo, terminar meu mestrado (será que dessa vez sai?)...

Só que essa minha alucinação de querer fazer tudo também quer aproveitar essa oportunidade de estar em campo fiscalizando. Então, penso: é só mais essa Operação. São dados importantíssimos, como eu não vou participar disso?

Agora, acho que é só mais essa mesmo. Que deve ir até junho, acho.

04/11/2007

LA BALSITA

Indo da Sta Cruz Cabrália para Belmonte. Cara, Belmonte é longe de onde eu estou. 130 km só de ida. E eu chego lá, tem um mooooonte de licenças para olhar, um monte. Não dá para fazer tudo num dia. Volta para Eunápolis. Ai. Vinte dias dormindo no hotel. Volta cinco para casa, mais vinte em campo de novo. Agora, quando durmo na minha cama, até estranho.

UMA BEIRA NO JEQUITINHONHA












Estava eu andando pelo Sul da Bahia, nessa minha jornada de prefeitura em prefeitura para dar uma olhada nas licenças emitidas para os plantios de Eucalipto. Tenho amado fazer esse trabalho, que na verdade é um pouco chato, mas é necessário e importantíssimo.

Então, entro na cidade de Itapebi.

Escolada em interior da Bahia do jeito que sou, já tendo sofrido muito com as mazelas sociais e ambientais de cada lugar visitado, já tendo chorado e me desesperado ao entrar em dezenas de cidades e me deparar inevitavelmente com o mesmo cenário, somente comprovei o habitual. Cidadezinha pequeninha, pobrezinha, feinha. Brinquei com o motorista, de um modo preconceituoso: "que bom que eu moro em Salvador".... Sendo que eu não acho bom, eu acho Salvador um cocô, imagine se eu morasse nessas cidades onde vou a trabalho... Aí a relatividade das coisas começa a te pegar. Mas não pode deixar pegar muito, senão se conforma com uma vida no meio do mato, como a que eu tive durante alguns anos, e quando vi, estava com uma vida que nada tinha a ver comigo.

Bom, mas voltemos a Itapebi. Como toda cidade, eu entro reclamando, mas na conversa com os Secretários de Meio Ambiente, sinto tanta realização... Tanta coisa a fazer, e em vez de pensar, como antes: "que droga, está tudo errado, que se dane tudo", eu penso, e tenho o discurso "vamos fazer juntos, essa é uma etapa do nosso trabalho". Essa é a diferença de ser sacaneada e de ser valorizada no trabalho. Estou sendo valorizada, e tenho que aproveitar, pois não sei o quanto isso dura.

Depois do trabalho feito, o Secretário foi me mostrar uma matinha onde quer fazer uma UC. Linda, mas o mais surpreendente não é isso. Atrás dela, à beira do Jequitinhonha, existe a cidade velha. Velha porque os moradores foram se mudando para o alto, e poucos ficaram na beira do rio. Uma pena! Ruas de paralelepípedo, praça com (dizem) a maior canoa do mundo, casario merecedor de conservação, um lugar onde dá vontade de andar, conversar com os poucos moradores que restaram, saber porque ficaram, como era antes...

Porque as pessoas se vão? Os lugares morrem, outros mais feios surgem, os que eram belos viram decadentes... Aquilo lá tem que ser revitalizado, virar roteiro turístico... Mas fazer o quê, se a galera que vem para a região (leia-se Porto Seguro) quer encher os cornos de cachaça e dançar axé espremido?

Enquanto isso, vou andando.