15/07/2008

MEMÓRIA



















Cartaz/inscrição em um muro de um colégio público perto de casa.

E a minha guerra, quem esquece?

01/07/2008

SOIS REI



Minc anuncia acordo com o setor madeireiro
O governo fechou ontem o primeiro acordo com o setor madeireiro para frear
a exportação de toras cortadas ilegalmente na Amazônia. O ministro do Meio
Ambiente, Carlos Minc, e o diretor da Associação das Indústrias
Exportadoras de Madeira do Pará (Aimex), Justiniano Neto, assinarão o
compromisso no dia 18, em Belém. Os exportadores se comprometeram a não
comprar madeira retirada de áreas devastadas ilegalmente. Em contrapartida,
o governo prometeu acelerar a regularização ambiental das madeireiras e
editar uma instrução técnica com normas para as derrubadas na Amazônia.
Minc prometeu dobrar as metas de concessão de florestas para uso
sustentável
-

O Globo, 26/6, O País, p.4.
Fonte: ISA

Pelamordedeus, alguém o avise que isso só vai funcionar em manchete de jornal. Será que a inteligência estelar do ministro (só não é maior que sua vaidade) previu que há a necessidade de implementação de mecanismos de monitoramento de entrada e saída do estoque de cada uma desses madeireiras?

Ah, mas para quê isso, se o importante é agilizar as licenças e dobrar as concessões? 

AMIGO DO DONO




Chefe de gabinete diz que para Lula ambiente é importante, mas não decisivo


Em entrevista, Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente da República, diz que "a cabeça de Lula é a do peão do ABC. O núcleo da preocupação do presidente é com emprego e salário. Vejo isso todo dia. Assim, se o banqueiro tiver lucro, tudo bem". Ele diz: 'Eu prefiro que esses caras tenham lucro do que fazer um Proer para eles depois'. Mesmo em relação à reforma agrária, eu não sinto que ele se empenhe tanto, quanto por salário e emprego. Nem quanto ao ambiente. Vou ser bem claro aqui: ele acha importante a preservação, mas, entre um cerradinho e a soja, ele é soja. O ambiente é uma questão importante, mas não é decisiva. O que é decisivo é a economia. Gilberto Carvalho afirma também que, para assuntos considerados importantes o governo conta com a mão forte da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, para acelerar os processos, como no caso da "guerra" com a Ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, para que houvesse o leilão das hidrelétricas do Rio Madeira - Veja, 2/7, p.11 a 15.

Fonte: ISA


Meu humor já está uma beleza. Esses caras que não brinquem.

29/06/2008

NÃO ESTOU LOUCO, MAS TB NÃO ESTOU SÃO


Foi divertido ver o Hank velho. Nunca tinha lido. Tive companhia durante o tempo em que fiquei na semana retrasada esperando o trem.

E como ele consegue ser uma boa companhia!

Na velhice, continuou sendo um cara que não suportava as pessoas. "O melhor leitor e a melhor pessoa são os que me recompensam com sua ausência". Me deu vontade de fazer panfletos com essa frase e distribuir por aí, na entrada do trabalho, na fila do banco, nos bares cheios de medíocres achando que são felizes.... Escreve: "eu não me importo, a não ser que tenha que viver com eles".

Já no fim do livro, fala sobre o mesmo assunto:
"o problema é que eu tenho que me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir minha barriga, tenho que continuar a me relacionar".

Impossível não rir com a ranzinzice dele: "gente demais é cuidadosa demais. Estudam, ensinam e fracassam. A convenção apaga sua chama". Ou: "não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente numa festa. Não faça isso".

Assume: "não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar idéias - ou almas. Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Noutra passagem: "existem muitas coisas para se escrever, mas não para se falar". E finaliza: "deve ser bem estranho viver comigo. É estranho para mim".

Se reconhece como estranho desde cedo:
"sempre estive por fora, nunca me adaptei. Descobri isso nos pátios das escolas. E outra coisa que aprendi foi que eu aprendia muito devagar. Os outros caras sabiam de tudo; eu não sabia merda nenhuma".

Ele ia ao hipódramo todo dia. "Minha maldita vida pendurada no gancho", dizia. "A multidão do hipódramo é o mundo em tamanho menor, a vida lutando contra a morte e perdendo. No final, ninguém ganha, buscamos apenas uma prorrogação, um momento sem ser ofuscado". Noutras vezes: "me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há uma câmera".

Ele sabia que se ficasse "longe do hipódramo, teria tempo de sobra". Mas "tem sempre alguma coisa atrapalhando minha chegada a mim mesmo".

Numa passagem descreve a lentidão com que as pessoas saem do hipódramo, caminhando para o estacionamento: "somos lesmas caminhando sobre uma folha". Essa letargia é notada por ele tb adiante: "(...) já levei um caderno, bem, escreveria alguma coisa entre os páreos. Impossível. O ar é denso e pesado, somos todos membros voluntários de um campo de concentração".

Ficava de cara com um sujeito que conseguia nunca ganhar nas apostas: "de certa forma ele é um gênio, porque ele nunca escolhe um vencedor".

Sobre as previsões que se oferecem para as apostas, ele ataca: "cada vez que você paga alguém para dizer a você o que deve fazer, você é um perdedor. E isto inclui seu psiquiatra, seu psicólogo, seu operador de bolsa de valores, seu professor e seu etc (...) Não há nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente".

Ainda na linha dos ensinamentos, escreve: "acho que tirar minha bunda daqui me força a olhar para a Humanidade, e quando você olha para a Humanidade, você TEM que reagir". Ou então: "não podemos nos examinar de perto demais ou vamos parar de viver, parar de fazer tudo. Como os sábios que ficavam sentados em uma pedra e não se mexiam. Não sei se isso é sábio, também".

Ele se preocupa um pouco com a futilidade de suas preocupações, como cortar as unhas dos pés. "Sim, eu sei que tem pessoas morrendo de câncer, que tem pessoas dormindo em caixas de papelão e eu fico falando em cortar as minhas unhas. Ainda assim, provavelmente estou mais perto da realidade do que um panaca que assiste a 162 jogos de baseball por ano. O fato de eu estar vivo e com 71 anos falando sem parar sobre minhas unhas dos pés é milagre o suficiente para mim".

Entretanto, zombava constantemente da morte. "Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiro-a do bolso e falo com ela: 'Oi gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto'." Sobre a vida, constata: "a vida me fode, não os damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda".

Hahaha, o velho é genial. Tenho vontade de fazer out-doors com as frases dele.


"O que é terrível"
- escreve ele - "não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até a sua morte". E vai descrevendo o estilo de vida das pessoas. Conclui que "a maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer."

Ele gostava muito de música clássica e não gostava de rock. Ia a alguns show mais por causa de sua última mulher, Linda. Ganhavam ingressos, eram tratados como VIPs. Diz que talvez as letras de um show onde foram
"provavelmente falavam de Causas, Decências, Amor achado e perdido etc. As pessoas precisam daquilo - anti-sistema, anti-pais, anti-alguma coisa. Mas uma banda milionária e bem sucedida como aquela, independentemente do que disser, AGORA FAZIA PARTE DO SISTEMA".

Quando a banda dedicou o show, para 25 mil pessoas, ao casal, ele pensou: "será que estou sendo sugado? 72 anos brigando a briga certa para ser sugado?".

Explica porque nunca escreveu nada panfletário: "eu não buscava uma justiça ou lógica".
A acidez dele o coloca num time diferente dos que têm uma causa: "é como as pessoas que protestam contra a guerra, precisam de uma guerra para crescer (...) E quando não há uma guerra, elas não sabem o que fazer".

No livro, está fascinado com o advento do computador. Na agilidade que o uso do PC conferiu à sua produção. Afinal, diz ele, "um escritor não deve nada, exceto ao seu texto". Graceja da resposta dos editores que acham que ele devia voltar a escrever com a máquina, pois ele diz que se "posso escrever o dobro e a qualidade permanece a mesma, então prefiro o computador. Escrever é quando vôo, escrever é quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a contra a parede e a pego de volta quando rebate. Esses caras acham que você tem que estar crucificado e sangrando para ter alma. Querem que você esteja meio louco, babando na camisa. Já estou cheio da cruz, meu tanque também está cheio disso. Se puder ficar fora da cruz, ainda terei bastante combustível. Demais. Deixe que eles subam na cruz, eu os congratulo. Mas a dor não cria a obra, um escritor, sim".

Ainda sobre os computadores, elocubra: "imagino qual será o próximo passo depois do computador. Provavelmente, você só apertará os dedos nas têmporas e sairá esse monte da palavras perfeitas".

Sobre a literatura que se produz, ele critica: "depois que você lê uma certa quantidade de literatura decente, simplesmente não há mais nada. Nós mesmos temos que escrever". E prossegue: "hoje, minha principal influência sou eu mesmo".

Então, imagina como seria o inferno: "todos os poetas estarão lá, lendo seus trabalhos e eu vou ter que ouvir. Serei afogado por sua elegante vaidade, por sua transbordante auto-estima. Se houver um inferno, este será o meu: um poeta atrás do outro lendo sem parar....".

Comentando um dia após o outro: "música ruim na rádio, mas não se pode esperar um dia 100 por cento. Se você conseguir um 51, você já ganhou. Hoje foi um 97". Ele acha que as melhores horas do dia são as nas quais está escrevendo. "Mas você tem que ter horas imperfeitas para ter as perfeitas. Você tem que matar dez horas para que duas vivam. O que você tem que cuidar é para não matar TODAS as horas, TODOS os anos".

Sobre essa maneira intensa de viver, e o reflexo disso na sua obra, analisa: "precisava me colocar em situações perigosas. Com os homens. Com as mulheres. Com os carros. Com as apostas. Com a fome. Com qualquer coisa. Alimentava a palavra. Tive décadas diss. Agora, mudou. O que preciso agora é mais sutil, mais invisível. É um sentimento no ar. Palavras ditas, palavras ouvidas. Coisas vistas. Ainda preciso de um trago. Mas agora estou em nuances e sombras. Sou alimentado com palavras, por coisas que mal me dou conta. Isso é bom. Escrevo uma merda diferente agora. Alguns já reparam".

Em 91, 92, ele já estava com sua vida ganha. 71 anos de idade, tinha virado cool e estava, realmente, cagando para isso. Às vezes comentava algo sobre os acontecimentos do dia, como fazer a revisão no sistema de alarmes da sua casa. Depois se perguntava se ele era o mesmo cara que dormia em latas de lixo. Certa ocasião, se sentindo bem disposto, comentou: "(...) me sinto como uma usina elétrica, dez anos mais jovem. Diabos, é de morrer de rir - 10 anos mais moço me faz ter 61, vocês acham isso legal? Me dexem chorar, me deixem chorar!".

Mas não deixava para trás uma indignação pelo seu reconhecimento ter vindo tardiamente. "Porque tenho que chegar aos 51 para poder pagar o aluguel com meus livros? Quero dizer, se estou certo e escrevo igual, porque demorou tanto? Tive que esperar que o mundo me entendesse? E, se ele me entende, como estou agora? Mal, é isso".

Hahaha, mas que bosta!!!! Sempre me senti assim em relação às coisas, principalmente ao meu trabalho. Ao invés de ficar alegre quando as pessoas reconheciam que fizeram cagadas e que eu tinha razão, eu penso: mas meu Deus, porque a anta demorou tanto para perceber isso? E, se estão achando que eu sou lúcida (odeio quando falam: nossa, Tatiana, mas como vc está lúcida! E antes eu babava, delirando, por acaso?), será que não é sinal que está tudo uma merda mesmo?

Por outro lado, tem o alívio em ser incógnita, ao mergulhar na piscina da sua casa: "o mundo não sabe onde estou".

Teve uma hora em que me lembrei da Tita: "na minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado. Sentar por aí lambendo meu cu".

A impossibilidade de fazer bem a quem ama (ama?), tão bem explícita no filme "Crônicas de um Amor Louco", tb está presente aqui: "ouvi falar que encontraram minha primeira mulher morta. Pobre garota (...) Ela se divorciou de mim e devia ter feito isso. Não fui bom ou generoso o suficiente para salvá-la". Embora seja mórbido, isso não me é estranho.

Sobre a forma do livro, o fato dele ser um diário, ele não poupa nem a si mesmo: "acho que a pessoas que têm cadernos e anotam seus pensamentos são umas cretinas. Só estou fazendo isso porque alguém sugeriu que eu o fizesse. Como você vê, não sou nem mesmo um cretino original".

É, Hank, tu é um cretino sensacional!

23/06/2008

ACENDE A FOGUEIRA DO MEU CORAÇÃO

Anna and me

Ontem eu fui ao show do Alceu Valença no São João do Pelourinho. Ainda bem que a Anna tb queria ir, porque eu já estava tão entediada de ficar trancada em casa há dias que pensei até em ir sozinha.

Realmente, é outro mundo. É impresisonante como aqui em Salvador as camadas sociais não se misturam. Estávamos lá, nós, no meio de um mundo que eu, pelo menos, desconheço. É o mundo real. O mundo de pessoas de bem, sérias, honestas, trabalhadoras, humildes. Que dançavam forrózinho chamegado com seus maridos, seus namorados, seus amores. Que cantavam junto com Alceu todas as músicas das quais eu sei a letra de trás para frente e de frente para trás.

Mas são pessoas com as quais eu não convivo. Todas estavam enfeitadas, bonitas para a festa. Com suas roupas compradas em lojas populares, e não por isso menos bonitas que o meu vestido caro e minhas pulseiras novas.

Fiquei, assim, comparando no que seria a felicidade. Eu estava lá feliz por estar no meio daquela gente. Por eu estar assistindo um show do Alceu doze, quinze anos depois do show dele que vi lá em Antonina.

Sim, aquele show em que fui sozinha passar a noite no Festival de Inverno. Aquele show onde não encontrei nenhum dos quinze mil amigos que eu esperava encontrar (ora, alguém não havia dito que a vida era uma festa?) e acabei dormindo num alojamento de estudantes que eu nem conhecia, coberta apenas com meu casaco, depois de ter sido umas das únicas que ficou vendo o show sem guarda-chuva.

Agora eu estava num show do mesmo cara, e estava simplesmente sendo bom. As coisas não precisam ser espetaculares - expectativa gera sofrimento. Podem simplesmente ser.

E assim, fiquei satisfeita por estar com uma amiga querida, numa noite tranquila.

O meu telefone foi roubado, mas é porque dei mole - fiquei cuidando demais da minha bolsa, mas esqueci que ela tinha uma bolsinha externa, onde eu, espertamente, deixei o celular.

Ah, e no telão, em vez do Alceu, algumas vezes aparecia o Governador dando uma entrevista que a gente - graças a Deus - não ouvia. Mas eu via Alceu lá no palco, pequeninho, olhava pro telão para ver se via algum detalhe.... E tinha o desprazer de ver JW se aproveitando da festa para incutir, nada sutilmente, sua imagem na mente dos eleitores.

21/06/2008

VIZINHANÇA

Ontem, encontrei um novo colorido na imensa pedra da Rua Oswaldo Cruz: flores compostas por um mosaico de formas que "imitam" pedaços de azulejo

As flores foram pintadas bem ao lado das obras do Bel Borba. Dá para notar o estado DEPLORÁVEL da calçada, néam? Quando chove, fica intransitável. Qdo tá seco, não é muito diferente.

Formas que remetem às pinturas ruprestres

Vai um fossilzinho aí?

Tá de bodeAlongando
Caçador - coletorBambuzal em cima da pedra
Na outra quadra, mais um mosaico, tb do Bel Borba

Um buraco no muro vira expressão facial

10/06/2008

SOBREVIVENDO

Arredores de casa: a pracinha

A quitanda

Um muro

Outro muro


"Dia de pedra
sol de pedrasilêncio de pedraMorreram os cavalos na montanhamorreram as árvores na caltu não morreste
(...)"
(Ritsos, de Notas à margem do tempo [Simeióseis stà Perithória to Xrônou], 1938 - 1941. Tradução: José Paulo Paes)


Depois de 3 dias, hoje saí às ruas. Não devo estar tão triste, porque olhei o céu e o sol e me senti muito mais feliz que há anos atrás, quando odiava este mesmo lugar, o lugar onde eu moro.

Aquela pracinha onde nunca parei para ler um jornal me pareceu bela. A quitanda, da qual eu não sou mais freguesa por achar que a dona maltrata os meninos da rua, me pareceu sulplicar uma foto.

Os muros, com frases tão banais, talvez confirmassem a importância do dia de hoje. Não por ser hoje, mas por ser mais um dia.

01/06/2008

ANJO CAÍDO


Estou lendo "No fundo de um sonho - a longa noite de Chet Baker", de James Gavin.

Esqueça aquela cara do Chet Baker quando jovem. Aquela melodia terna, que envolvia as mulheres e as fazia sonhar com o ídolo e comprar os vinis que representavam a pureza do jazz da Costa Oeste - em contraposição com o bepob dos negros - era uma capa para seu pensamento constantemente atordoado. Um dos depoentes do livro se pergunta:

"Como era possível uma música tão idílica emanar de um sujeito que claramente não estava afim de nada de bom?"

Ruth Young, cantora com quem ele passou uma das tentativas de recomeço na vida, dise que:

"Devido à sua reticência natural, as pessoas o tomavam por aquilo que queriam. Como ele desviava os olhos, confundia todo mundo".

No início da leitura (é um catatau de 500 páginas), eu só me importava com o tipo psicológico do trompetista. Incrivelmente parecido com uma pessoa que conheço intimamente, por sinal:

"Na verdade, Baker achava quase impossível relacionar-se com os outros de maneira direta e honesta. Lidava com a maioria das pessoas afastando-se delas, usando-as ou desapontando-as. Suas ações lembravam um comentário feito por Arlyne Brown sobre todos os músicos que conhecera, que eram 'muito sensíveis à música e completamente insensíveis para com o resto do mundo'. Anos depois, Ruth Young definiria Baker como um psicopata - uma espécie explorada por Robert Mitchell Lindner em seu livro de 1944 Rebel without a Cause: The Hypnoanalisis of a Criminal Psychopath. 'O psicopata é um rebelde sem causa, um agitador sem slogan, um revolucionário sem programa', escreveu Lindner. 'Em outras palavras, sua rebeldia se destina a alcançar metas satisfatórias só para si mesmo; ele é incapaz de esforços em favor dos outros [...]. O psicopata, como a criança, e incapaz de retardar os efeitos da gratificação'.

Vivendo com ele, Young veria a raiz do comportamento de Baker: 'Chet era infeliz! Era a pessoa mais insegura que já existiu. E enterrava aquelas inseguranças da melhor maneira que podia'.

Uma dessas maneiras, segundo Bob Whitlock, era posar de estrela, pelo menos por um momento. O baixista lembra de vê-lo exibir um novo sobretudo no Haig: 'pensei, meu Deus, ela acha que é o Clark Gable ou coisa parecida. Havia um monte de gente o iludindo e ele acreditava mesmo naquilo'. Sheldon o comparou 'a um galã de filme: tinha sempre um conversível, um cachorrão e uma garota'."

Ele estava simplesmente andando para as convenções, mas fez de seu próprio corpo sua ruína, como muitos outros ícones da arte. Sem dinheiro, se submetia a gravações medíocres e espetáculos em muquifos. Gabava-se de ter mais de 2.5000 multas por excesso de velocidade não pagas, que guardava numa fronha (hahaha, não pude segurar as gargalhadas ao ler isso!).

Nem sempre era possível rir durante a leitura. O estado zumbi em que ela fica pela droga, as sucessivas promessas de reabilitação, seguidas por recaídas... Um cara com aquela inconformidade toda só podia cair sempre mesmo.... Se picava até embaixo das unhas.

Por outro lado, mesmo após sua decadência (perdeu os dentes numa briga nunca esclarecida com supostos traficantes, e cortou um dobrado para conquistar novamente a intimidade com seu trompete), era profundamente respeitado e admirado.

"Beirach, um músico de formação erudita, se maravilhava com a capacidade de Baker de dirigir a banda quase sem vocabulário técnico. 'Miles diria: não toque tanto os graves, ou toque menos notas em suas frases, mas Chet não sabia explicar essas coisas. Ele dizia: você está tocando muito alto, ou toque mais macio, menos picotado. Além disso, não achava que era sua função dizer às pessoas como tocar. A escolha era delas'.

A maior lição que Baker dava era de como ouvir. Ao contrário de Stan Getz, que geralmente ficava nos bastidores fumando seu cigarro ou checando o relógio enquanto os demais solavam, Baker fechava os olhos e se concentrava atentamente em cada nota de seus músicos."


Isso não evitava que ele se envolvesse em discussões com os músicos, agentes, críticos ou qualquer pessoa que não comprendesse sua genialidade. Ele despertava inúmeras paixões - não só as mulheres, mas sempre alguém o reconhecia e dava uma nova chance - que ele comumente desperdiçava.

31/05/2008

ALINHAVANDO

Eu e Evaldo na palestra sobre as Operações Planejadas (Fiscalização dos projetos de fomento florestal no Sul e extremo Sul da Bahia), para promotores do Ministério Público Estadual. Prado, maio de 2008.

27/05/2008

IMÃ


O CRA virou IMA. Saiu nas páginas 33, 34, 35, 36 e 37 do Diário Oficial do Estado da Bahia, caderno do Poder Legislativo.

A matéria não existe em texto, nem tampouco pode ser salva no Acrobat. Atualização no site do SEIA ou da SEMA? Oxi, tá louco? Limite-se a sorrir!

Mas resumindo: ordenamento de fauna e flora saíram da ex-SEMARH, atual SEMA e vieram pro ex-CRA, atual IMA. Não é imã de geladeira - ou ao menos eu espero que não se venda com a mesma facilidade dos mesmos. Mas que tem gente do olho nas Reservas Legais, e que quer fazer disso um negócio lucrativo, ah isso tem.

NEAMA e DIPRO, ao contrário, não passaram para a SEMA. Concentrar para dominar!!!

É, as coisas não me agradam. Acho até legal a figura de um instituto, tipo o IEF ou o IAP. Mas não basta mudar o nome e criar mais um monte de cargos. Tem que mudar a mentalidade, esse coisinha pequena do poderzinho de repartição, da estrutura viciada em pequenas gentilezas e babações de ovo.

Tem gente que anda dizendo que nem na época do Sinhozinho foi tão maltratada. Comigo não é assim, eu prefiro esta gestão, milhões de vezes. Mas... tantos cargos tomados por donos de posto de gasolina, candidatos a não sei o que em não sei qual cidade, ou - realmente não sei o que é pior - por representantes do governo anterior, comprovadamente comprometidos única e exclusivamente com seu projeto pessoal: manter-se no cargo a qualquer custo...

Conseguiram. Não estão se mantendo, estão subindo. Enquanto isso, técnicos que batalharam duro, que fizeram relatórios sérios sobre seus trabalhos, expondo os resultados alcançados, as dificuldades enfrentadas e propondo um ajuste de metas, foram simplesmente mudados de chefia, sem qualquer consulta ou aviso prévio. O relatório? Já procurou naquela gaveta mofada na sala de mesa de mármore e tapete persa? Não, não tive tempo, estive preocupada com o burburinho para saber para quem vai sobrar um qualquer, com um cargo novo....

Isso não muda o meu comprometimento com o trabalho. Só aumenta um pouco minha irritabilidade, diminuindo minha paciência para lero-lero.

APANHEI-TE CAVAQUINHO


Das espertas, eu sou a mais. Em vez de ficar correndo feito peru bêbado tentando filmá-los, dessa vez eu fui com jeitinho para conseguir a foto.

18/05/2008

AGILIDADE

Foto: Cléber Bonato (AE). As bananinhas, não sei como foram parar lá.


Eu disse, eu disse que ele era um banana. Achei a reportagem que vi na TV quando eu estava lá no Rio. Mostraram para ele imagens que revelavam, num espaço temporal de três dias, a evolução do desmatamento e queimadas no Morro Pavão/Pavãozinho. Eu o vi falando na TV justamente o que é relatado na reportagem:


Ele reconhece que está havendo destruição da Mata Atlântica, mas diz que não há fiscalização imediata prevista para o Pavão-Pavãozinho. Segundo ele, as obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) vão resolver o problema a partir de maio.


Fiquei de carinha com a declaração dele! Imagina, um Secretário Estadual de Meio Ambiente afirmar que não vai fazer nada! Aguardar o PAC, hahahaha. Pensei: é, eu reclamo da Bahia, mas lá nunca isso iria acontecer. Um alto dirigente ter posse da informação do delito ambiental e assumir, deslavadamente, que não vai fazer nada para contê-la, revertê-la, mitigá-la, corrigí-la ou comprensá-la.


A Prefeitura também não ficou atrás em termos de declarações esdrúxulas:


Apesar dos flagrantes de expansão da favela, a prefeitura do Rio também disse que não pretende fazer fiscalização imediata no local e afirmou que o projeto que tinha para remover casas em área de risco no Pavão- Pavãozinho foi incorporado pelo PAC.


Lembro até que eu, fascinada pelo Rio, me conformei: "é, se eu viesse morar aqui, não poderia trabalhar nem na Secretaria Estadual nem na Municipal de Meio Ambiente"...


O que esperar de um cara que assume não estar preparado para assumir o cargo? E que nos lembra que não conhece todas as regiões do país? Ahhhh, agilidade nas licenças, né?


Nisso parece que ele é bom, porque qdo assumiu tinha licença saindo até em 08 (oito!!!!) dias. Nossa, quanta eficiência! Lulinha gosta de gente eficiente assim, Dilminha tb!

14/05/2008

LE MAISON CES'T TOMBÉ



Até que enfim! Ele conseguiu. Marina aguentou muito, até.

Todos perdem. Menos ele, que sabia muito bem o que estava fazendo (PAC, Dilma, Stephanes, Maggi, Madeira, Mangabeira...).

Demorou, Marina! Mas certamente vc conseguirá mais como Senadora que como Ministra.

Entra aquela o Minc, que não conseguia nem dar conta de um desmatamento no Morro da Pavão/Pavãozinho, quando era Secretário de Meio Ambiente do Rio, que dirá de um Ministério todo, justamente com rolos compressores passando em cima das leis...

12/05/2008

OTIMIZAÇÃO




Lá na repartição, todos os chefes queriam resultados. Senão, disseram eles, vão pensar que o Partido dos Melhores não faz nada. Então, mandaram Mimi e mais 857 (oitocentos e cinquenta e sete) pessoas para continuar a investigação do polvilho.

Deram R$ 14,85 (quatorze reais e oitenta e cinco centavos) para que eles dividissem entre si. Avisaram que era para otimizar o recurso. Assim, eles poderiam enfim trabalhar: mimeografar os mapas que não tinham e comprar fichas telefônicas para marcar suas inspeções, nitrato de prata para as máquinas fotográficas e máscaras para não inalarem as partículas tóxicas das fábricas. Enfim, tudo estava resolvido.

Além disso, tinham que dividir os blocos de anotações entre si. Isso era bom para exercitar a cooperação entre eles, que tinham que ser benevolentes e aplicar os conceitos cristãos, emprestando para outrem até mesmo o que não tinham.

Se os chefes tinham preferido assim, pensava Emília Motina - não seria ela que mudaria isso. Mas eles tb não a mudariam. A guerra, ela talvez perdesse. Mas não sem dar trabalho aos oponentes.

02/05/2008

PEGA UM, PEGA GERAL


Tatinha é chata e odeia unanimidades. Por isso, não tinha visto Tropa de Elite. Me achava superiorzinha às pessoas que comentavam o filme, e senti um certo orgulho quando me falaram: vc deve ser a única brasileira que não viu.

Não acho o Wagner Moura um ator fenomenal, como todos insistem em achar, e isso contribuiu para que eu não fosse ao cinema ver o filme, nem nunca o locasse. Comprar, então, nem pensar, já que não compro DVDs piratas e se fosse comprar um original, não seria esse.

Até que estou numa sexta-feira chuvosa em Itabatã e acho o filme para ver. Em primeiro lugar, ele não me irritou tanto quanto eu imaginava, pois não é narrado por um policial corrupto e sim por um policial honesto. Violento, é verdade. Mas estou perdendo um pouco o meu pudor em relação a isso. Não acho que todas as casas de uma favela devam ser revistadas para que se ache um traficante. Lá moram pessoas de bem. Mas as merdas dos bandidos - que o são muitas vezes apenas por simples processo de causa e efeito - não dão mole.

Como funcionária pública, sei que é difícil fazer as coisas. E sei que quem faz bem, só se ferra. Não tem lugar no esquema. Não dá para esquecer que o filme é o ponto de vista de um policial, não de um (hahaha) sociólogo. Apesar de eu ter gostado do filme mais que esperava, concordo com algumas críticas que li, só depois de vê-lo. Outras, não tive paciência para ler. 

Voltando para o filme, não achei pesado. Pesado é o sistema, que como diz o filme, não trabalha para a coletividade, trabalha para ele mesmo. As partes que mais me chocaram não foram os sufocamentos, os balaços na cabeça, as porradas...

O mais triste de ver são os esquemas de corrupção. O cara é bom, mas entra numa estrutura falida. Ou vai ficar lá mofando e nunca vai se destacar, ou vai se corromper, ou vai usar a criatividade para tentar dar a volta por cima. Ou vai gritar e se indispor com todo mundo, e vai se dar mal.

É podre o esquema do choppinho de graça (isso sem dizer que beber em horário de serviço já é um absurdo!), da segurança paga, dos guinchos que o Estado não tem recursos para manter, da firma de guinchos que os manda-chuvas do batalhão são donos e que venceram a licitação (será que teve?), aí ficam multando a rodo para guinchar todo mundo. Então, o outro policial, que ganhava propina para deixar o cara estacionar irregularmente, dança na parada, pois é hierarquicamente inferior à máfia do guincho.

E é tão parecido com tudo que eu vejo diariamente na repartição... Os mesmos vícios, as mesmas respostas: não pode fazer, não dá para fazer... Depois, vêm as notícias dos verdadeiros motivos... Eu me diverti vendo, pois é tão patético, eu conheço tudo isso tão de perto... Se fazem isso com a segurança pública, com vidas, com gente morrendo, bala perdida, tráfico, crime organizado, ou seja, uma situação que todo mundo já sabe, há décadas, que é insustentável, imagine o que não fazem com o meio ambiente, que vem a reboque sempre das negociatas?

Bah! Quem quiser que se iluda e aplauda. Quando fazem, é a obrigação. Fico feliz por participar da obrigação minimamente bem feita do Estado, mas estou cada vez mais descrente que ele vá conseguir reverter os grandes acordos fechados em jantares regados a champanhe comprado com cartão coorparativo.

Tá de bobeira?