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27/09/2015

MOSCA



Ele era esquisito. Mas como Mimi não era exatamente a pessoa mais convencional do mundo, relevou. Não ligava para os potinhos de comida brancos com tampa verde. Embora não gostasse de futebol, achava legítimo que alguém adornasse a casa com as cores do time. Afinal de contas, ela decorava a sua com as páginas centrais das revistas de astronomia.

Juntos comiam pipoca, iam ao zoológico e passeavam de Interbairros II. Não eram seus eventos preferidos, mas resolveu achá-los pitorescos.

O sexo com ele lembrava seus tempos de repartição: era burocrático. Inevitavelmente isso se tornaria um problema, mas por algum tempo preferiu se ocupar com a descoberta de novas receitas culinárias. Apagou a lembrança de todas as noites árduas que passara com Fagundes, a quem tentava esquecer depois de ver os noticiários na televisão.

Até que um dia, no alto da roda gigante do Parque Alvorada, o colecionador de flâmulas disse que não queria mais. Mimi não esbravejou, pois lembrou da promessa que faz todo reveillon.

Havia de se tornar uma pessoa mais tolerante. Não disse que ele falava demais e que ela ouvia com paciência pois esperava que chegasse a hora dela também falar. Não disse que preferia ir sozinha à reunião dos Astrônomos Anônimos a passar o final de semana com ele vendendo rifas na quermesse.

Não disse, finalmente, nada que fizesse com que ele a conhecesse de fato. Afinal, a companhia de um ao outro jamais passara de uma insípida conveniência.

De quando em vez Mimi tinha um leve desconforto ao lembrar que podia tê-lo dispensado antes de ser preterida. Em seguida vinha a felicidade de ir ao planetário o invés de colar figurinhas no álbum da Copa do Mundo.

27/05/2008

IMÃ


O CRA virou IMA. Saiu nas páginas 33, 34, 35, 36 e 37 do Diário Oficial do Estado da Bahia, caderno do Poder Legislativo.

A matéria não existe em texto, nem tampouco pode ser salva no Acrobat. Atualização no site do SEIA ou da SEMA? Oxi, tá louco? Limite-se a sorrir!

Mas resumindo: ordenamento de fauna e flora saíram da ex-SEMARH, atual SEMA e vieram pro ex-CRA, atual IMA. Não é imã de geladeira - ou ao menos eu espero que não se venda com a mesma facilidade dos mesmos. Mas que tem gente do olho nas Reservas Legais, e que quer fazer disso um negócio lucrativo, ah isso tem.

NEAMA e DIPRO, ao contrário, não passaram para a SEMA. Concentrar para dominar!!!

É, as coisas não me agradam. Acho até legal a figura de um instituto, tipo o IEF ou o IAP. Mas não basta mudar o nome e criar mais um monte de cargos. Tem que mudar a mentalidade, esse coisinha pequena do poderzinho de repartição, da estrutura viciada em pequenas gentilezas e babações de ovo.

Tem gente que anda dizendo que nem na época do Sinhozinho foi tão maltratada. Comigo não é assim, eu prefiro esta gestão, milhões de vezes. Mas... tantos cargos tomados por donos de posto de gasolina, candidatos a não sei o que em não sei qual cidade, ou - realmente não sei o que é pior - por representantes do governo anterior, comprovadamente comprometidos única e exclusivamente com seu projeto pessoal: manter-se no cargo a qualquer custo...

Conseguiram. Não estão se mantendo, estão subindo. Enquanto isso, técnicos que batalharam duro, que fizeram relatórios sérios sobre seus trabalhos, expondo os resultados alcançados, as dificuldades enfrentadas e propondo um ajuste de metas, foram simplesmente mudados de chefia, sem qualquer consulta ou aviso prévio. O relatório? Já procurou naquela gaveta mofada na sala de mesa de mármore e tapete persa? Não, não tive tempo, estive preocupada com o burburinho para saber para quem vai sobrar um qualquer, com um cargo novo....

Isso não muda o meu comprometimento com o trabalho. Só aumenta um pouco minha irritabilidade, diminuindo minha paciência para lero-lero.

12/05/2008

OTIMIZAÇÃO




Lá na repartição, todos os chefes queriam resultados. Senão, disseram eles, vão pensar que o Partido dos Melhores não faz nada. Então, mandaram Mimi e mais 857 (oitocentos e cinquenta e sete) pessoas para continuar a investigação do polvilho.

Deram R$ 14,85 (quatorze reais e oitenta e cinco centavos) para que eles dividissem entre si. Avisaram que era para otimizar o recurso. Assim, eles poderiam enfim trabalhar: mimeografar os mapas que não tinham e comprar fichas telefônicas para marcar suas inspeções, nitrato de prata para as máquinas fotográficas e máscaras para não inalarem as partículas tóxicas das fábricas. Enfim, tudo estava resolvido.

Além disso, tinham que dividir os blocos de anotações entre si. Isso era bom para exercitar a cooperação entre eles, que tinham que ser benevolentes e aplicar os conceitos cristãos, emprestando para outrem até mesmo o que não tinham.

Se os chefes tinham preferido assim, pensava Emília Motina - não seria ela que mudaria isso. Mas eles tb não a mudariam. A guerra, ela talvez perdesse. Mas não sem dar trabalho aos oponentes.

03/03/2008

GUERRA




Emília Motina estava em guerra. Todos diziam que era contra ela mesma, e ela dizia que era contra todos. Parecia uma coisa bem tardia para ela, que passava dos quarenta, mas depois daquela maquiagem definitiva e da discussão com AgáErre, ela desistiu de muitas coisas.

Decidiu então se vestir como uma guerreira, e todo dia era mais um pedaço de sua batalha particular. Uma batalha que ela fazia do seu modo. Não seria silenciosa e velada como a guerrazinha diária da repartição, mas também não seria ostensiva e violenta como a estupidez daquele cauboy texano Presidente do Mundo. Não seria pacífica, mas talvez fosse tão patética e infrutífera quanto a  

Talvez Mimi fosse uma cópia do que ela menos quisesse. Agora não importava, ao menos não seguiu nenhuma profissão óbvia e era escriturária com orgulho e não dependia de ninguém para pagar as contas. Gostava de resolver o caso das fábricas de biscoito, pena que HR fosse o Dono da Justiça.

Mimi estava ficando bem chata, se indispondo com todo mundo. Ás vezes ficava muito quieta e se isolava. Às vezes pensava que tinha que ouvir os outros e aceitar. Mesmo que tivesse certeza que os outros não eram tão bons quanto ela naquele assunto dos biscoitos - e isso não era megalomania, era a realidade.

Mas noutras vezes, falavam: "Mimi, vc precisa ir lá amanhã. O AgáErre vai estar lá e estamos precisando de alguém como vc para falar umas coisas". Aí Mimi ficava nervosa de véspera. Ensaiava o que ia falar, escrevia, andava na frente do espelho ensaiando a melhor pose.

Ontem, Mimi não foi lá onde todos os colegas achavam que ela tinha que estar. Pensou: "porque eles não falam?". Estava cansada de ser sempre ela a falar, falar, falar. Já que não havia diferença entre os bons e os maus funcionários da repartição, ela foi fazer as unhas. E eu ouvi dizer que ela não acreditava que o que ela falasse pudesse fazer alguma diferença.

Amanhã, Mimi vai começar a olhar de novo as fábricas de biscoito do bairro com mais fiscais. A troupe de HR disse para Mimi e os outros dez que está tudo bem, e que eles podem olhar as fábricas em paz. Mas Mimi está de olhos abertos, e em guerra. Contra tudo e contra todos.

O cerco se fecha, ela está sozinha. Agindo assim, não consegue aliados. Mas estava farta de ser boazinha e também não tê-los.

17/02/2008

INCOMPATIBILIDADE DE GÊNIOS

A VOZ DO DONO


Emília Motina, a escriturária. 

Os anos estavam se passando e os sonhos de Emília Motina estavam ficando tão velhos quanto as estrelas que usava nos cabelos. Aliás, por causa delas e das tintas no rosto, muitos eram os comentários a respeito da sua sanidade mental. Apesar de ser apenas uma escriturária, não agia como uma.

Desde que era subordinada direta do Dr. Buronel, sempre encontrava com outras pessoas com os olhos inchados, que também iam chorar no banheiro da repartição. Teve uma crise nos rins e foi trabalhar nas Voluntárias Sociais, onde fazia crochê com as velhinhas.

Mas o Partido dos Melhores (PM) havia ganhado as eleições e Mimi havia regressado à repartição para resolver o caso das fábricas de biscoito.

Depois que ela e os investigadores andaram em todas as fábricas e comprovaram todos os crimes, Mimi se alegrou por achar que a vida dela faria algum sentido. Imagine que bom, parar de fazer as fábricas que escravizam crianças funcionarem! Isso seria justiça, pensava ela.

Mas H.R, que tinha décadas de prática de campanha no Partido dos Melhores, estava lá para lembrá-la que justiça era outra coisa.

Justiça é uma palavra que se escreve em caixa alta e em negrito. Que se grita. Que tem DONO. E o Dono era H.R.

Mimi não era dona de nada. Nem dos seus sonhos. Só era dona de sua raiva, cada vez maior.

16/02/2008

A REPARTIÇÃO

HR, o chefe

A voz vigorosa de Hadônio Rocha contrastava com seu aspecto franzino. Entrou decidido na reunião da repartição. Iria fazer justiça. Não iria deixar que as fábricas de biscoito de polvilho trabalhassem só por meio turno. Todas estavam usando mão-de-obra infantil e haviam sido parcialmente interditadas, mas as pessoas têm que trabalhar!

Dr Buronel mesmo já tratou de dar um jeito nisso. Emitiu um documento obrigando aquela fábrica do cunhado da prima a comprar um caderno novo para cada criança que foi mandada de volta para casa. Tirou do trabalho e ainda por cima deu condições de estudo. Foi recebido com homenagens na quadra de esportes, fizeram até um churrasco para ele. E o melhor: o pessoal do bairro não teve que gastar nada, a Biscoitos Lobo pagou tudo. Está todo mundo satisfeito e a empresa já voltou a funcionar. Estão trabalhando em três turnos agora. Tava "assim" de gente na fila para as vagas.

"Eu não posso ser injusto com as outras firmas", disse HR. 

Na reunião falou, com sua voz grave, em tom alto: "é errado uma poder e as outras não poderem. Temos que ser JUSTOS com todas". O erro já foi remediado. Você quer que a nossa repartição seja conhecida por impedir as pessoas de trabalhar?