28/08/2008

CONCORRÊNCIA

Menino a cavalo, no município de Jaborandi (BA), 2003.

Táááá, mas o que eu queria dizer não era isso.... É que quando o cara foi sair para a inspeção, não tinha carro disponível. Hahaha, não tinha carro. Só oito. Mas os oito carros, e os oito motoristas que estavam lá, disponíveis, não podiam sair. É que são os carros e os motoristas dos Diretores.

Não faz mal que de fato só quem tenha direito a carro seja o diretor máximo da instituição, ou seja, 01 (um) carro e 01 (um) motorista. Nem que somando as outras diretorias, não se chegue ao número de sete. É que tem que contar chefe de gabinete, secretária, sei lá mais quem....

Agora, para fazer a inspeção, não tem carro, né? Sei...

A resposta para isso? Aquele ar de democratas e amigos dos peões: "ah, mas porque vc não me falou na hora, a gente providenciava um carro". As coisas arrumadas no jeitinho. Arrisca de vc achar que eles estão te fazendo um favor.

CARIMBADOR

Travessia do Barra/Xique-xique, 2003

O fato de eu estar total regimex, maquiagem, drenagem linfática, moda, roupas, não significa que emburreci. Estou cuidando de mim. Talvez até como um modo de pensar noutras coisas, já que gastar meus privilegiados neurônios com os absurdos que ocorrem na esfera maior, nacional, e na que me ronda, a repartição, me esgota muito.

Isso não quer dizer que eu fique passiva nem que eu seja omissa. Apenas estou numa fase em que ando preferindo não me importar. Não perder o sono. Não me irritar, não adquirir mais rugas, não entrar na disputa de poder. Não ter que ter razão. Não ter que provar minha inteligência, não ter que fazer nada além do que já faço. Continuar fazendo, o meu trabalho (e só ele), com a competência que sei que tenho. Quem quiser, veja.

Parafraseando a Tita, me esqueçam. Acho que já andam me esquecendo. É melhor. Não vou em reunião falar nada. Não preciso. Ontem, rolou uma denúncia para um colega de sala ir averiguar. Não era assim uma coisa suuuuper urgente, até mesmo porque as coisas andam tão caóticas que não se tem mais noção do que é prioridade ou não, tipo "vai lá ver o que está rolando". Dona Fulana sente um cheiro desagradável de não sei quê, que pode ser um produto químico.

Pode ser a capa plástica do fio de cobre que a galera rouba e queima para desencapar. Pode ser milhões de coisas. Quando a denúncia chega, o cheiro já passou. Tem a ver com a direção do vento na hora. Aí o técnico vai fazer o quê, molhar o dedo e colocar no vento? Ou usar bola de cristal para saber o que aconteceu?

Claro que um órgão público precisa dar resposta à Dona Fulana, como cidadã. Mas o meu questionamento é: se um Órgão Estadual de Meio Ambiente, com a estrutura que tem, não pode se ocupar de ações mais robustas, como apertar as empresas que estão de fato contribuindo pesadamente para a poluição da Bahia de Todos os Santos, por exemplo. Aquelas, cujo nome a gente já está cansado de saber.

E deixar o cheiro da Dona Fulana para a Prefeitura resolver. E se ocupar de coisas maiores, como o monitoramento dos resíduos, emissões e efluentes, numa escala macro, incluindo inclusive as correntes marinhas e atmosféricas que passam na casa de Dona Fulana, Cicrana e Beltrana.

Não. Fica o Técnico sempre fazendo o varejo. O faz-tudo. Volta, diz no Relatório que nada foi possível de se constatar, arquiva-se. O trabalho vira um cartório.

24/08/2008

TRANSFORMAR


Esses dias eu estava indo para o trabalho (de carona) e a partir de um determinado ponto, havia sempre um ônibus na nossa frente. Nele, quatro garotas que estavam indo para a escola se divertiam no banco traseiro, olhando o percurso, brincando, conversando.

Graciosas, me faziam lembrar do quanto as coisas chatas podem ser divertidas e que a gente tem que se esforçar para isso. Quando perceberam que eu ia fotografá-las, fizeram mais gracinhas ainda. Lindas!

07/08/2008

TEIAS


Mimi se sentia como num casamento de décadas. Não gostava mais daquele trabalho. Não acreditava em mais nada daquilo. O problema é que Mimi nunca foi morna. Só vive sob temperaturas extremas. Se irrita com tanta icompetência e tanta desorganização.

As chefes de Mimi também não estavam satisfeitas em estarem lá, porém cobravam satisfação de todos.

O Hadônio Rocha, coitado, estava a cada dia falando mais alto. Técnicas aprendidas em anos de campanha para o Partido dos Melhores. Ele achava que falando alto, suas palavras talvez adquirissem sentido. Alguém esqueceu de avisá-lo que algumas pessoas estavam fora do seu raio de convencimento.

Mimi estava, definitivamente, fora. Como num casamento: quando as coisas estão ruins, o melhor é a separação.

Queria se separar de todas aquelas pessoas com quem trabalhava. Não dos colegas de trabalho que a abraçavam nos corredores. Mas dos que ditam as normas, os que fazem vista grossa para não serem tirados o poder, enfim: dos que estão lá para que o Partido dos Melhores permaneça.

04/08/2008

DESSEMELHANTE

Os dois, com a camiseta do Grupo Escoteiro, no avião. Lindos, na praia do Farol da Barra Luana e Helena no Farol da Barra Os curitibanos no Farol Vista de cima do Elevador Lacerda. Lá embaixo, o Mercado Modelo.

A titia e os santinhosHelena e suas trançasSuuuper baianosUm batuque mirim Heleninha vendo a Didá passar Eu e os guris no Terreiro de Jesus Dois que não se desgrudam, de grude no Pelô

Henrique jogando capoeira no Mercado ModeloO Elevador Lacerda, agora visto de baixo

Os dois irmãos na Conceição da Barra Os dois na entrada do Solar do Unhão Lelê elegantésima sob a copa de uma árvore Eu e os meninos, numa escada do Solar do Unhão

Bem, eu só faço certos passeios nessa cidade quando vêm amigos meus de fora. Fui com a Luana, Helena e Henrique ao Pelourinho, Mercado Modelo e Solar do Unhão.

A miséria assola a cidade. Tudo decadente. O Pelourinho é bem menos pior de dia que de noite, dá até para passear e sentir um pouco a beleza do lugar. Se vc não quer passar vergonha, não ande no Pelourinho comigo. Porque vergonha, vergonha mesmo, é vc não poder andar em paz pelas ruas, que já vem uma pessoa querer amarrar uma fitinha do Bonfim no pulso.

Logo para cima de moá, camarada? Não vou aguento papinho de "Sorria, vc está na Bahia". Tirando isso, é fantástico poder encontrar com batuques a qualquer hora. Dá até para esquecer que esses mesmos batuques foram o pretexto utilizado para essa massificação cultural que assola a velha Bahia.

O Pelourinho é realmente bonito. Mais bonito nas fotos, que não levam a aura demente dos seus frequentadores. Não revelam o turismo sexual, a prostituição, as drogas, o vício, a pobreza, o conformismo, o roubo, a violência. Revelam apenas pessoas felizes, sorrindo ao lado dos monumentos históricos. Então, que assim seja.

Na Sorveteria Cubana, disputamos espaço com os turistas de excursão. Não entendo como alguém pode fazer um turismo desses, comandado por uma pessoa que usa apito. Hora para chegar, hora para sair. E caros. Os caras têm a manha de cobrar trintão por cabeça para quem está fora dos pacotes andar num buzão. De dois andares, mas buzão, com hora para subir, hora para descer.

Continuando o passeio, descemos o Lacerda e fomos ao Mercado Modelo. Vontade de comprar mil toalhas de mesa coloridas, mas graças a Deus eu estava sem dinheiro. De lá, a pé para o Solar do Unhão - que abriga o Museu de Arte Moderna da Bahia.

Aí a gente entende porque a Bahia é como é. É linda, mas não funciona. Tipo um cara com jeito de gostosão, mas brocha. O MAM brochou. Fui mostrar uma boa vista do pôr-do-sol para as crianças, mas não pudemos passar uma cordinha com uns cones. Um segurança com uma camiseta escrito "Pitta" nos impediu. Informou que haveria um show a partir das 19h. Eram cinco da tarde, e não adiantou eu falar que não tinha nenhum interesse em ficar lá para o show (que aliás devia ser uma bosta). O imbecil achou que eu ia, com aquelas duas crianças, ficar mofando lá por duas horas? Que era golpe?

Parabéns ao Governo Jacques Wagner e ao grande Secretário Márcio Meirelles que conseguiram privatizar um dos poucos espaços agradáveis da cidade. Mostrar o Parque das Esculturas para eles? Não pode, porque estava fechado. Mostrar a escada de madeira projetada por Lina Bo Bardi? Tb não pode, porque está fechado.

Oxi, mas o MAM não tinha ficado fechado em julho de 2007 para reformas? Estaria eu fazendo confusão? Nãããõ, meus amigos. Sorriam. E continuem votando nos moderninhos, nos engajados.

03/08/2008

QUARENTINHA


Meus monstros estão ficando todos coloridos e divertidos.

28/07/2008

MAL GASTO


Fotos jogo rápido: Fábio Mesquita, estagiário do IMA.

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No intuito de ajudar o Instituto de Mamíferos Aquáticos no trabalho de reabilitação dos pingüins que apareceram no Litoral da Bahia, estamos repassando essa lista com os materiais que estão sendo utilizados para que se façam doações.
1.. Seringa de 20 ml
2.. Jornal ( sem cheiro de naftalina ou mofo)
3.. Toalha usada
4.. Sardinha inteira e com vísceras
5.. Cloro
6.. Clorixidina para limpeza dos pingüins.
7.. Luvas de procedimento
8.. Gaze
9.. Álcool iodado
10.. Papel Toalha
11.. Detergente de pia neutro
12.. Medicamento Humano: - Emulsão Scott e Peptosil
13.. Medicamento Veterinário: - Alantol, Hemolitan, Epitezan pomada, Enterex
14.. Sonda uretra 20, 18 ou 16
15.. Avental descartável


Eu não dôo. Os pingüins, vejam só, dependem da boa vontade da população para sobreviver. O Estado, paquiderme mofado, não faz nada. Transfere a responsabilidade para os incautos.

Para gastar o MEU e o SEU dinheiro com esterilização de cães e gatos, eles são rápidos. Não que isso não tenha sua importância, mas é caso de saúde pública, e não meio ambiente. Outra coisa que eles sabem é fazer projetos nas cidades onde são candidatos. E cancelar as multas emitidas (não, para isso não tem link). E investigar um evento só para dar resposta ao eleitorado e oportunidade de coleta de dados para um bambambam. E depois não saber o que fazer com o equipamento adquirido.

Além do meu voto, querem as minhas doações. Mas... dar sardinha para os pinguins, ninguém quer. Oh, tolinhos, ia render um monte de votos!

24/07/2008

AVE!


O pinguim não está com os olhos vermelhos, mas está exausto. Lutando para sobreviver. Algo saiu errado nos seus planos. Desvio de rotas. Nada a ver com livre arbítrio.

Chegou na praia errada. Para ele, não foi uma Boa Viagem, embora tenha chegado na localidade com esse nome. "Que porra eu estou fazendo aqui", ele deve ter pensado. Ou será que ficou aliviado por, finalmente, ter chegado em solo firme, depois de nadar, errante?

O resultado da estupidez humana recai sobre eles. Recai sobre as correntes marítimas, recai sobre a atmosfera, recai sobre o clima.

A ele, só restou uma caixa de papelão no IMA (Instituto de Meio Ambiente, ex-CRA), após ser recolhido por moradores das cercanias. De lá, ele foi para outro IMA (Instituto de Mamíferos Aquáticos), mesmo sendo uma ave.

Ave doente, ave debilitada, ave que comove. Ave que faz cocô mole, ave que tem cheiro de mar. Ave que está sendo vendida. Ave que é comprada, ave que virou moeda de troca entre os que também sofrem com a estupidez humana. Mas nem por isso deixam de exercê-la.

A estupidez que os permite comer as aves que aparecem no mar. A mesma estupidez, diriam alguns, que faz com que a gente compre aves no supermercado. A estupidez dos que ficarão doentes ao comer as aves. A minha estupidez ao pagar o imposto que tratará da saúde (?) dos comedores de aves silvestres

A grande estupidez da capital baiana ao estar tão despreparada para receber os "hermanos" avícolas.

15/07/2008

MEMÓRIA



















Cartaz/inscrição em um muro de um colégio público perto de casa.

E a minha guerra, quem esquece?

01/07/2008

SOIS REI



Minc anuncia acordo com o setor madeireiro
O governo fechou ontem o primeiro acordo com o setor madeireiro para frear
a exportação de toras cortadas ilegalmente na Amazônia. O ministro do Meio
Ambiente, Carlos Minc, e o diretor da Associação das Indústrias
Exportadoras de Madeira do Pará (Aimex), Justiniano Neto, assinarão o
compromisso no dia 18, em Belém. Os exportadores se comprometeram a não
comprar madeira retirada de áreas devastadas ilegalmente. Em contrapartida,
o governo prometeu acelerar a regularização ambiental das madeireiras e
editar uma instrução técnica com normas para as derrubadas na Amazônia.
Minc prometeu dobrar as metas de concessão de florestas para uso
sustentável
-

O Globo, 26/6, O País, p.4.
Fonte: ISA

Pelamordedeus, alguém o avise que isso só vai funcionar em manchete de jornal. Será que a inteligência estelar do ministro (só não é maior que sua vaidade) previu que há a necessidade de implementação de mecanismos de monitoramento de entrada e saída do estoque de cada uma desses madeireiras?

Ah, mas para quê isso, se o importante é agilizar as licenças e dobrar as concessões? 

AMIGO DO DONO




Chefe de gabinete diz que para Lula ambiente é importante, mas não decisivo


Em entrevista, Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente da República, diz que "a cabeça de Lula é a do peão do ABC. O núcleo da preocupação do presidente é com emprego e salário. Vejo isso todo dia. Assim, se o banqueiro tiver lucro, tudo bem". Ele diz: 'Eu prefiro que esses caras tenham lucro do que fazer um Proer para eles depois'. Mesmo em relação à reforma agrária, eu não sinto que ele se empenhe tanto, quanto por salário e emprego. Nem quanto ao ambiente. Vou ser bem claro aqui: ele acha importante a preservação, mas, entre um cerradinho e a soja, ele é soja. O ambiente é uma questão importante, mas não é decisiva. O que é decisivo é a economia. Gilberto Carvalho afirma também que, para assuntos considerados importantes o governo conta com a mão forte da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, para acelerar os processos, como no caso da "guerra" com a Ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, para que houvesse o leilão das hidrelétricas do Rio Madeira - Veja, 2/7, p.11 a 15.

Fonte: ISA


Meu humor já está uma beleza. Esses caras que não brinquem.

29/06/2008

NÃO ESTOU LOUCO, MAS TB NÃO ESTOU SÃO


Foi divertido ver o Hank velho. Nunca tinha lido. Tive companhia durante o tempo em que fiquei na semana retrasada esperando o trem.

E como ele consegue ser uma boa companhia!

Na velhice, continuou sendo um cara que não suportava as pessoas. "O melhor leitor e a melhor pessoa são os que me recompensam com sua ausência". Me deu vontade de fazer panfletos com essa frase e distribuir por aí, na entrada do trabalho, na fila do banco, nos bares cheios de medíocres achando que são felizes.... Escreve: "eu não me importo, a não ser que tenha que viver com eles".

Já no fim do livro, fala sobre o mesmo assunto:
"o problema é que eu tenho que me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir minha barriga, tenho que continuar a me relacionar".

Impossível não rir com a ranzinzice dele: "gente demais é cuidadosa demais. Estudam, ensinam e fracassam. A convenção apaga sua chama". Ou: "não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso".

Assume: "não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar idéias - ou almas. Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Noutra passagem: "existem muitas coisas para se escrever, mas não para se falar". E finaliza: "deve ser bem estranho viver comigo. É estranho para mim".

Se reconhece como estranho desde cedo:
"sempre estive por fora, nunca me adaptei. Descobri isso nos pátios das escolas. E outra coisa que aprendi foi que eu aprendia muito devagar. Os outros caras sabiam de tudo; eu não sabia merda nenhuma".

Ele ia ao hipódramo todo dia. "Minha maldita vida pendurada no gancho", dizia. "A multidão do hipódramo é o mundo em tamanho menor, a vida lutando contra a morte e perdendo. No final, ninguém ganha, buscamos apenas uma prorrogação, um momento sem ser ofuscado". Noutras vezes: "me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há uma câmera".

Ele sabia que se ficasse "longe do hipódramo, teria tempo de sobra". Mas "tem sempre alguma coisa atrapalhando minha chegada a mim mesmo".

Numa passagem descreve a lentidão com que as pessoas saem do hipódramo, caminhando para o estacionamento: "somos lesmas caminhando sobre uma folha". Essa letargia é notada por ele tb adiante: "(...) já levei um caderno, bem, escreveria alguma coisa entre os páreos. Impossível. O ar é denso e pesado, somos todos membros voluntários de um campo de concentração".

Ficava de cara com um sujeito que conseguia nunca ganhar nas apostas: "de certa forma ele é um gênio, porque ele nunca escolhe um vencedor".

Sobre as previsões que se oferecem para as apostas, ele ataca: "cada vez que você paga alguém para dizer a você o que deve fazer, você é um perdedor. E isto inclui seu psiquiatra, seu psicólogo, seu operador de bolsa de valores, seu professor e seu etc (...) Não há nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente".

Ainda na linha dos ensinamentos, escreve: "acho que tirar minha bunda daqui me força a olhar para a Humanidade, e quando você olha para a Humanidade, você TEM que reagir". Ou então: "não podemos nos examinar de perto demais ou vamos parar de viver, parar de fazer tudo. Como os sábios que ficavam sentados em uma pedra e não se mexiam. Não sei se isso é sábio, também".

Ele se preocupa um pouco com a futilidade de suas preocupações, como cortar as unhas dos pés. "Sim, eu sei que tem pessoas morrendo de câncer, que tem pessoas dormindo em caixas de papelão e eu fico falando em cortar as minhas unhas. Ainda assim, provavelmente estou mais perto da realidade do que um panaca que assiste a 162 jogos de baseball por ano. O fato de eu estar vivo e com 71 anos falando sem parar sobre minhas unhas dos pés é milagre o suficiente para mim".

Entretanto, zombava constantemente da morte. "Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiro-a do bolso e falo com ela: 'Oi gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto'." Sobre a vida, constata: "a vida me fode, não os damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda".

Hahaha, o velho é genial. Tenho vontade de fazer out-doors com as frases dele.


"O que é terrível"
- escreve ele - "não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte". E vai descrevendo o estilo de vida das pessoas. Conclui que "a maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer."

Ele gostava muito de música clássica e não gostava de rock. Ia a alguns show mais por causa de sua última mulher, Linda. Ganhavam ingressos, eram tratados como VIPs. Diz que talvez as letras de um show onde foram
"provavelmente falavam de Causas, Decências, Amor achado e perdido etc. As pessoas precisam daquilo - anti-sistema, anti-pais, anti-alguma coisa. Mas uma banda milionária e bem sucedida como aquela, independentemente do que disser, AGORA FAZIA PARTE DO SISTEMA".

Quando a banda dedicou o show, para 25 mil pessoas, ao casal, ele pensou: "será que estou sendo sugado? 72 anos brigando a briga certa para ser sugado?".

Explica porque nunca escreveu nada panfletário: "eu não buscava uma justiça ou lógica".
A acidez dele o coloca num time diferente dos que têm uma causa: "é como as pessoas que protestam contra a guerra, precisam de uma guerra para crescer (...) E quando não há uma guerra, elas não sabem o que fazer".

No livro, está fascinado com o advento do computador. Na agilidade que o uso do PC conferiu à sua produção. Afinal, diz ele, "um escritor não deve nada, exceto ao seu texto". Graceja da resposta dos editores que acham que ele devia voltar a escrever com a máquina, pois ele diz que se "posso escrever o dobro e a qualidade permanece a mesma, então prefiro o computador. Escrever é quando vôo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate. Esses caras acham que você tem que estar crucificado e sangrando para ter alma. Querem que você esteja meio louco, babando na camisa. Já estou cheio da cruz, meu tanque também está cheio disso. Se puder ficar fora da cruz, ainda terei bastante combustível. Demais. Deixe que eles subam na cruz, eu os congratulo. Mas a dor não cria a obra, um escritor, sim".

Ainda sobre os computadores, elocubra: "imagino qual será o próximo passo depois do computador. Provavelmente, você só apertará os dedos nas têmporas e sairá esse monte da palavras perfeitas".

Sobre a literatura que se produz, ele critica: "depois que você lê uma certa quantidade de literatura decente, simplesmente não há mais nada. Nós mesmos temos que escrever". E prossegue: "hoje, minha principal influência sou eu mesmo".

Então, imagina como seria o inferno: "todos os poetas estarão lá, lendo seus trabalhos e eu vou ter que ouvir. Serei afogado por sua elegante vaidade, por sua transbordante auto-estima. Se houver um inferno, este será o meu: um poeta atrás do outro lendo sem parar....".

Comentando um dia após o outro: "música ruim na rádio, mas não se pode esperar um dia 100 por cento. Se você conseguir um 51, você já ganhou. Hoje foi um 97". Ele acha que as melhores horas do dia são as nas quais está escrevendo. "Mas você tem que ter horas imperfeitas para ter as perfeitas. Você tem que matar dez horas para que duas vivam. O que você tem que cuidar é para não matar TODAS as horas, TODOS os anos".

Sobre essa maneira intensa de viver, e o reflexo disso na sua obra, analisa: "precisava me colocar em situações perigosas. Com os homens. Com as mulheres. Com os carros. Com as apostas. Com a fome. Com qualquer coisa. Alimentava a palavra. Tive décadas diss. Agora, mudou. O que preciso agora é mais sutil, mais invisível. É um sentimento no ar. Palavras ditas, palavras ouvidas. Coisas vistas. Ainda preciso de um trago. Mas agora estou em nuances e sombras. Sou alimentado com palavras, por coisas que mal me dou conta. Isso é bom. Escrevo uma merda diferente agora. Alguns já reparam".

Em 91, 92, ele já estava com sua vida ganha. 71 anos de idade, tinha virado cool e estava, realmente, cagando para isso. Às vezes comentava algo sobre os acontecimentos do dia, como fazer a revisão no sistema de alarmes da sua casa. Depois se perguntava se ele era o mesmo cara que dormia em latas de lixo. Certa ocasião, se sentindo bem disposto, comentou: "(...) me sinto como uma usina elétrica, dez anos mais jovem. Diabos, é de morrer de rir - 10 anos mais moço me faz ter 61, vocês acham isso legal? Me dexem chorar, me deixem chorar!".

Mas não deixava para trás uma indignação pelo seu reconhecimento ter vindo tardiamente. "Porque tenho que chegar aos 51 para poder pagar o aluguel com meus livros? Quero dizer, se estou certo e escrevo igual, porque demorou tanto? Tive que esperar que o mundo me entendesse? E, se ele me entende, como estou agora? Mal, é isso".

Hahaha, mas que bosta!!!! Sempre me senti assim em relação às coisas, principalmente ao meu trabalho. Ao invés de ficar alegre quando as pessoas reconheciam que fizeram cagadas e que eu tinha razão, eu penso: mas meu Deus, porque a anta demorou tanto para perceber isso? E, se estão achando que eu sou lúcida (odeio quando falam: nossa, Tatiana, mas como vc está lúcida! E antes eu babava, delirando, por acaso?), será que não é sinal que está tudo uma merda mesmo?

Por outro lado, tem o alívio em ser incógnita, ao mergulhar na piscina da sua casa: "o mundo não sabe onde estou".

Teve uma hora em que me lembrei da Tita: "na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu".

A impossibilidade de fazer bem a quem ama (ama?), tão bem explícita no filme "Crônicas de um Amor Louco", tb está presente aqui: "ouvi falar que encontraram minha primeira mulher morta. Pobre garota (...) Ela se divorciou de mim e devia ter feito isso. Não fui bom ou generoso o suficiente para salvá-la". Embora seja mórbido, isso não me é estranho.

Sobre a forma do livro, o fato dele ser um diário, ele não poupa nem a si mesmo: "acho que a pessoas que têm cadernos e anotam seus pensamentos são umas cretinas. Só estou fazendo isso porque alguém sugeriu que eu o fizesse. Como você vê, não sou nem mesmo um cretino original".

É, Hank, tu é um cretino sensacional!

23/06/2008

ACENDE A FOGUEIRA DO MEU CORAÇÃO

Anna and me

Ontem eu fui ao show do Alceu Valença no São João do Pelourinho. Ainda bem que a Anna tb queria ir, porque eu já estava tão entediada de ficar trancada em casa há dias que pensei até em ir sozinha.

Realmente, é outro mundo. É impresisonante como aqui em Salvador as camadas sociais não se misturam. Estávamos lá, nós, no meio de um mundo que eu, pelo menos, desconheço. É o mundo real. O mundo de pessoas de bem, sérias, honestas, trabalhadoras, humildes. Que dançavam forrózinho chamegado com seus maridos, seus namorados, seus amores. Que cantavam junto com Alceu todas as músicas das quais eu sei a letra de trás para frente e de frente para trás.

Mas são pessoas com as quais eu não convivo. Todas estavam enfeitadas, bonitas para a festa. Com suas roupas compradas em lojas populares, e não por isso menos bonitas que o meu vestido caro e minhas pulseiras novas.

Fiquei, assim, comparando no que seria a felicidade. Eu estava lá feliz por estar no meio daquela gente. Por eu estar assistindo um show do Alceu doze, quinze anos depois do show dele que vi lá em Antonina.

Sim, aquele show em que fui sozinha passar a noite no Festival de Inverno. Aquele show onde não encontrei nenhum dos quinze mil amigos que eu esperava encontrar (ora, alguém não havia dito que a vida era uma festa?) e acabei dormindo num alojamento de estudantes que eu nem conhecia, coberta apenas com meu casaco, depois de ter sido umas das únicas que ficou vendo o show sem guarda-chuva.

Agora eu estava num show do mesmo cara, e estava simplesmente sendo bom. As coisas não precisam ser espetaculares - expectativa gera sofrimento. Podem simplesmente ser.

E assim, fiquei satisfeita por estar com uma amiga querida, numa noite tranquila.

O meu telefone foi roubado, mas é porque dei mole - fiquei cuidando demais da minha bolsa, mas esqueci que ela tinha uma bolsinha externa, onde eu, espertamente, deixei o celular.

Ah, e no telão, em vez do Alceu, algumas vezes aparecia o Governador dando uma entrevista que a gente - graças a Deus - não ouvia. Mas eu via Alceu lá no palco, pequeninho, olhava pro telão para ver se via algum detalhe.... E tinha o desprazer de ver JW se aproveitando da festa para incutir, nada sutilmente, sua imagem na mente dos eleitores.

21/06/2008

VIZINHANÇA

Ontem, encontrei um novo colorido na imensa pedra da Rua Oswaldo Cruz: flores compostas por um mosaico de formas que "imitam" pedaços de azulejo

As flores foram pintadas bem ao lado das obras do Bel Borba. Dá para notar o estado DEPLORÁVEL da calçada, néam? Quando chove, fica intransitável. Qdo tá seco, não é muito diferente.

Formas que remetem às pinturas ruprestres

Vai um fossilzinho aí?

Tá de bodeAlongando
Caçador - coletorBambuzal em cima da pedra
Na outra quadra, mais um mosaico, tb do Bel Borba

Um buraco no muro vira expressão facial

10/06/2008

SOBREVIVENDO

Arredores de casa: a pracinha

A quitanda

Um muro

Outro muro


"Dia de pedra
sol de pedrasilêncio de pedraMorreram os cavalos na montanhamorreram as árvores na caltu não morreste
(...)"
(Ritsos, de Notas à margem do tempo [Simeióseis stà Perithória to Xrônou], 1938 - 1941. Tradução: José Paulo Paes)


Depois de 3 dias, hoje saí às ruas. Não devo estar tão triste, porque olhei o céu e o sol e me senti muito mais feliz que há anos atrás, quando odiava este mesmo lugar, o lugar onde eu moro.

Aquela pracinha onde nunca parei para ler um jornal me pareceu bela. A quitanda, da qual eu não sou mais freguesa por achar que a dona maltrata os meninos da rua, me pareceu sulplicar uma foto.

Os muros, com frases tão banais, talvez confirmassem a importância do dia de hoje. Não por ser hoje, mas por ser mais um dia.