30/03/2008

PEDRA BRANCA


Depois de quase uma semana sem acesso à internet (fui caçar borboletas, como diz a Tita), encontro - vejam só - comentários que não são nem da Katy nem da Tita no meu blog. Zuzo bem, mas o interessante é que era numa postagem antiga, sobre o município de Itapebi.

Os autores dos comentários são pessoas que nasceram e amam aquela cidade, que acharam meu texto na web e publicaram no site que mantêm.

Apesar de eu não suportar morar em cidades pequenas (o céu é o limite) e me irritar com o provincianismo em geral, admiro uma coisa: a sensação de pertencimento dessas pessoas a seu local de origem. Talvez eu não goste de cidades pequenas exatamente porque não saiba o que é isso, ter origem fixa, ter uma referência.

É extremamente curioso ver como as cidades adquiriram independência, se desmembraram de outras, entraram no seu período de apogeu... E como as pessoas se referem às outras: "fulano, filho de beltrano". Talvez eu me sentisse um pouco oprimida com isso, e falasse: filha de ninguém, sou Tatiana e pronto.

Mas isso é porque eu não tenho referências, buááááá! Numa cidade do interior, tudo deve ser calmo, imagino eu. Fora as desavenças políticas e as fofocas... Mas talvez quem nasça lá já venha se acostumando com isso há mais tempo...

O que achei bonito no texto que fala da história da cidade foi o final:

Hoje, Itapebi continuação a sua história acompanhando, de uma certa forma o "progresso" da região com seus novos traços, novos sabores noturnos e ao som de novos embalos, comemorando seus anos na esperança de um novo amanhã.

É preciso ter esperança e trabalhar por ela!

SAPATOS SUJOS


Peu, que tinha uma banda com Lefê, da qual eu não me lembro o nome (mas me lembro direitinho da capa do CD, com umas nadadoras), compôs uma música chamada "Sapatos Sujos". Se eu estivesse em casa, este post sairia mais redondinho, com a letra da música, que certamente eu ouviria enquanto escreveria e até mesmo as palavras seriam outras, bem como o rumo do texto.

O legal da letra, bem simples, é que por meio dos sapatos ela traça um paralelo com os caminhos que a gente fez até chegar no presente momento.

Sempre volto do mato bem suja. Sempre saio das coisas bem marcada, na verdade. Não consigo passar ilesa pelas situações e raramente elas também passam ilesas por mim. Se temos a capacidade de transformar as coisas, ainda que eu a use de forma incipiente, tresloucada, atravessada - na contramão do alegado bom senso, que assim seja.

Mas entrar no mato sem me sujar, isso não.

29/03/2008

ON THE ROAD

BR 101, proximidades do Parque Nacional Monte Pascoal, município de Itamaraju, BA

Em busca de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente

Trabalho duro, mais uma vez. Tenho me questionado muitas coisas. Estou perto dos 40. Tem coisas que não cabem mais. Campo é muito bom. Inegavelmente, sou muito boa de campo. Em dupla, sou melhor ainda, se meu parceiro for bom, como é o caso. Tivemos uma boa afinação, no primeiro dia a dinâmica flui bem. Natural. Ele gosta de levantamento topográfico, geoprocessamento, é detalhista nos mapas. Fica manejando o GPS com gosto. Eu, levemente controladora e com mania de organização, fico com a ficha de campo, coisa que ele não faz questão ("anota vc, que tem a letra mais bonita"), e tiro as fotos. Anoto as Coordenadas e as fotos associadas a cada uma delas.

A questão é: paramos em todas as nascentes secas, todas as represas, medimos toda a área para estimar a largura do rio? Quando estou no campo, não consigo deixar passar. O caso é que demora, e a Chefia às vezes quer pressa. Eu já vi Chefe chamar o peão para fazer o trabalho melhor, nunca vi chefe chamar e falar: "escuta aqui, vc tá fazendo muito bem feito, tem que fazer mais matado"...

Por essas e outras que vejo que embora tenhamos um objetivo maior - apesar deste também estar se esvaindo em acordos e pressões, me sinto tolhida por ter discernimento, ter capacidade crítica além da média - que só quer fazer suas atribuições e olhe lá - e não ter capacidade alguma de decisão.

Tô ficando mais velha e não quero ser peoa a vida toda, não por ambição, por grana, por poder ou por dificuldade em cumprir ordens. Hoje vejo que é por ser capaz de ter uma visão mais apurada da situação, uma visão que talvez a estrutura paquidérmica do Estado não permita que os parasitas se afastem da máquina. Tenho procurado, ao menos imaginariamente, outras alternativas.

Enquanto isso não ocorre, trabalho com prazer, afinal amo o que faço e quando faço, modéstia às favas, faço bem. E já que estou na estrada, pé no acelerador e música no último volume. Gás não me falta!

15/03/2008

SANTA IGNORÂNCIA

Foto: Jean-michel Krief , em mnsbc
Bonitinho, mas equivocado
14.03.2008 | Os chimpanzés são comumente usados na publicidade. No entanto, a prática pode estar com os dias contados. Isso porque um grupo de primatologistas tem atacado a indústria da comunicação por explorar a espécie como "frívolos sub-humanos", que podem ser vistos como objetos de diversão e ridicularização. De acordo com os cientistas, vestir chimpanzés com roupas ou fazê-los realizar atividades cotidianas dos humanos dá às pessoas a impressão de que eles não são uma espécie em extinção. Segundo um levantamento realizado pelo grupo, 90% dos entrevistados acreditavam que gorilas e orangotangos eram espécies ameaçadas, contra 72% dos que pensavam a mesma coisa dos chimpanzés. O resultado indica uma percepção completamente errada, já que os chimpanzés têm sofrido um declínio catastrófico no estado selvagem e as estimativas indicam que a espécie poderá ser extinta dentro de algumas décadas. A campanha já surtiu algum efeito e a revista Science retirou de suas páginas os anúncios que exploravam os primatas. A notícia é do jornal inglês The Independent.
Fonte: O Eco

11/03/2008

TRABALHO, ESSA COMPLICAÇÃO


Paisagem bucólica? Mas parece que estão tentando fazer um atracadouro por lá...


A cidade é a "praia dos mineiros" por ficar na divisa da BA com o ES. Aí não é a sua orla, é a baía. Tem muitos pescados, mas não deu para eu ir ao Mercado do Peixe - afinal, eu estava trabalhando.



Chegamos em cinco - nós quatro e o que tirou a foto - à Secretaria de Meio Ambiente, para dar uma olhada nos processos emitidos para a atividade de silvicultura.

Semana passada foi um trampo duro. O bom de estar em campo é que eu acostumo a acordar cedo. Quando chego na capital, já me acomodo. Lá não, acho que fico tão ansiosa com os horários, tirar tudo da mala, deixar as coisas prontas, separar documentos, rever papeladas, que cinco e meia, seis horas, pulo da cama.

São dois tipos de estresses diferentes. Tenho tentado medir e escolher. "Agora, vou para o campo; agora, volto para Salvador". Não sou bem eu que escolho, as coisas têm seu período para acontecer, cabe a mim no máximo decidir se vou viajar ou não. Das últimas vezes, quase não fui, num processo de ruptura total. Mas transigi, visto que sou uma candura de pessoa.

Desta vez, não me estressei muito, não quis mudar o mundo, e acho que essa minha própria ruptura anterior gerou um pouco de descompromisso com as coisas, e que aliviou um pouco a tensão. Outra coisa que ajudou muito foi ter ficado na casa da Flávia, com as crianças, respirando coisas boas, ao invés de ter ficado num hotel impessoal e maçante.

Mas é claro que o meu "descompromisso" é apenas momentâneo. Isso, porque, sem querer parecer presunçosa, eu realmente tenho iniciativa no trabalho, agilizo as coisas, tenho desenvoltura para falar com as pessoas. Além da minha franqueza, que se por muitas vezes me atrapalha, por outras me ajuda, então faz com que eu seja lembrada. Se comumente é para os dissabores, às vezes também é para as coisas se desenrolarem, e aí, se não tem a minha mão, sinto que algumas coisas não saem tão rápido.

Isso é "sopa no mel" (aliás, que expressão ridícula é essa - sopa no mel? - ninguém toma sopa com mel, , nem põe mel na sopa, enfim....) para a minha ansiedade. Tatiana é ansiosa e é requisitada? Deixa tudo nas costas dela, uai! Então, nessa viagem desacelerei um pouco, mas nos últimos dias já resolvi umas coisas - que se eu tivesse resolvido desde o início, não teriam se encavalado tanto.

Mas deixa estar, assim as pessoas talvez tenham chance de ver que não foram muito competentes.

O fato é que eu amo o que faço. Mesmo. Quando vou ao campo, ou quando estou, como hoje ou ontem, em contato direto com o Ministério Público, corre em mim um ímpeto, uma empolgação, uma fé, uma crença que as coisas vão dar certo, que serão resolvidas, que o meu trabalho está adiantando para algo e faz parte de uma coisa maior...

Mas quando vejo as pessoas envoltas em pilhas de papéis que não despacham por acharem que precisam corrigir todas as vírgulas, quando vejo assessores que nunca foram ao campo comandarem equipes inteiras, quando vejo as multas paradas por um, dois, cinco anos sem serem emitidas, quando vejo os filhos de coronéis galgando cargos na Secretaria do Meio Ambiente, quando vejo todos os "novos" Diretores saindo para se candidatarem, quando vejo que o MEU trabalho talvez só sirva para que os infratores façam acordo com meus chefes....

Aí me dá uma vontade de sair... Sair, sair. Assobiando, se eu fosse calma e dissimulada. Não sou, fui sair esse poço que jorra espontaneidade. Tenho um plano: pedir meus mil dias de férias, ficar em casa, escrevendo, terminar meu mestrado (será que dessa vez sai?)...

Só que essa minha alucinação de querer fazer tudo também quer aproveitar essa oportunidade de estar em campo fiscalizando. Então, penso: é só mais essa Operação. São dados importantíssimos, como eu não vou participar disso?

Agora, acho que é só mais essa mesmo. Que deve ir até junho, acho.

03/03/2008

GUERRA




Emília Motina estava em guerra. Todos diziam que era contra ela mesma, e ela dizia que era contra todos. Parecia uma coisa bem tardia para ela, que passava dos quarenta, mas depois daquela maquiagem definitiva e da discussão com AgáErre, ela desistiu de muitas coisas.

Decidiu então se vestir como uma guerreira, e todo dia era mais um pedaço de sua batalha particular. Uma batalha que ela fazia do seu modo. Não seria silenciosa e velada como a guerrazinha diária da repartição, mas também não seria ostensiva e violenta como a estupidez daquele cauboy texano Presidente do Mundo. Não seria pacífica, mas talvez fosse tão patética e infrutífera quanto a  

Talvez Mimi fosse uma cópia do que ela menos quisesse. Agora não importava, ao menos não seguiu nenhuma profissão óbvia e era escriturária com orgulho e não dependia de ninguém para pagar as contas. Gostava de resolver o caso das fábricas de biscoito, pena que HR fosse o Dono da Justiça.

Mimi estava ficando bem chata, se indispondo com todo mundo. Ás vezes ficava muito quieta e se isolava. Às vezes pensava que tinha que ouvir os outros e aceitar. Mesmo que tivesse certeza que os outros não eram tão bons quanto ela naquele assunto dos biscoitos - e isso não era megalomania, era a realidade.

Mas noutras vezes, falavam: "Mimi, vc precisa ir lá amanhã. O AgáErre vai estar lá e estamos precisando de alguém como vc para falar umas coisas". Aí Mimi ficava nervosa de véspera. Ensaiava o que ia falar, escrevia, andava na frente do espelho ensaiando a melhor pose.

Ontem, Mimi não foi lá onde todos os colegas achavam que ela tinha que estar. Pensou: "porque eles não falam?". Estava cansada de ser sempre ela a falar, falar, falar. Já que não havia diferença entre os bons e os maus funcionários da repartição, ela foi fazer as unhas. E eu ouvi dizer que ela não acreditava que o que ela falasse pudesse fazer alguma diferença.

Amanhã, Mimi vai começar a olhar de novo as fábricas de biscoito do bairro com mais fiscais. A troupe de HR disse para Mimi e os outros dez que está tudo bem, e que eles podem olhar as fábricas em paz. Mas Mimi está de olhos abertos, e em guerra. Contra tudo e contra todos.

O cerco se fecha, ela está sozinha. Agindo assim, não consegue aliados. Mas estava farta de ser boazinha e também não tê-los.

01/03/2008

INTERESSES PARTICULARES

Foto: Welton Araújo / Agência A Tarde

Sucom é obrigada a reconstruir terreiro

O terreiro de Angola, Oyá Unipó Neto, destruído parcialmente na última quarta-feira, a mando da superintendente da Sucom, Kátia Carmelo, será reconstruído pela prefeitura municipal de Salvador nos próximos dias. Já a superintendente deixa a liderança do órgão e passa a cuidar exclusivamente da Secretaria de Planejamento do Município (Seplam). Pela manhã e à noite, representantes de terreiros de candomblé fizeram manifestações no local onde fica o terreiro, no Imbuí.

A prefeitura, conforme informou a secretária de reparação, Antônia Garcia, fará apuração sobre a legalidade do terreno. Caso seja confirmada a irregularidade, buscará a regularização fundiária. “Se não conseguirmos, vamos procurar outra área para erguer o templo, em comum acordo”, completa.

A prefeitura também assumiu o compromisso de arcar com os custos dos objetos de culto que foram danificados durante a demolição. As decisões referentes ao terreiro foram anunciadas por Antônia Garcia, após reunião, nesta sexta, com os responsáveis pelo terreiro, os secretários municipais de educação e governo e o subsecretário de Reparação.

O prefeito João Henrique, que havia anunciado a presença na reunião, não compareceu, o que gerou impasse para o começo da negociação. Os representantes do terreiro e da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro Ameríndia (AFA) se negaram a negociar na presença de Kátia Carmelo e pedem um pronunciamento do prefeito.

“Uma pessoa que considera um templo sagrado como um lugar qualquer e faz o que a superintendente fez, não é digna para conversar conosco. Não temos nada para falar com ela”, resumiu o presidente da AFA, Leonel Monteiro. Há dois dias, a reportagem tenta falar com o prefeito João Henrique, sem retorno.

O povo-de-santo solicitou ao prefeito a exoneração da superintendente, responsável por ordenar a demolição, considerada inconstitucional pelo Ministério Público por não respeitar o local como templo sagrado e os direitos dos indivíduos como cidadãos. Os técnicos destruíram o espaço com marretas e não permitiram a retirada de objetos do interior. A alegação era de que a construção é irregular e que o terreno pertence ao município.

O Conselho de Comunidades Negras (CCN) encaminhou para o prefeito, nesta sexta, um documento reforçando o pedido de exoneração de Kátia Carmelo, a recuperação total do espaço e uma retratação pública pelo ato de violência. “Para uma cidade com 80% de negros, uma secretária com essa atitude constitui um perigo constante”, afirma o presidente do CCN, João Reis.

Para Rosalice do Amor Divino, conhecida como mãe Rosa e sacerdotisa do Oyá Unipó Neto, nada vai recuperar os maiores danos da demolição. Os ibás (representação material do orixá), que foram destruídos durante a demolição, precisam de um ritual para tornar-se objeto sagrado, “não é apenas pegar outro e colocar no lugar”.

Opo Afonjá – O terreiro Ilê Axé Apo Ofonjá, localizado no bairro de São Gonçalo do Retiro, comemora parceria firmada, nesta sexta, com a Secretaria Municipal de Educação (Smec), para formação do Centro Municipal de Arte e Educação, que vai ministrar aulas para crianças carentes de artes e computação. No lançamento do convênio, Mãe Stella de Oxóssi lamentou a demolição do Oyá Unipó Neto, sem colocar a culpa no prefeito. “A prefeitura deve indenizar o terreiro e responsabilizar quem autorizou uma coisa dessa”, disse.

Danile Rebouças, d' A Tarde

Essa Prefeitura se supera a cada dia na incompetência! Com uma infinidade de áreas públicas invadidas por mansões, com áreas de risco desabando por todos os cantos com a chuva, com tanta pobreza saltando aos olhos, com tanto sem-teto precisando de áreas para morar, com as áreas abandonadas do Comércio precisando ser revitalizadas, com o Plano Diretor sendo aprovado para atender aos interesses do segmento imobiliário e liberar de vez o gabarito na Orla, com as barracas de praia poluindo visualmente e sanitariamente a área marítima de Salvador, com as passarelas de pedestres interditadas devido à sua total falta de condições para trânsito...

Enfim, com tanta coisa para fazer, eles conseguem detectar justamente um lugar onde NÃO É para eles mexerem, e mexem, destróem, desrespeitam, barbarizam. É muita incompetência, né?

27/02/2008

VOCAÇÃO

Casas de trabalhadores numa fazenda de pecuária no município de de Tabocas do Brejo Velho, Oeste da Bahia. Fotos de 2004.

Perto das casas, estava sendo construído um poço artesiano. No varal, não existem apenas roupas para secar. Existe também a carne.

Sim, a carne que alimenta a tão bem remunerada mão-de-obra que trabalha nas fazendas, muitas vezes instaladas à margem da lei, com descumprimento dos quesitos básicos do Código Florestal (mas não faz mal, porque logo logo o DEM vai mudar isso no Congresso).

E a água santa que brota do subsolo sem controle, sem pedido de outorga de água, mesmo que se esteja na região do São Francisco. Não importa para o fazendeiro, que se benze todo domingo na igreja e paga todas as propinas em dia.


Sempre sobra para o sujeito que cava a terra, e não para o dono dela. sempre sobra para o que usa a camisa rasgada, e não é porque está na moda. Sempre sobra para o que se cala, e não é porque está está sob efeito de remédios. Esse sujeito de camisa verde não tem o sobrenome Piau, pode apostar.



Bem maior

26.02.2008

O desfalque na verba do Ibama de Goiás é bem maior do que se supunha. Em entrevista coletiva realizada na tarde desta segunda-feira, o superintendente Ary Soares do Santos informou que os desvios somam cerca de 1 milhão de reais. O rombo é bem maior do que os 23 mil gastos por uma servidora em serviços estéticos, como inicialmente foi identificado e divulgado pela imprensa.

Suspeitas

26.02.2008

Segundo o Ibama, as irregularidades foram cometidas pela servidora Marina de Fátima Piau Ferreira ao longo dos últimos oito anos. Além dela, outras dez pessoas e uma empresa estariam envolvidas no suposto esquema de desvio de recursos. Um deles seria o próprio filho da servidora, que teria recebido cerca de 55 mil reais por meio das transferências irregulares. Se confirmada a suspeita, Marina pode ser denunciada por peculato e outros crimes.

Fonte: O Eco


Certo. Eu não duvido. MESMO. Notícia da Folha ainda diz que a tal Marina Piau ficou perplexa com a acusação. Deve ter ficado perplexa mesmo, ao perceber que depois de oito anos descobriram o esquema dela. Que peninha! Vai ter que parar com a roubalheira!

Mas o que eu estou seca para saber é o parentesco dessa Marina com a bandida da Édna Piau. A Édna Piau, aquela que vendia ATPF em Barreiras, atrelada à máfia do carvão. Aquela que autorizava desmatamento até em Unidades de Conservação e compensação de Reserva Legal, se duvidasse, até em área urbana, afinal, os sojicultores da região (como o próprio pai) precisavam prosperar.

Será que o que liga essas duas é apenas o sobrenome e o tino para falcatruas?

17/02/2008

INCOMPATIBILIDADE DE GÊNIOS

A VOZ DO DONO


Emília Motina, a escriturária. 

Os anos estavam se passando e os sonhos de Emília Motina estavam ficando tão velhos quanto as estrelas que usava nos cabelos. Aliás, por causa delas e das tintas no rosto, muitos eram os comentários a respeito da sua sanidade mental. Apesar de ser apenas uma escriturária, não agia como uma.

Desde que era subordinada direta do Dr. Buronel, sempre encontrava com outras pessoas com os olhos inchados, que também iam chorar no banheiro da repartição. Teve uma crise nos rins e foi trabalhar nas Voluntárias Sociais, onde fazia crochê com as velhinhas.

Mas o Partido dos Melhores (PM) havia ganhado as eleições e Mimi havia regressado à repartição para resolver o caso das fábricas de biscoito.

Depois que ela e os investigadores andaram em todas as fábricas e comprovaram todos os crimes, Mimi se alegrou por achar que a vida dela faria algum sentido. Imagine que bom, parar de fazer as fábricas que escravizam crianças funcionarem! Isso seria justiça, pensava ela.

Mas H.R, que tinha décadas de prática de campanha no Partido dos Melhores, estava lá para lembrá-la que justiça era outra coisa.

Justiça é uma palavra que se escreve em caixa alta e em negrito. Que se grita. Que tem DONO. E o Dono era H.R.

Mimi não era dona de nada. Nem dos seus sonhos. Só era dona de sua raiva, cada vez maior.

16/02/2008

A REPARTIÇÃO

HR, o chefe

A voz vigorosa de Hadônio Rocha contrastava com seu aspecto franzino. Entrou decidido na reunião da repartição. Iria fazer justiça. Não iria deixar que as fábricas de biscoito de polvilho trabalhassem só por meio turno. Todas estavam usando mão-de-obra infantil e haviam sido parcialmente interditadas, mas as pessoas têm que trabalhar!

Dr Buronel mesmo já tratou de dar um jeito nisso. Emitiu um documento obrigando aquela fábrica do cunhado da prima a comprar um caderno novo para cada criança que foi mandada de volta para casa. Tirou do trabalho e ainda por cima deu condições de estudo. Foi recebido com homenagens na quadra de esportes, fizeram até um churrasco para ele. E o melhor: o pessoal do bairro não teve que gastar nada, a Biscoitos Lobo pagou tudo. Está todo mundo satisfeito e a empresa já voltou a funcionar. Estão trabalhando em três turnos agora. Tava "assim" de gente na fila para as vagas.

"Eu não posso ser injusto com as outras firmas", disse HR. 

Na reunião falou, com sua voz grave, em tom alto: "é errado uma poder e as outras não poderem. Temos que ser JUSTOS com todas". O erro já foi remediado. Você quer que a nossa repartição seja conhecida por impedir as pessoas de trabalhar?

15/02/2008

DORMINDO NO PONTO

Foto: passarela de pedestres do Shopping Barra, jan 2007


Mulher é atingida por pedra durante assalto

Moradores de Salvador estão assustados com um crime que vem se tornando cada vez mais comum: o assalto nas sinaleiras. Os criminosos agem principalmente em bairros nobres e de classe média e muitas vezes são violentos. Mariana Pimentel foi assaltada quando voltava do trabalho, por volta das 18h30.

Ela conta que vinha pela avenida Antônio Carlos Magalhães e em frente ao Parque da Cidade, uma área nobre de Salvador, foi abordada por um homem que quebrou a janela do carro com uma pedra. 'A pedra veio direto no meu rosto. Tive o lábio fraturado e perdi parte do dente da frente', declara a psicóloga Mariana Pimentel.

De acordo com a Polícia Militar, os casos acontecem, em geral, nos horários de pico, quando o tráfego está congestionado. 'Na ausência do policial, quando ele normalmente atende uma ocorrência, os criminosos atuam, principalmente quando o trânsito pára', conta o comandante de policiamento, major José Izidro.

Na delegacia da Pituba foram registrados, em 2006, 85 casos na região do Parque da Cidade. No ano passado, foram 97. Em janeiro deste ano, já foram registrados oito assaltos na mesma área. De acordo com o delegado da Pituba, Roberto Souza, 99% das vítimas dos assaltos em sinaleiras são mulheres.

Fonte: BA TV , 15/02/2008

No site só não passa a BRILHANTE declaração do PM comandante sei lá do quê, que, ao ser perguntado pela repórter se a câmera de segurança não estava funcionando, disse: Não, ela está funcionando sim, só que foi retirada do local por causa do Carnaval.

Mas que beleza, minha gente! O bandido não precisa nem fazer seuplano escondido; a própria polícia avisa na televisão o jeito mais fácil de roubar: nos lugares onde não tem câmera!!! Afinal, Salvador precisa manter a imagem de capital internacional da folia, receber gringos e paulistas brancos para desfilarem nos trios de lixo-music e excluir a maior população negra fora da África (que não coincidentemente, também é pobre) da festa.

Não faz mal que depois de mil anos fazendo a fama, esse aglomerado de gente que insistem em chamar de cidade não tenha estrutura sequer para as câmaras de vigilância da tal da "maior festa popular do mundo". Cara, como alguém vai fazer a "maior festa popular do mundo" se tem que tirar câmera de um bairro para colocar em outro?

E não estamos falando do subúrbio. Porque esse, se não tem nem esgoto, o que dirá câmera de segurança. Estamos falando de uma área mais requintada da cidade, mas nem por isso menos importante, já que lá tem um intenso tráfego e como a matéria mesmo diz, são quase 100 assaltos por ano. Isso num sinal só. Em cima de quem? Da mulherada que tá voltando do trabalho. Conheço uma delas, que levou uma pedrada na mão e teve que fazer cirurugia, ficou em pânico após o incidente, teve que mudar o percurso etc.

Mas os chefes preferem tirar as câmeras. Detalhe que eu achava que o Carnaval já tinha acabado, então mesmo que a câmeras não devessem nunca ter saído de lá, elas já deveriam ter voltado. E vem Jacquinho hoje na reabertura dos trabalhos da Assembléia Legislativa falar que Segurança Pública não é varinha de condão. Competência também não é. Ou se tem, ou não. No caso, já deu para ver que não se tem. Agora, camarote e desfile na Avenida e tem, né?

12/02/2008

NEGÓCIOS

Não gosto mais de falar o nome dele. Cheio de fogos e sombras. Pensar que há dez, doze anos atrás, ele me entrevistou para um emprego e eu torcia para que desse certo... Ecaaaaaaaaa!

O governo prepara mudanças nas regras para quem derrubou ilegalmente

a Amazônia. Pacote em estudo nos Ministérios da Agricultura e do Meio
Ambiente prevê uma espécie de anistia para desmatadores, que poderão manter
devastada metade de suas fazendas, voltar à legalidade e ter direito ao
crédito agrícola oficial - desde que aceitem recuperar a floresta na outra
metade das terras. Com isso, serão regularizados 220 mil km2 de Amazônia
desmatados ilegalmente. Para quem não derrubou a mata, continua a valer a
obrigatoriedade de preservar 80% da propriedade. "A área já está desmatada.
Permitir que a recuperação nas áreas de uso intensivo seja de 50% é uma forma
de diminuir a pressão por novos desmatamentos", disse o
secretário-executivo do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco -

OESP, 10/2, Vida, p.A20.
Fonte: ISA

É a mesma coisa de sempre. Começa devagar. Uma CPMF aqui, uma CPI precisando dos votos aliados acolá... Uma Dilminha mão-de-ferro, um PMDB que chega com uma lista de cargos, um tetradáctilo que nunca sabe de nada e se reelege com o bolsa-esmola... Enfim, assim vão se forjando os ingredientes perfeitos para, com a permissão da palavra, a FODELANÇA total em cima de quem, meus amigos, quem, quem? Do meio ambiente, claro!!!

E quem mais poderia pagar o pato, a galinha, o marreco, paca, tatu (cotia não) disso tudo? Quem mais poderia, além de todos os que já fazem filas e morrem nos corredores dos hospitais, nos morros, no sertão, nas enchentes, ou os mortos viventes - os que se espremem nas filas, nos ônibus, sob chuva, sob sol, longe dos carpetes e do ar condicionado?

Claro, o meio ambiente, essa iminência parda para quem sobra a conta suja, para onde vai a gorjeta, a caixinha das negociatas do Congresso, Senado, Câmaras e que o Executivo, submissa e vergonhosamente, executa.

Dona Marina, Seu Capobianco... Belo passado remoto, amargo passado recente. Vergonhoso presente. Futuro? Qual?

06/02/2008

GARAPA

Joy Division/New Order: nada é mera coincidência, de Helena Uehara.
Já tinha lido a opinião da Katy sobre o livro e nem fiquei com vontade de ler, mas ao vê-lo por R$ 5,00 (o preço oficial é R$ 19,90), não resisti e acabei comprando. Só que eu tenho 39 anos, man, trinta e nove. São 25 anos de rock. "O que é punk", de Antonio Bivar, da famigerada Coleção Primeiros Passos (Ed. Brasiliense), eu li quando tinha uns dezesseis, e mesmo assim mais por aptidão, amor à leitura e informação do que necessariamente por não saber do que se tratava o assunto.

É claro que leitura é sempre leitura, sempre há um detalhe aqui, uma frase acolá. Mas confesso, não tive a mínima paciência para o verdinho aí de cima. O livro fica expicando quem é Andy Warholl ("famoso artista plástico dos Estados Unidos que pertencia ao movimento Pop Art"), cita trecho de uma crítica de Lester Bangs, da Rolling Stone, para definir Iggy Pop ("que tipo de pessoa busca, em sua terceira e mais crucial tentaiva, se dar bem no grande circo do rock'n'roll com um álbum intitulado 'The Idiot'?"), e ainda por cima depois da tradução de Love Will Tears Us Apart, a autora nos brinda com a pérola:

Quando se está apaixonado, a tendência natural é querer estar junto à pessoa amada. No entanto, o amor é aquilo que os separa. De novo e de novo. Quando existe o ideal da vida em comum, caminha-se lado a lado na mesma direção. Mas o que resta são estradas diferentes. Quando se ama, as dificuldades podem ser superadas uma a uma. No entando, só há solidão há dois. O que fica é o conformismo, a incomunicabilidade, o ressentimento. Um paradoxo de emoções.

Eu não preciso que ninguém venha tentar me explicar as letras do Joy Division nem de banda nenhuma, que coisa! É simplesmente para ouvir, para sentir, para calar, para chorar, parar rir, para fazer o que quiser, mas não para escrever um texto que parece mais um livro de auto-ajuda! O que que é isso?

Mas ela não pára, continua interpretando as letras de "Insight", "Interzone", "Atmosphere", "Passover" e "She's Lost Control". A essas alturas, eu já tinha parado de ler o livro faz tempo.

CELEBRATION

Uma das inúmeras lindas e felizes crianças fantasiadas no Bloco (as fotos do celular, que já eram ruins, agora "deram" para sair pequeninhas)
No último dia de Carnaval, fui ao Bagunça meu Coreto, bloco tranquilinho que saiu lá da Praça São Salvador, perto do Largo do Machado. Depois de andar pelo caminho errado, apesar de estar com o mapa na mão (pois eu acho bonito o nome das ruas - rua das Laranjeiras - e cismei que era por lá), encontrei com a Marilene e seus amigos e ficamos lá na concentração esperando os músicos saírem.

Novamente, aquele clima gostoso com a presença bem despretenciosa de pessoas simplesmente a fim de se divertir. As ruas amplamente arborizadas e os prédios antigos, construídos lá pelos anos 40, ajudavam a compor um cenário muitíssimo agradável. Fantasias hilárias, muitas crianças, todo mundo respeitando o espaço comum e o alheio.

Andar acompanhando o Bloco requer que se esteja imbuído do espírito carnavalesco, coisa que definitivamente, não é a minha cara. Gosto de olhar como curiosidade, gosto de ver a alegria das pessoas e como aqui no Rio, ao menos nos Blocos, elas se divertem de maneira infinitamente menos excludente e violenta que em Salvador, por exemplo.

Agora, ficar cantando as músicas sem quase nem ouví-las não é coisa que me anime muito. É diferente de estar, como no "Flor Serena", assistindo ao espetáculo de uma orquestra, e interagindo como platéia. É ouvir um "paticum" lá na frente e ficar andando devagarinho cantando uns pedaços de música que eu, no caso, nem conhecia direito.

Para quem cresceu fazendo isso, espera o ano inteiro para o bloco passar, curte, sei lá, deve ser como ir a um show de rock, deve ser legal. Se bem que nem para show de rock eu tenho paciência, aliás é uma das coisas que tenho menos paciência hoje em dia. Enfim, cada um que vá onde bem lhe convier, mas eu já estava ficando agoniada lá atrás daquele bloco, pensava: "será que não dá para andarem um pouquinho mais rápido?".

Ao mesmo tempo, tinha noção da inconveniência do meu pensamento, era como se fosse um executivo engravatado no meio de uma praia - nada a ver, relaxe, rapaz. O pensamento voava e eu deixava me envolver pela magia das cores, dos sorrisos, da gentileza das pessoas, da capacidade de festejar.

Depois, eu lembrava dos meus tempos de punk (e quem disse que eles passaram?) e que eu achava Carnaval uma alienação, uma perda de tempo, quatro dias para esquecer trezentos e sessenta e um, energia gasta em festa quando podia estar se fazendo uma revolução etc etc etc. Porém, apesar da lembrança, naquela hora, isso tudo estava muito tênue para mim. Não achava verdadeiramente aquelas pessoas alienadas.

Ao contrário do que diziam os meus ex-chefes, até que eu não sou tão radical assim, né? Se fosse, não teria mudado nada nesses 25 anos e estaria lá com a bandeira preta do anarquismo, protestando por estarem em festa enquanto (e apesar do) planeta estar morrendo de fome, sede e de vergonha.

No entanto, que se dance. Que se cante, que se celebre! A comemoração é legítima, assim como o protesto. O que interessa é o modo como se faz.