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20/09/2015

QUE HORAS?


''Ninguém quer aparecer em público dizendo que é machista. Ninguém vai falar que é a favor do feminicídio, das condições desiguais de emprego ou da violência contra a mulher. Mas isso não significa que você não esteja reproduzindo algum comportamento que se encaixa numa cadeia que termina numa dessas coisas.

(...) E nem mesmo cineastas que muito provavelmente jamais pensaram se ver metidos com uma coisa dessa de sexismo estão livres de reproduzirem uma ideologia que é, sim, machista.

(...) Era noite de sábado, 29 de agosto, quando a diretora Anna Muylaert entrou numa sala do Cinema da Fundação, no Recife, para debater com a plateia seu novo filme, 'Que Horas Ela Volta?', premiadíssimo, elogiadíssimo e candidatíssimo a representar o Brasil na tentativa de uma vaga no Oscar do ano que vem.

(...) Lírio Ferreira e Cláudio Assis (...) estavam ali para debater com Anna, mas um deles não teria deixado sequer que ela ocupasse uma cadeira no palco. Interromperam sua fala, ofenderam Regina e um maquiador, ironizaram a plateia.

(...) Prontamente, a Fundação Joaquim Nabuco prometeu uma resposta. E ela veio tão rápida quanto tacanha. Decidiu-se proibir os dois diretores pernambucanos e seus filmes de participarem da programação dos espaços culturais mantidos pela organização durante um ano.

(...) O primeiro problema de uma decisão assim é que ela faz pouco ou nada para remediar o ocorrido. O segundo é que joga para a plateia com uma artimanha ardilosa e irresistível para as turbas das redes sociais: o linchamento público.

Pouco importa a obra dos dois cineastas ou o crime que cometerem: a internet quer suas cabeças. Quer vingança. Quer sangue. É a lógica do patriarcado.

O terceiro é a noção, absurda para uma instituição cultural, de que o cinema é uma criação pessoal, e não coletiva. Porque, ao punir os diretores, toda a equipe que participou no desenvolvimento daquelas obras acabou sendo silenciada também. Isso para não falar no público, impedido de ter acesso a essas obras.

(...) Por que não aproveitar a oportunidade para realizar alguma ação formativa e, especialmente, positiva sobre a igualdade de gênero? Por que não chamar, por exemplo, produtoras, atrizes, roteiristas e diretoras para formar um grande ciclo de exibição e debates em torno da presença de mulheres no cinema nacional?''

06/11/2011

...:ALI:...

Virada Cultural de Curitiba: com MUITOS problemas de concepção, perfeita para não se conseguir chegar no eventos agendados, com uma superlotação em alguns momentos que me fizeram repensar a ida no próximo ano. Mas onde eu iria ter um dia todo dedicado à poesia, a encontrar velhos amigos, a fazer novos e ver as pessoas na rua, em confraternização?

Soube que a produção da ficou a cargo de empresas de São Paulo. Subestimar a produção local e superfaturar o orçamento não foi uma boa saída. Se a produção conhecesse as atrações, não dividiria TANTO o público. Organizaria palcos mais temáticos, como é a própria virada paulistana.

Aliás, colocar na programação da Virada: "Domingo - Feira de Artesanato" é ou não é cara dura? Adicionalmente, a Virada se faz nas ruas, e não em bares espalhados geograficamente pela cidade, que podem e devem entrar na onda, mas não vejo como entrarem na programação oficial.

E a lista dos bares que não vou mais está aumentando. Quer ter o nominho na Virada Cultural? Põe mais gente para trabalhar! Além de tudo, na hora em que um poeta se fala, todos se calam. Não só o público, mas a banda que ficou de cara feia por achar que seu show estava sendo "interrompido.

04/11/2011

...:CORRENTINHA:...


Programação da Virada Cultural Curitiba 2011. Bem, sob o meu ponto de vista não é exatamente uma "viraaaaaaada", mas vale a intenção de agregar outras manifestações, além das musicais, e de envolver espaços que já promovem a cultura cotidianamente.

20/10/2011

...:JUVENIL:...



“Costumo dizer que deixei a puberdade com 58 anos”

...:FRIO:...



“Os demônios não gostam de ar puro. O que mais eles gostam é que vc permaneça na cama de pés frios”

17/02/2011

PATINHO

Imagem d' El Multicine


Aí a pessoa vê o trailer de Cisne Negro e acha que vai ser um filme sensacional. Chega a ficar nervosa com as pessoas falando no cinema - o que não é novidade - imaginando que não vão fazer silêncio quando o filme começar e que vão atrapalhar sua concentração.

Tanta expectativa em vão!

Foi agradável ver os bastidores do ballet, ver os calos nos pés das bailarinas e a rivalidade entre elas, ver que as graciosidades que aparecem flutuando no palco dão duro, pegam metrô, lutam por dias melhores.

Também é sempre bom ver a Winona Rider, que nesse filme interpretou a bailarina principal da Companhia que, mais por seu modo pouco ortodoxo de viver que por sua já não tão tenra idade, é levada pelo Diretor à uma aposentadoria involuntária.

Entretanto, o anunciado "suspense e drama psicológico" não dá frio na barriga nem comove. Natalie Portman é Nina, uma bailarina esmerada que mora com a mãe, ex-bailarina, e dorme num quarto cor-de-rosa cercada de bichinhos de pelúcia.

Certamente seu histórico familiar e a maneira com que encara a vida e a dança têm papel fundamental no modo com que ela age quando ganha o papel principal na nova montagem da Companhia. O filme, ao invés de se aprofundar nisso, prefere banalizar os acontecimentos, algumas vezes até tentando um certo tom de comédia.

Não é que eu não tenha senso de humor. É, muitas vezes não tenho, quando substimam minha inteligência. Quando é uma coisa rasa, tangenciando o patético. E da metade do filme em diante, creio que o roteiro se perdeu, ficando sem interesse, querendo surpreender mas na verdade se perdendo.

Enfim, nem tudo que parece, é.

12/02/2011

LACUNA

Foto de Filmcritic

Não sei se eu iria, de livre e espontânea vontade, ver "Além da Vida" (Hereafter), dirigido por Clint Eastwood.

Embora a sequencia inicial passada na Tailândia seja espetacular, fiquei com a impressão de que poderia sempre ter ocorrido alguma coisa. Quando o filme terminou, eu percebi que não ocorreu.

Não curto sair do cinema assim.

Prefiro sair sem chão, destroçada, desiludida, chocada, que assim, decepcionada por algo não ter acontecido.

Gosto de cinema como gosto da vida. Intensamente.

06/02/2011

EM PÉ



Ver um filme de Alejandro González Iñárritu não é fácil. Não porque sejam filmes cabeção, em que a gente fica meio perdido.

Não.

O diretor mexicano deixa tudo muito, mas muito claro. De uma forma que, ao menos para mim, é quase insuportável.

Me lembro de ter passado mal, fisicamente, quando vi Amorres Perros (Amores Brutos), em 2001, sozinha na extinta Sala de Arte do Clube Baiano de Tênis. Senti náuseas logo numa das primeiras cenas, mas a intensidade do que eu via me apontava que eu deveria ir em frente.

Hoje, com Biutiful, não foi diferente.

As cores carregadas me agrediam, numa provocação. Pareciam dizer:

- Não está se sentindo bem, né? Mas é assim que é o filme, e vc sabe que ele é bom!

Ao invés do sangue, que me marcou em Amores Perros, agora a sujeira me agoniava.

Sujeira encardida, mofo, umidade. Dá vontade de passar um paninho com alvejante em tudo.

Mas não vai limpar. A vida dos personagens é muito mais densa do que uma propaganda de produto de limpeza.

Biutiful não tem a poesia de 21 Gramas, que mesmo sendo pesado é belíssimo.

Existem poucos trechos agradáveis nesse filme onde Javier Barden interpreta um sobrevivente em Barcelona. Duro, o personagem passa sem se lamentar por situações que me fizeram pensar que, realmente, eu não tenho problemas.

A doença diagnosticada é apenas um dos conflitos que ele tenta, como pode, gerenciar. É um cara que não se entrega, não se vitimiza.

O contraponto para tanto racionalismo é sua ex-mulher, completamente alucinada e sentimental.

Em meio a passagens que me fizeram lembrar de O Jardineiro Fiel, pelas questões de exploração étnica, e de Invasões Bárbaras, pelo fato de lidar com a morte iminente por câncer, eu torcia para que cada cena acabasse e viesse uma mais leve.

Raramente vinham, mas o personagem aguentou firme.

08/06/2009

ENCONTRANDO

Imagem pega de Lost Horizons, um site bem estranho, mas foi o único lugar onde achei uma imagem que não fosse "arroz de festa" do filme.

Dando continuidade às eletrizantes sessões de cinema, foi a vez de Em Busca da Terra do Nunca. Não, o diretor não é Tim Burton, como a inteligente aqui pensava ao comprar o filme por quinzão nas americanas. Mas zuzo bem, aliás nem tudo que o Tim Burton toca vira ouro.

O filme com Johnny Depp, Kate Winslet, Dustin Hoffman e Julie Cristie conseguiu o que estava parecendo difícil: me prender à tela! Uh, e não precisa ser cabeça para isso! Basta botar um pouco de colorido nas coisas.

Umas crianças, não muita complicação, figurinos de época... O filma não descamba para aquelas coisas fantasiosas que me irritam, tipo Estória sem Fim (nem sei se me irrita, pois nunca ocnsegui ver o fim), e nem é tão melodramádico a ponto de ser óbvio, embora eu deva admitir que ele explora um pouco algumas situações um poucos piegas, sim.

Mas ele apenas sinaliza a questão da imaginação, não fica pregando um mundo cor de rosa, um mundo de mentiras. Ah, e também, em alguma hora a gente tem que ser leve, né? Se não for nessa hora, vendo aquelas árvores maravilhosas, o sol e a alegria das crianças, quando vai ser?

Eu nem acho o Johnny Depp essas coisas. Talvez ele seja tão bom ator que por isso mesmo eu não o note. Agora, a Winslet, essa sim, que olhar sofredor ela tem, hein? Não conseguia esquecer dela em "O Leitor"!

Não tem quem resista àquelas crianças, ah, isso não tem! O que é o Peter Llevelyn Davies, pelamordedeus? Queria crescer logo, pois aquela vida de criança não tava bolinho para ele não!

Enquanto isso, tantos adultescentes por aí... O mistério é poder equilibrar...

06/06/2009

OS FABULOSOS QUEM?

Cartaz encontrado em de This Distractet Globe. Para link dos filmes, eu quase sempre coloco para filmes como referência a Wikipédia, apesar de saber das suas deficiências, porque eu não me adapto ao IMDB, que é chique, coisa e tals, mas eu acho chato.


Nesses findis suuuper agitados, em que tenho promovido sessões de cinema emocionantes para mim mesma, assisti Susie e os Baker Boys, com Michelle Pfeiffer, Jeff Bridges e Beau Bridges.

Devo dizer que a-m-o a Michelle Pfeiffer, o que já é um bom começo para um filme. Não sabia que o Jeff Bridges tinha um irmão, Beau. No filme, os dois são músicos, e Michelle, a cantora que a partir de um dado momento os acompanha.

Gosto dessa coisa da estrada, das turnês, de ver como o filme contou como o cotidiano pode matar o talento das pessoas - ou como elas podem sobreviver a ele.

Há uns anos atrás, talvez o que mais me prendesse na estória fosse o caso amoroso entre Susie Diamond e Jack Baker. Os dois já são bem calejados, e sabem que as coisas geralmente não dão certo.

Mas na verdade, o que me chamou a atenção foi a relação dos dois irmãos. Desde o começo fica nítido que um é o artista, o cool, o bonitão, inclusive. O outro é o mais pentelho, o que aguenta mandos e desmandos dos caras dos bares onde tocam, o cara certinho que tem uma família o esperando todas a noites depois do show.

Os dois irmãos tocam juntos desde a infância, mas aquela rotina de shows aprisiona o Jack, o talentoso, o cool. Eu passei o filme todo achando o Frank chato, só que num diálogo ele fala umas verdades para Jack e ai meu Deus!

Porque na real, Jack, Tatiana e todos os reclamões da vida (se bem que o Jack nem reclama tanto, eu já teria chutado o balde há mais tempo e ido à luta - ainda mais se fosse talentosa e bonitona como o Jack era.. Ih, Tatiana, pare de se projetar!), sim, na real é bem cômodo ficar posando de cool e ficar fora da realidade.

Só que as contas para pagar continuam, as pessoas que dependem da gente continuam, o mundo ao redor continua. Me lembrei muito da minha mãe com o diálogo visto e lembrei até da dita "governabilidade" do governo (eca, eca, eca) Lula.

Achei que no filme eles acharam um bom modo de cortar a interdependência que tinham. É um filme bonito, do tipo dos que gosto.

24/05/2009

CHATÓFORO

Foto de Adoro Cinema

Coitado do Chico Buarque. Fizeram um filme muito ruim do livro dele. Tá certo que eu não li o livro, mas o filme é muito, muito ruim.

Talvez se o livro fosse também ruim, houvesse toda uma aura do Chico me impedindo de ver isso. Mas tem aquela coisa dos livros, de deixar nossa imaginação correr solta pela narrativa. O filme não, dá a cara das coisas, o jeito dos personagens, as cores das cidades.

E é assim que começa Budapeste. Com uma belíssima imagem da cidade, o narrador contando para a gente que, ao contrário do que pensara, Budapeste não é cinza. Nossa, penso eu, vai ser um filme fantástico. Oh, como sou uma pessoa crédula! Cusp, cusp, como fui desgostando do personagem central. Talvez, se eu estivesse lendo-o, ao invés de vendo-o, eu nem desgostasse tanto, mas vê-lo realmente esgotou a minha paciência.

Não posso ter empatia alguma com um tipo fracassado e sem emoção. Talvez no livro esteja presente algum dilema, mas no filme ele simplesmente passava pelos fatos, não me transparecia paixão alguma pelo que fazia, nem tormenta alguma pelas dificuldades. E as pessoas, as mulheres, jovens e bonitas demais para ele, diga-se de passagem, me pareceram peças, coadjuvantes.

Ora, me dirá algum senhor metido a intelectual que se identifique com o personagem, ele teve alguns rompantes exatamente em função das mulheres. Não, ele teve rompantes - indicativos do seu modo totalmente tosco de lidar com suas inabilidades - em função do seu orgulho. Não do outro, mas dele mesmo.

E também, depois de "Clube da Luta" tudo fica brincadeira de criança no campo "o que será que aconteceu?". Enfim, achei tedioso, várias vezes me lembrei tanto do Clube da Luta como do "Livro de Cabeceira". Será que as pessoas ficam chocadas de ver o Chico tratando de temas menos nobres?

Ah, tem a questão da língua, que não me comoveu. Achei que conheci pouco da Hungria, e ficou claro que esse não era o propósito do filme, mas achei interessantes as paisagens, a cena dos músicos, as ruas.

E o contraste com a praia do Rio! Esse deu a sensação que a gente tem quando viaja de um lugar para o outro. Agora, existem coisas que são fracas, muito fracas, como o samba cantado em húngaro. Filmezinho chumbrega! E vem cá, o que é aquele ator de mais de 50 anos de idade pegando a Giovanna Antonelli, a Paola Oliveira e a atriz húngara, que não por acaso é linda?

Porque não botar no elenco mulheres imperfeitas esteticamente como ele? E da faixa etária dele? Ou então, porque não colocar como protagonista um bonitão como as moçoilas? É machismo siiiim! E eu não digo porque eu não goste de mais velhos, todo mundo sabe que são meus preferidos, só acho que as coisas têm que ser igualitárias.

Então, o fracassado é o bambambam! A Giovanna Antonelli está num dos seus primeiros papéis como uma mulher madura. Num dos primeiros que eu vejo, porque graças a Deus eu não acompanho a carreira dela. Agora, a húngara se interessando por ele é realmente demais! Tão óbvio que vai acontecer, e tão inverossímel, ao menos na pele daquele ator inconsistente...

Como eu disse, coitado do Chico Buarque, que aparece no final do filme. Eu acho que ele teve vergonha de aparecer num filme tão ruim. Me deu a impressão que estava com um sorriso meio amarelo.

01/05/2009

PALAVRA CHATA

Nem o Chico, maravilhoso, conseguiu salvar o filme. Foto do site da chatice ambulante

Fui ver Palavra Encantada. Não tinha lido nada sobre o filme nem ouvido falar sobre ele e o convite veio de sopetão, no trabalho. O filme se propõe a abordar a relação entre música e poesia na música brasileira, com depoimentos de Chico Buarque, Maira Bethânia, BNegão, Adriana Calcanhotto, Jorge Mautner, Ferrez, Zé Celso, Paulo César Pinheiro, Luiz Tatit.

O chato é que aí vc tem que aguentar Antônio Cícero, Lenine, Zélia Duncan, Zeca Baleiro, Martinho da Vila, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik, além da péssima luz das entevistas. E ainda por cima uns trechos de clips das artistas, parecendo uma coisa educativa, para burro ver. Tipo olha, estou falando disso aqui, que vc, burro, nunca viu, nem tem discernimento para saber se gosta ou não.

E isso cai como uma luva para a platéia de Salvador. Desculpem, mas ou eu levo muito azar ou é verdade. Seguinte, cinema é um lugar onde a gente entre para ver filme, e não para conversar. Quer conversar, fica vendo novela em casa. A galera a-do-ra ficar comentando qualquer coisinha, deve se achar inteligente por estar entendendo o que o Chico Buarque diz. Ou então o que aquele poço de inteligência, o Lenine, balbucia.

E o coitado do Tom Zé não pode aparecer na tela que começam a gargalhar. Se eu gosto ou não gosto do Tom Zé, é outra história, mas eu acho que antes de tudo, tem que se ouvir o que o cara tá dizendo. E o que ele disse de Caymmi foi bonito, reverencial. Não foi engraçado. Mas as antas riem. Eu tive que fazer força para não sair do cinema, na verdade não saí porque minhas amigas iam achar que eu estava mal humorada. E antes de começar o filme, eu não estava.

E eu nem estava num cinema de shopping. Estava numa sala de circuito de arte, com pessoas que se dizem intelectualizadas. Sinceramente, eu devia ter vindo embora para casa. Amo o Chico, mas ele não me disse nenhuma novidade. Gostei só de ver como era a casa de todo mundo. E ver que um verdinho dá uma paz no ambiente.

Agora, alguém me diz como podem fazer um filme tão ruim apesar de ter tanta gente boa no roteiro?

11/02/2009

O GOLPE DO CARNEIRO


Foto retirada d' O Globo

Filmes de boxe sempre têm um componente dramático na narrativa. Pelo menos os que eu me lembro de ter assistido, como "O Campeão", "Menina de Ouro" e "Cinderella Man". Assim, foi querendo e não querendo que fui ver "O Lutador", que marca a volta de Mickey Rourke às telas.

Sendo do diretor Darren Aronofski, o mesmo de "Réquiem para um Sonho", eu já fui esperando algo que não fosse um dramalhão abobalhado (mesmo que eu me entregue a eles muitas vezes). Esteticamente, "Réquiem" tinha apresentado alternativas para mim inovadoras, falando de velhos assuntos de uma nova maneira.

Não deu outra. Sombrio, introspectivo e principalmente, solitário. Assim foi o clima das cenas iniciais de "O Lutador", que tem recebido excelentes críticas. Curioso é o fato de Rourke voltar justamente num filme sobre, ou que envolve o boxe, já que de 1991 a 1995 ele chegou a deixar a carreira de ator um pouco de lado para se tornar um lutador profissional de boxe.

Se bem que não estamos falando de boxe. Estamos falando de luta livre, o vale tudo ou coisa do tipo. Isso é que Random "The Ram" faz no filme, após o seu auge. E se prepare, se vc for como eu, que se encolhe na poltrona do cinema a qualquer pancadazinha que vê na tela ou não gosta de ver sangue.

Ali, se ultrapassaram as barreiras éticas do boxe, e vale realmente tudo. E o diretor explora isso muito bem, propositadamente mostrando o que é para mim uma espécie de masoquismo. As cenas me causaram mal estar, pensei: mas que porcaria, odeio vir ao cinema e ficar vendo essas coisas.

Mas após essa necessária, segundo a visão do diretor, exposição dos bastidores e da dinâmica das lutas, a estória começa a se desenrolar. E não vitimiza The Ram. Ele sabe dos seus dramas pessoais, assim como sabe que o caminho foi escolhido por ele. Não cai na pieguice.

Existem momentos silenciosos, reflexivos. Em que ele percebe essas coisas. São momentos um pouco incômodos para o expectador. Marisa Tomei está bem no papel da streapper, quantos quilos eu tenho que emagrecer para ficar com aquele corpo que ela está aos 44 anos?

Para mim, a questão central do filme foi a dificuldade de se abandonar hábitos e estilos de vida, mesmo quando se sabe que alguns são menos recomendados que outros. As tentativas de se enquadrar na "normalidade", as explosões. O encontro com a nossa própria personalidade, a falta de amadurecimento.

Caiu como uma luva a preferência dos protagonistas pelas bandas de metal dos anos 80, tanto que o filme conta com Cinderella, Quiet Riot, Ratt, Accept e Scorpions, dentre outras do gênero, compondo essa atmosfera trash. Curioso um trecho da conversa entre eles, sobre os anos 90.

Quando tocam Guns N' Roses, tudo faz sentido: é difícil lutar contra nossa própria natureza. Ou contra o que nos acostumamos a achar que ela é. Maravilhosa é a canção final, que leva o nome do filme, intrepretada por Bruce Spingsteen.

01/02/2009

MIMOS DA MAMI

Livros que minha mãe tinha separado para eu ler: biografias de Baudelaire e Rimbaud


De Visconti: O Leopardo e Ludwig





Quando cheguei na casa da mamma, ela já tinha pego na Biblioteca (não a de casa, a Biblioteca Pública) uns livros para eu ler. Claro que não li nenhum, mas agredeci os relatos que ela me fez da vida de Baudelaire e de Rimbaud. Juro que entendi tudinho na hora, mas não sei se saberia repetir.

As sessões de filmes foi mais divertida, já que durante o semestre eu não havia atendido suas recomendações de ver Visconti. Na verdade tenho um pouco de medo dos filmes recomendados por minha mãe. Medo que eles sejam bons e me causem pensamentos muitos complexos, como os de Bergman, ou medo que eu entre numa roubada muito grande, tamanha a chatice, tipo "A Árvore dos Tamancos". Talvez se eu visse "A Árvore dos Tamancos hoje eu até achasse legal (seráááá?), mas na época eu achei um saco.

Esses e muitos outros ela me levava para eu ver quando eu tinha dez, onze anos de idade e a gente morava em São Paulo. Acho que ela não tinha muita noção do que era programa para criança e programa para adulto (muita não, ela não tinha a mínima noção!) e, já que ela gostava tanto dos filmes, estava pensando fazer um bem para mim me dando a grande oportunidade de ver tais obras primas.

Foi assim com ".... E o Vento Levou", que estava reestreando numa versão sei lá o quê. O filme tinha censura de 12 anos, mas ela conversou com o bilheteiro e entramos, ficando numa andar superior do cinema. Lembro que ela chorava muito no filme, levou até uma caixa de lenços (draaaaaama!).

E assim, agora nas pequenas férias de fim de ano ao lado dela, os filmezinhos escolhidos, claro, tinham que ter essa cara. Chegou uma hora em que eu falei: "mas mãe, nem um filme menos antigo, mais leve, mais despretencioso?".

Ela simplesmente não sabe o que é isso, é o universo dela. Assim como eu me tornei uma pessoa "levemente" datada dos anos 80 e 90, vou aos poucos reunindo os filmes e álbuns que foram importantes para mim ao longo da minha vida, ela assim que pode, começou a fazer o mesmo com o que foi/é importante para ela.

De tudo que vi por lá, ficou sobretudo Visconti, especialmente Ludwig. Quando fazer cinema era outra coisa, era preparar o ator. Ao assistir você percebia que ator, diretor, todos estavam realmente embrenhados naquilo. Uma obra braçal, artesanal, genial.

Para cada pessoa, algo marca em Ludwig. Para mim, foram os diálogos entre ele e o general. Todos respeitavam Ludwig, afinal ele era o Rei. O general, além de respeitá-lo, tinha amizade por ele, entendia os seus dilemas humanistas (Ludwig estava mais interessado em contratar Wagner para inaugurar um teatro com uma nova ópera que se aproximar de assuntos práticos, e não foi para o front).

Também gostei dos diálogos entre Ludwig e sua prima Sissi, vivida novamente pela Romy Schneider, que tinha interpretado a personagem na trilogia Sissi, de outro diretor. São retratados os dilemas da realeza, de não poder fugir ao papel da nobreza, de não poder chutar o balde como um simples plebeu.

Enfim, sensibilidade em excesso nem sempre combina com o poder, e talvez leve à perturbações mentais. Ou elas são impostas pelo sistemão? Ludwig e Visconti são uma boa oportunidade para pensar sobre isso.

E o Leopardo, com Burt Lancaster no papel título, nos faz ver a decadência da aristocracia italiana. O oportunismo dos recém vencedores da revolução de Garibaldi ao aliar-se com a burguesia ascendente deprime o olhar do "Gattopardo", sobretudo na longa sequência do baile, que é onde ocorre toda a percepção dele e o mal estar com a situação.

Talvez por isso, eu tenha me cansado da longa sequência, mas sempre respeitando Visconti, que passei a conhecer, como tantos outros diretores, por intermédio da mamacita.

02/05/2008

PEGA UM, PEGA GERAL


Tatinha é chata e odeia unanimidades. Por isso, não tinha visto Tropa de Elite. Me achava superiorzinha às pessoas que comentavam o filme, e senti um certo orgulho quando me falaram: vc deve ser a única brasileira que não viu.

Não acho o Wagner Moura um ator fenomenal, como todos insistem em achar, e isso contribuiu para que eu não fosse ao cinema ver o filme, nem nunca o locasse. Comprar, então, nem pensar, já que não compro DVDs piratas e se fosse comprar um original, não seria esse.

Até que estou numa sexta-feira chuvosa em Itabatã e acho o filme para ver. Em primeiro lugar, ele não me irritou tanto quanto eu imaginava, pois não é narrado por um policial corrupto e sim por um policial honesto. Violento, é verdade. Mas estou perdendo um pouco o meu pudor em relação a isso. Não acho que todas as casas de uma favela devam ser revistadas para que se ache um traficante. Lá moram pessoas de bem. Mas as merdas dos bandidos - que o são muitas vezes apenas por simples processo de causa e efeito - não dão mole.

Como funcionária pública, sei que é difícil fazer as coisas. E sei que quem faz bem, só se ferra. Não tem lugar no esquema. Não dá para esquecer que o filme é o ponto de vista de um policial, não de um (hahaha) sociólogo. Apesar de eu ter gostado do filme mais que esperava, concordo com algumas críticas que li, só depois de vê-lo. Outras, não tive paciência para ler. 

Voltando para o filme, não achei pesado. Pesado é o sistema, que como diz o filme, não trabalha para a coletividade, trabalha para ele mesmo. As partes que mais me chocaram não foram os sufocamentos, os balaços na cabeça, as porradas...

O mais triste de ver são os esquemas de corrupção. O cara é bom, mas entra numa estrutura falida. Ou vai ficar lá mofando e nunca vai se destacar, ou vai se corromper, ou vai usar a criatividade para tentar dar a volta por cima. Ou vai gritar e se indispor com todo mundo, e vai se dar mal.

É podre o esquema do choppinho de graça (isso sem dizer que beber em horário de serviço já é um absurdo!), da segurança paga, dos guinchos que o Estado não tem recursos para manter, da firma de guinchos que os manda-chuvas do batalhão são donos e que venceram a licitação (será que teve?), aí ficam multando a rodo para guinchar todo mundo. Então, o outro policial, que ganhava propina para deixar o cara estacionar irregularmente, dança na parada, pois é hierarquicamente inferior à máfia do guincho.

E é tão parecido com tudo que eu vejo diariamente na repartição... Os mesmos vícios, as mesmas respostas: não pode fazer, não dá para fazer... Depois, vêm as notícias dos verdadeiros motivos... Eu me diverti vendo, pois é tão patético, eu conheço tudo isso tão de perto... Se fazem isso com a segurança pública, com vidas, com gente morrendo, bala perdida, tráfico, crime organizado, ou seja, uma situação que todo mundo já sabe, há décadas, que é insustentável, imagine o que não fazem com o meio ambiente, que vem a reboque sempre das negociatas?

Bah! Quem quiser que se iluda e aplauda. Quando fazem, é a obrigação. Fico feliz por participar da obrigação minimamente bem feita do Estado, mas estou cada vez mais descrente que ele vá conseguir reverter os grandes acordos fechados em jantares regados a champanhe comprado com cartão coorparativo.

Tá de bobeira?

07/03/2007

NITRATO

Je vous trouve très beau

Eu adoro filmes lindos. Só os filmes LINDOS conseguem me deixar impactada, pensativa, emocionada, transformada, esperançosa, confiante. Tabém gosto dos filmes que não são tão lindos mas que me deixam mais triste, mais saudosa, com mais pânico frente à existência humana, à existência do planeta, à minha parca existência ou à existência de uma pessoa qualquer, num lugar improvável qualquer, numa situação limítrofe qualquer.

Gosto de filmes sobre GENTE. Curiosamente, de verdade eu não suporto muito bem quase nenhum tipo de gente. Mas no escuro, naquele momento em que você é absorvido durante duas horas por uma imagem que toma todo seu campo de visão e com isso conquista seu pensamento, que começa a passear junto com o filme, gosto de pensar que existe gente no mundo.