06/02/2008

GARAPA

Joy Division/New Order: nada é mera coincidência, de Helena Uehara.
Já tinha lido a opinião da Katy sobre o livro e nem fiquei com vontade de ler, mas ao vê-lo por R$ 5,00 (o preço oficial é R$ 19,90), não resisti e acabei comprando. Só que eu tenho 39 anos, man, trinta e nove. São 25 anos de rock. "O que é punk", de Antonio Bivar, da famigerada Coleção Primeiros Passos (Ed. Brasiliense), eu li quando tinha uns dezesseis, e mesmo assim mais por aptidão, amor à leitura e informação do que necessariamente por não saber do que se tratava o assunto.

É claro que leitura é sempre leitura, sempre há um detalhe aqui, uma frase acolá. Mas confesso, não tive a mínima paciência para o verdinho aí de cima. O livro fica expicando quem é Andy Warholl ("famoso artista plástico dos Estados Unidos que pertencia ao movimento Pop Art"), cita trecho de uma crítica de Lester Bangs, da Rolling Stone, para definir Iggy Pop ("que tipo de pessoa busca, em sua terceira e mais crucial tentaiva, se dar bem no grande circo do rock'n'roll com um álbum intitulado 'The Idiot'?"), e ainda por cima depois da tradução de Love Will Tears Us Apart, a autora nos brinda com a pérola:

Quando se está apaixonado, a tendência natural é querer estar junto à pessoa amada. No entanto, o amor é aquilo que os separa. De novo e de novo. Quando existe o ideal da vida em comum, caminha-se lado a lado na mesma direção. Mas o que resta são estradas diferentes. Quando se ama, as dificuldades podem ser superadas uma a uma. No entando, só há solidão há dois. O que fica é o conformismo, a incomunicabilidade, o ressentimento. Um paradoxo de emoções.

Eu não preciso que ninguém venha tentar me explicar as letras do Joy Division nem de banda nenhuma, que coisa! É simplesmente para ouvir, para sentir, para calar, para chorar, parar rir, para fazer o que quiser, mas não para escrever um texto que parece mais um livro de auto-ajuda! O que que é isso?

Mas ela não pára, continua interpretando as letras de "Insight", "Interzone", "Atmosphere", "Passover" e "She's Lost Control". A essas alturas, eu já tinha parado de ler o livro faz tempo.

CELEBRATION

Uma das inúmeras lindas e felizes crianças fantasiadas no Bloco (as fotos do celular, que já eram ruins, agora "deram" para sair pequeninhas)
No último dia de Carnaval, fui ao Bagunça meu Coreto, bloco tranquilinho que saiu lá da Praça São Salvador, perto do Largo do Machado. Depois de andar pelo caminho errado, apesar de estar com o mapa na mão (pois eu acho bonito o nome das ruas - rua das Laranjeiras - e cismei que era por lá), encontrei com a Marilene e seus amigos e ficamos lá na concentração esperando os músicos saírem.

Novamente, aquele clima gostoso com a presença bem despretenciosa de pessoas simplesmente a fim de se divertir. As ruas amplamente arborizadas e os prédios antigos, construídos lá pelos anos 40, ajudavam a compor um cenário muitíssimo agradável. Fantasias hilárias, muitas crianças, todo mundo respeitando o espaço comum e o alheio.

Andar acompanhando o Bloco requer que se esteja imbuído do espírito carnavalesco, coisa que definitivamente, não é a minha cara. Gosto de olhar como curiosidade, gosto de ver a alegria das pessoas e como aqui no Rio, ao menos nos Blocos, elas se divertem de maneira infinitamente menos excludente e violenta que em Salvador, por exemplo.

Agora, ficar cantando as músicas sem quase nem ouví-las não é coisa que me anime muito. É diferente de estar, como no "Flor Serena", assistindo ao espetáculo de uma orquestra, e interagindo como platéia. É ouvir um "paticum" lá na frente e ficar andando devagarinho cantando uns pedaços de música que eu, no caso, nem conhecia direito.

Para quem cresceu fazendo isso, espera o ano inteiro para o bloco passar, curte, sei lá, deve ser como ir a um show de rock, deve ser legal. Se bem que nem para show de rock eu tenho paciência, aliás é uma das coisas que tenho menos paciência hoje em dia. Enfim, cada um que vá onde bem lhe convier, mas eu já estava ficando agoniada lá atrás daquele bloco, pensava: "será que não dá para andarem um pouquinho mais rápido?".

Ao mesmo tempo, tinha noção da inconveniência do meu pensamento, era como se fosse um executivo engravatado no meio de uma praia - nada a ver, relaxe, rapaz. O pensamento voava e eu deixava me envolver pela magia das cores, dos sorrisos, da gentileza das pessoas, da capacidade de festejar.

Depois, eu lembrava dos meus tempos de punk (e quem disse que eles passaram?) e que eu achava Carnaval uma alienação, uma perda de tempo, quatro dias para esquecer trezentos e sessenta e um, energia gasta em festa quando podia estar se fazendo uma revolução etc etc etc. Porém, apesar da lembrança, naquela hora, isso tudo estava muito tênue para mim. Não achava verdadeiramente aquelas pessoas alienadas.

Ao contrário do que diziam os meus ex-chefes, até que eu não sou tão radical assim, né? Se fosse, não teria mudado nada nesses 25 anos e estaria lá com a bandeira preta do anarquismo, protestando por estarem em festa enquanto (e apesar do) planeta estar morrendo de fome, sede e de vergonha.

No entanto, que se dance. Que se cante, que se celebre! A comemoração é legítima, assim como o protesto. O que interessa é o modo como se faz.

05/02/2008

A FLOR DO SERENO


Foto: Silvana Marques, fotógrafa oficial do Rancho

Ontem, sem dúvida minha melhor programação do Carnaval: fui ver o Rancho Flor do Sereno. Como diria um carioca da gema, que categoria! Rapaz, é de deixar o sujeito boquiaberto com tanta coisa boa acontecendo ali, assim, na sua frente, na rua, espontaneamente, com público, empolgação, integração e o que parece ser mais raro hoje em dia, mas aqui no Rio parece não ser artigo tão de luxo: boa música.
São 20 músicos de primeira (músico mesmo, que lê partitura e tudo mais, uns professores de Universidade, outros estudiosos, sem aquela pecha de intelectual, mas gente de gabarito, não essas porras que não sabem nem falar o português, não têm ouvido para porra nenhuma, acham que o negócio é subir no trio e cantar Vixe Mainha).
Como todo músico tem o público que merece (ou seria o contrário?), a platéia estava repleta de gente feliz, bonita, jovens, velhos, fantasiados, à paisana, mas todo mundo de bem. Impressionante como a juventude gosta, entende, conhece e vibra ao ouvir não só as marchinhas mais manjadas, mas todo o repertório do Rancho, que passa por Noel Rosa, Pixinguinha, polcas, sambas e maxixes.
Isso é cultura, é gente que lê, que tem educação, senso, discernimento, que não confunde diversão com baixaria, que preza a diversidade, a inclusão. O oposto do perfil do carnaval em Salvador, por exemplo. O oposto da vulgaridade.
Sim, é claro que aí eu só posso gostar. Meio perplexa ainda, primeiro por eu estar no meio daquilo tudo. Não sou a foliã mais animada do mundo. Aliás, nem me consideraria uma foliã, e sim uma observadora. Quase uma participante.
Muitas músicas boas, muitas. Isso me rendeu a festa. Além de algumas elocubrações ao ver os casais apaixonados. "Será que ainda vou me apaixonar por alguém dessa maneira?". Ver esse Carnaval no Rio é como ver um pedacinho da vida novamente. De uma vida que não é a Bahia, que não é o meu trabalho, que não é a minha família. Tipo: há vida inteligente lá fora, Tatiana.
Ao mesmo tempo, é me deparar com isso - comigo mesma - em alguns momentos. Observar o lá fora remete-me a mim mesma. Tudo bem, não quero fugir disto. Em suma, sei que essa fase que estou atravessando é uma das que estou (som na caixa!) "sensível demais"...
A orquestra em ação




Estar na rua, ver as cores, ouvir os sons, sentir os sabores e metabolizar tudo isso por aqui tem valido muito a pena.

03/02/2008

SABADÃO

Saara

Sábado de manhã fui no Saara porque eu queria porque queria comprar um turbante de baiana. Tudo é uma nova sensação, desde os camelôs que vendem vestidos falsificados da Farm até entrar na abarrotadíssima Casa Turuna, onde o tal do chapéu de Carmem Miranda (não era bem isso que eu queria, mas podia até ser) custava a partir de R$110,00. Mas tinham outras coisas baratas, o que é melhor: um monte de cartolas inacabadas, para customizar. Aliás, como existem chapéus à venda no Rio! Que maravilha! Em Salvador, só se acham bonés ou chapéu de praia. Aqui não, é uma variedade imensa, para minha alegria.

Depois da maior bateção de perna volto à Copacabana para complementar as compras. Enfim, o turbante sai por R$ 4,00 (dois metros e meio de morim). 
Ai!
Finalmente, volto para casa para deixar as compras, tomar um banho e fazar a produ de baiana. O vestido, o turbante, a maquiagem. Já são cinco e meia da tarde. Os blocos já saíram, e eu preciso escolher se eu vou n' Os Barbas ou na Banda de Ipanema. E eu andei o dia todo. Ai que preguiça. Hum, Carnaval são vários dias, né? Por que fazer hoje o que eu posso deixar para amanhã?

E assim fiquei bem feliz da vida descansando.

02/02/2008

O FEITIÇO DA VILA

Para não dizerem que só fico na Zona Sul, ontem fui com minha grande amiga Marila para o bloco Eu sou Eu, Jacaré é Bicho d'água, em Vila Isabel. Foi muito bom, porque ficamos sentadas, podendo conversar e ouvindo marchinhas e sambas antigos num clima onde cada um curtia a sua, todo mundo se misturava com respeito ao espaço do outro.

Confete, serpentina, velho, moço, criança, um monte de gente fantasiada, cantando, dançando, pulando, bebendo - não é coisa de santo, mas é calmo, ou seja, quem quer curtir, curte, quem quer ficar na sua, fica. O massa é que as pessoas se fantasiam. Não tem os abadás de Salvador, ou seja, todo mundo uniformizado, igualzinho, massificado. É coisa espontânea, de rua, que vem ressurgindo no Rio nos últimos anos. Carnavalzinho assim eu até encaro.

01/02/2008

DE JANEIRO

Mural na Estação de Metrô Siqueira Campos, em Copacabana. Foto escura, de celular. Inscrições: letra de "Tem mais samba", de Chico Buarque (1964) - Para o musical Balanço de Orfeu, de Luiz Vergueiro:
Tem mais samba no encontro que na espera
Tem mais samba a maldade que a ferida
Tem mais samba no porto que na vela
Tem mais samba o perdão que a despedida
Tem mais samba nas mãos do que nos olhos
Tem mais samba no chão do que na lua
Tem mais samba no homem que trabalha
Tem mais samba no som que vem da rua
Tem mais samba no peito de quem chora
Tem mais samba no pranto de quem vê
Que o bom samba não tem lugar nem hora
O coração de fora
Samba sem querer

Vem que passa
Teu sofrer
Se todo mundo sambasse
Seria tão fácil viver

Divisa de Ipanema e Leblon - Av. Borges de Medeiros. Ao fundo, os Morros Dois Irmãos.


O cúmulo do charme, na Visconde de Pirajá os canteiros das árvores não são forrados de pedrinhas - e sim de... conchinhas!!!

Isso que é cidade! Salvador fica tão.. tão... tão o que é, perto do Rio... um arremedo de cidade, uma tentativa de cosmópolis... E assim passei a manhã, meio revoltadinha ainda, tentando digerir tantas diferenças, tantas dificuldades pelas quais têm-se que passar naquele esboço de urbis chamado Soterópolis. Que pólis que nada.
No Rio "tu" acha tudo bem à mão. Tudo bem sortido, colorido e barato. Barato pela qualidade, pela diversidade, pelo estilo, pela amplitude de escolha, pela distribuição da oferta, pela competitividade do mercado.
As pessoas andam nos bairros, e estes são providos de comércio. Não é aquela coisa idiota de depender de carro, carro, carro, de precisar fazer tudo de carro. Então, a cidade tem vida. E é bonita. Não tem só gente feia e pobre nas ruas, tem gente interessante, as pessoas se misturam muito mais.
Está certo que estou na Zona Sul, mas se eu fosse no equivalente à Zona Sul de Salvador, só quem eu veria andando na rua seriam as empregadas domésticas, porque os bacanas só andam de carro, não andam nas ruas.
Aqui se vê todo o tipo de comércio na rua, à toda hora. Das deliciosas lojas de roupa que fui correndo ver lá em Ipanema até as quitandas cheias de frutas penduradas, botequins que fazem boas refeições por 5 pilas, floriculturas, chaveiros, lojas de ferragens, enfim, tudo misturado.
Existem muitas galerias com lojinhas interessantes, sebos, antiquários, coisas para a casa... Elas têm mais ou menos a cara do Copan, mas é como se fosse um Copan colorido, numa terra de calor, com pessoas mais desinibidas e mais tranquilas.
Certamente se eu tivesse sempre morado no Sul e tivesse caído direto aqui no Rio, iria estranhar muito. Mas depois desses anos de Brasília e Bahia, minha relação com o clima e com a cores mudou completamente, então me sinto totalmente à vontade com o "modo carioca de ser", o tipo que vejo na rua é um tipo com o qual me identifico, ao contrário do baiano. O paulista tenho achado tenso demais, São Paulo aquela coisa rock demais.
Gosto dessa coisa sol-vestido-colorido do Rio. Enquanto estou passeando sozinha, gosto. Vamos ver se a paz resiste ao Carnaval.

31/01/2008

OH RIO RIO DANCE ACROSS THE RIO GRANDE


No meio da pedra, uma rua chamada túnel (Foto de celular)

Enquanto passeio pela rua, fica cantarolando: rua Nascimento Silva, cento e sete, você ensinando para a Elisete as canções de Canções do Amor Demais... Sempre que venho ao Rio fico com essa coisa fantasiosa, da Bossa Nova, imaginando a cidade e os moradores na minha cabeça, ouvindo o sotaque como se eu estivesse num lugar meio imaginário.

A primeira certeza: quero morar em Copacabana! Logo depois desfaço meu pensamento, pois às vezes um desejozinho assim à toa pode dar certo, e quando acontece de verdade pode nem ser tããão bom assim - vide o quanto eu desejava morar em Salvador.

Lamentos à parte, Copacana me engana, Copabacana, o som do bairro tamborila à toda hora na minha mente - como o próprio som da cidade, de suas ruas, da sensação de estar no ícone da brasilidade. Na minha visão, um ícone muito mais autêntico e pego na unha pelos cariocas, esses sim valentes, assumidos, firmes, fortes. Mas que fumam na rua, fumam!

05/01/2008

RESULTADOS


CRA apreende madeiras nativas da Mata Atlântica, prende 2 pessoas e fecha 2 serrarias em Amargosa.

O Centro de Recursos Ambientais - CRA, em parceria com o Ministério Público Estadual e a Polícia Civil, apreendeu grande quantidade de madeira de lei, proveniente da Mata Atlântica, no município de Amargosa, na localidade de Lagoa de Dentro. No total, foram apreendidas 65 pranchas de vinhático, com volumetria de 4,84 metros cúbicos e 58 peças de massaranduba, com volumetria de 2,58 metros cúbicos.

Durante a operação, ainda foram detidos os irmãos Neilton e Nilton Lemos dos Santos, os principais responsáveis pelo desmatamento na região, após terem sido flagrados beneficiando madeira nativa - vinhático e massaranduba. Eles mantinham duas serrarias e um areal clandestino, todos interditados pelo CRA. Essa ação foi desencadeada depois de um primeiro mapeamento aéreo, com o helicóptero do CRA, através de um minucioso trabalho de inteligência. As madeiras apreendidas estão sob a guarda da Promotoria de Justiça e da delegacia policial de Amargosa.

A ação de Fiscalização Ambiental Integrada em Amargosa é o resultado de um novo modelo de fiscalização ambiental, que integra o Sistema de Proteção Legal da Mata Atlântica - SISPROT. Uma base ambiental, que atenderá, inicialmente, as regiões do Recôncavo e Baixo Sul, vai ser inaugurada no município. Nesse novo formato institucional estão presentes o Ministério Público Estadual, a Polícia Civil, através do Departamento de Polícia Ambiental, e o próprio CRA.

Fonte: SEIA


Êêêêêê que orgulho que tenho dos meus colegas! Isso já é resultado daquele sobrevôo que a gente fez no final do ano passado! Mas sem a força, determinação, ética e coragem, que para eles são rotineiras, eles não teriam conseguido pegar esses dois, que eram os principais armadores do esquema ilegal na região. Cara, quando foram ver a ficha policial dos dois caras, era tão suja, mas tão suja, que eles ficaram lá na "deléga" mesmo.

É o que todo mundo já sabe: o crime ambiental anda de braços dados com outras contravenções: trabalho escravo, sonegação fiscal, corrupção em várias instâncias. O tráfico de madeira e o de animais silvestres é o terceiro negócio ilegal mais lucrativo do mundo, estando atrás somente do de drogas e de armas.

Estamos trabalhando, com afinco!

02/01/2008

E LA NAVE VA

O bichinho narigudo

Posando de alerta, mas morrendo de sono, às seis da matina

Um dos muitos desmatamentos na Serra do Timbó

Árvores? Para quê?

Flagrante de carregamento ilegal de madeira

O pouso, no pacato estádio de futebol de Amagosa - BA

Esses dias andei de helicóptero pela primeira vez. Cada vez que me perguntavam se eu já havia realizado um sobrevôo e eu respondia que não, eu não chegava a ficar constrangida, mas pensava: tenho que fazer. Desde 1997, quando eu trabalhava no Parque do Conduru, sentia na pele a impossibilidade de não ter essa ferramenta para poder monitorar o território.

Na época em que eu estava no licenciamento, novamente nunca fiz um sobrevôo. Cá para nós, eles sempre eram pagos pelas empresas, e muitas vezes substituíam as inspeções de campo, então eu nunca quis entrar nesse bolo. Sempre fiz as coisas da minha maneira - da mais difícil e trabalhosa, porém sem resquícios de desonestidade ou faltas de rigor técnico ou legal.

Agora não, conseguimos, por meio do esforço pessoal da Coordenação onde trabalho, o aluguel de uma aeronave para trabalhar. Que diferença! Antes, se vc queria ou precisava voar, vc era um fresco, estava inventando moda, afinal vc era um peão, e peão não tinha nada mais a fazer do que assinar as porras do papéis que eles queriam, além de se foder em campo, é claro.

Os técnicos que voavam nas inspeções não o faziam por terem argumentado com suas Coordenações, mas sim porque as empresas disponibilizavam o helicópetero, e via de regra o Coordenador sempre queria fazer média com a empresa, e quando possível reduzir o tempo de inspeção do técnico, para agilizar a expedição da licença. Em suma, tudo faz parte de um pacote de troca de gentilezas entre órgão ambiental e empresas, que inclui hospedagem paga para o técnico, embora este receba sua diária para tais despesas.

Foi por não concordar com estas e outras práticas que saí do Licenciamento.

Agora, na Fiscalização, tendo os dias muito felizes no CRA - se bem que meu início no Licenciamento também foi muito bom, porque eu aprendi muito e ainda não tinha descoberto em quantas armadilhas eu poderia cair - finalmente fiz meu primeiro sobrevôo.

Fomos para a região de Serra do Timbó, onde o desmatamento está atingindo níveis alarmantes. Aliada à pressão antrópica, a prioridade de conservação dos remanescentes florestais na região fizeram com que se formasse uma Base Ambiental, numa parceria entre o CRA, o Ministério Público Estadual, a Delegacia Ambiental da Polícia Civil , a Prefeitura de Amargosa e a ONG Centro Sapucaia, com o apoio do Projeto Corredores Ecológicos.

Neste sobrevôo, fomos fazer um reconhecimento da área e marcar as coordenadas e acessos das principais infrações na região, para então planejarmos uma operação por terra. Como eu sempre ouvia histórias de gente que passava mal no helicópero, tomei um Plasil antes, com receio de passar mal lá em cima e ter que pedir para descer.

O que eu não levei em conta é que quando tomo Plasil fico completamente mole. Assim, foi entrar no helicópetero e começar a ter sono. No começo, pensei que era porque eu havia acordado muito cedo - cinco da manhã. Mas depois, o sono não passava. Era para eu estar entusiasmada, mas eu só queria dormir.

Organização à toda. Uma fotografa, outra anota, outra tira o ponto. Eu anotava. O lápis escorregava. Carla - minha Coordenadora - falava: não é sete, Tati, é três. Ai, que vergonha. Eu entendia tudo, juro que entendia. Queria explicar para ela que não era por querer, que eu não era relapsa. Tentava prestar mais atenção. Presatava, não que eu não prestasse. Afinal, o que a gente via lá embaixo era tão grotesco que não tinha como ficar alheio. O que lamento é que eu não estava com toda a minha capacidade de raciocínio, por causa do Plasil!

Desmatamento? O primeiro, a gente fala: olha lá, pega a coordenada. Bizarro. No começo, pega Coordenada até de rocinha de mandioca. Depois, fica claro que tem que estabelecer uma metodologia. Claro que isso todo mundo sabe, mas quando tá lá em cima dá uma empolgação e a gente quer pegar coordenada de tudo. Besteira. Tem que otimizar o tempo da aeronave, que não é nada barato.

Foi impressionante o número de áreas sendo desmatadas no exato momento do vôo, e o carregamento de madeira tb. O interessante é que a galera sai correndo ao ver o helicópetro se aproximando, ou seja, eles têm perfeita noção que estão praticando um delito.

Depois de ver tanto desmatamento, lá de cima mesmo dá para fazer um diagnóstico entre a parte norte a a parte sul da Serra, as diferenças na dinâmica no uso e ocupação do solo - as ameaças mais preementes e as ações mais urgentes. Agora era voltar pro escritório, planejar e finalmente - graças às condições que finalmente foram disponibilizadas aos técnicos para exercerem eticamente suas funções - botar a mão na massa.

23/12/2007

GRANDE SÃO PAULO



Centrão de São Paulo. Nada planejado, liguei a câmera e olhei. Cosmópolis. Pessoas de todas as categorias andando nas ruas. A "verdadeira" SP. Ou uma das mais verdadeiras. Picolés "É do Bahia". Modelos em profusão nas capas de revistas. Cama e mesa ali, na calçada - desta vez travestidos num colchão rasgado e em caixas de verduras podres.

O piso desenhado constantemente entremeando tudo isso. O meu olhar. A minha satisfação por estar lá, novamente, podendo respirar tudo aquilo. Num minuto, tudo voa. Eu bem mais feliz do que acreditava ter sido outrora, andando por aqueles mesmos lugares. Sozinha. Essa experiência pertence somente a mim.

Meu pés, o piso. Guimbas de cigarros, senhoras evangélicas, o ídolo sertanejo. Contrastando, um cabeludo, tranquilo apesar do passo paulistano. Compro Ouro. Durmo no chão, encolhido. Tenho os pés sujos. Moro em São Paulo. Casquinhas por 1 real.

16/12/2007

REVERTÉRIO

Imagem: Prodes/INPE apud Imazon

Afirmação

10.12.2007

Em entrevista hoje à rádio CBN, o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente (MMA), João Paulo Capobianco – depois de uma longa explicação das diferenças entre os dados do PRODES e do DETER sobre o desmatamento na Amazônia – disse que a estimativa do PRODES recentemente divulgada, “que fez a avaliação anual do desmatamento até 30 de julho de 2007, confirmando a tendência de redução, de queda, que nós esperávamos que fosse um pouco maior, mas chegou a 20% de redução em relação ao ano passado. Foi um dado novo importantíssimo para confirmar uma estimativa feita anteriormente, em agosto”.

Contradição

10.12.2007

Capobianco disse, também, sobre o DETER, o seguinte: “nos meses de julho, agosto, setembro e outubro, portanto nos últimos quatro meses, houve um aumento em relação aos mesmos meses do ano passado. Então, há uma clara tendência de aumento de desmatamento, porém, o que nós temos é uma tendência. Por que é que é uma tendência? Porque o desmatamento se mede em doze meses, então nós tivemos quatro meses, em que na realidade identificamos aumento do desmatamento, mas há uma ação firme aí do governo, na tentativa de reverter isso”.

Enrolação

10.12.2007

Após dizer que a seca se prolongou e contribuiu para o aumento do desmatamento e que agora entramos no período de chuva, Capobianco falou que “agora nós temos, então, que trabalhar os próximos oito meses para reverter essa tendência”. E concluiu “se nós formos capazes de revertermos isso a partir principalmente de março, que é quando o desmatamento retoma, na Amazônia, nós podemos manter essa tendência de queda. Então, de fato houve, há, uma tendência de aumento, mas, repito, essa tendência, ela só se confirmará, se nós não a revertermos nos próximos oito meses”.

Fonte: O Eco

Concordo. Tem que se trabalhar para se reverter o quadro, sempre. Mas por outro lado, é de enfurecer qualquer cristão (judeu, budista, ateu ou coisa que o valha) que o MMA tenha oito meses para reverter o quadro que se apresentou em quatro. Quais as possibilidades reais disso ocorrer, mesmo que tenhamos pela frente o período de chuvas?

E mais, era para isso estar acontecendo? Quantos anos com essa Equipe no Governo, implantando os Programas que são prioritários para a Amazônia? Ai meu deus do céu, se não conseguem reduzir o desmatamento na Amazônia, quem consegue? Ainda acredito que alguém consiga!

Em compensação, tem gente boa ralando na ponta, basta ver a apresentação da Diretoria de Proteção Ambiental do IBAMA sobre o tema, em 2006. Mas com essa série do políticas divergentes, deve ficar difícil trabalhar por lá, imagino. Além disso, salvo engano, os dados nos quais a própria Dipro se baseia em 2006 são do DETER, é essa mesma fonte que o Capô quer amenizar em 2007...

15/12/2007

QUEM TE VIU...

Foto: Isto É

Quando líder sindical, o presidente Lula adotou a mesma estratégia de dom Luiz Flávio Cappio. Preso em abril de 1980, ao liderar uma greve no ABC paulista, Lula fez jejum de seis dias no Dops (Departamento de Ordem Política e Social).

Quem convenceu Lula a interrompê-lo foi d. Cláudio Hummes, então bispo de Santo André e hoje "ministro" do papa no Vaticano.

Fonte: Folha on Line

14/12/2007

JEJUM

Esse Jacques Wagner anda muito ousado... Disse que ao fazer greve de greve de fome, o Bispo de Barra, D. Luiz Flávio Cappio, "não está seguindo as regras da democracia". Acredita que o bispo está confundindo “um debate técnico e político, que é a oferta de água para os nordestinos, com o dogma de uma religião”.

Ah, governador, confundindo as coisas está o Senhor, e tentando que levar a opinião pública a enganos, já que estamos fartos dessa conversa que a transposição vai garantir água para os nordestinos. Tá, tá, é radicalismo meu, desculpe. Vai garantir água para os irrigantes nordestinos. Quer dizer, talvez eles sejam nordestinos. Mas os que continuarão sem água para consumo humano certamente são.

Eu tive a honra de em agosto participar, como palestrante, pelo CRA, de um Seminário, na Diocese de Barra, sobre a atividade de carvoejamento na região. Conheci o Bispo pessoalmente e ele foi extremamente feliz em sua afirmação: "é impossível pensar em revitalização sem a extinção da atividade clandestina de carvoejamento".

Ele recebeu o CRA muitíssimo bem, e agora o governador faz essa declaração, pela qual eu, como servidora pública da área ambiental me sinto profundamente envergonhada!

Mas a resposta de D. Cappio fala por si mesma: "Jejuo também por democracia real".

Abaixo, o texto na íntegra:

Acusam-me de inimigo da democracia por estar em jejum e oração combatendo um projeto autoritário e falacioso: o da transposição.

Acusam-me de inimigo da democracia por estar em jejum e oração combatendo um projeto do governo federal autoritário, falacioso e retrógrado, que é o da transposição de águas do rio São Francisco.
Meu gesto não é imposição voluntarista de um indivíduo. Fosse isso, não teria os apoios numerosos, diversificados e crescentes que tem tido de representantes de amplos setores da sociedade, inclusive do próprio PT.


Vivêssemos uma democracia republicana, real e substantiva, não teria que fazer o que estou fazendo.
Um dos mais graves males da "democracia" no Brasil é achar que o mandato dado pelas urnas confere um poder ilimitado, aval para um total descompromisso com o discurso de campanha, senha para o vale-tudo, para mais poder e muito mais riquezas. Tráficos de influências, desvios do erário, porcentagens em obras públicas e mensalões são práticas tradicionais na política brasileira, infelizmente, pelo visto, ainda longe de acabar. A sociedade está enojada e precisa se levantar.


Há políticos -e, infelizmente, não são poucos- que, por onde passaram na vida pública, deixaram um rastro de desmandos, corrupção, enriquecimento ilícito etc. Como ainda funcionam o clientelismo eleitoral, a mitificação de personagens, as falsas promessas de campanha, o "toma-lá-dá-cá" e mais deseducação que educação política do povo, esses políticos conseguem se reeleger e galgar posições de alto poder em governos, quaisquer que sejam as siglas e as alianças.


Na campanha do candidato Lula, o tema crucial da transposição era evitado o máximo possível. Mas as campanhas eleitorais, à base do marketing e das verbas de "caixa dois" das empresas, são tidas e havidas como grandes manifestações do vigor de nossa democracia, que, com urnas eletrônicas, dá exemplo até aos EUA...


O projeto de transposição não é democrático, porque não democratiza o acesso à água para as pessoas que passam sede na região semi-árida, distante ou perto do rio São Francisco.
O governo mente quando diz que vai levar água para 12 milhões de sedentos. É um projeto que pretende usar dinheiro público para favorecer empreiteiras, privatizar e concentrar nas mãos dos poucos de sempre as águas do Nordeste, dos grandes açudes, somadas às do rio São Francisco.
A transposição não tem nada a ver com a seca. Tanto que os canais do eixo norte, por onde correriam 71% dos volumes transpostos, passariam longe dos sertões menos chuvosos e das áreas de mais elevado risco hídrico. E 87% dessas águas seriam para atividades econômicas altamente consumidoras de água, como a fruticultura irrigada, a criação de camarão e a siderurgia, voltadas para a exportação e com seríssimos impactos ambientais e sociais.


Esses números são dos EIAs-Rima (Estudos de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente), públicos por lei, já que, na internet, o governo só colocou peças publicitárias.
O projeto de transposição é ilegal e vem sendo conduzido de forma arbitrária e autoritária: os estudos de impacto são incompletos, o processo de licenciamento ambiental foi viciado, áreas indígenas são afetadas e o Congresso Nacional não foi consultado como prevê a Constituição.
Há 14 ações que comprovam ilegalidades e irregularidades ainda não julgadas pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o governo colocou o Exército para as obras iniciais, abusando do papel das Forças Armadas, militarizando a região. A decisão do TRF (Tribunal Regional Federal) da 1ª Região, de Brasília, em 10/12 deste ano, obrigando a suspensão das obras, é mais uma evidência disso.
O mais revoltante, porque chega a ser cruel, é que o governo insiste em chantagear a opinião pública, em especial a dos Estados pretensos beneficiários, com promessas de água farta e fácil, escondendo quem são os verdadeiros destinatários, os detalhes do funcionamento, os custos e os mecanismos de cobrança pelos quais os pequenos usos subsidiariam os grandes, como já acontece com a energia elétrica. Os destinos da transposição os EIAs/Rima esclarecem: 70% para irrigação, 26% para uso industrial, 4% para população difusa.


Temos um projeto muito maior. Queremos água para 44 milhões de pessoas no semi-árido. Para nove Estados, não apenas quatro. Para 1.356 municípios, não apenas 397. Tudo pela metade do preço previsto no PAC para a transposição.


O Atlas Nordeste da ANA (Agência Nacional de Águas) e as iniciativas da ASA (Articulação do Semi-Árido) são muito mais abrangentes, têm prioridade no abastecimento humano e utilizam as águas abundantes e suficientes do semi-árido.


Fui chamado de fundamentalista e inimigo da democracia porque provoquei que o povo se levantasse e, disso, os "democratas" que me acusam têm medo. Por que não se assume a verdade sobre o projeto e se discute qual a melhor obra, qual o caminho do verdadeiro desenvolvimento do semi-árido? É nisso que consiste a nossa luta e a verdadeira democracia.


DOM FREI LUIZ FLÁVIO CAPPIO, 61, é bispo diocesano da cidade de Barra (BA) e autor do livro "Rio São Francisco, uma Caminhada entre Vida e Morte".

04/11/2007

LA BALSITA

Indo da Sta Cruz Cabrália para Belmonte. Cara, Belmonte é longe de onde eu estou. 130 km só de ida. E eu chego lá, tem um mooooonte de licenças para olhar, um monte. Não dá para fazer tudo num dia. Volta para Eunápolis. Ai. Vinte dias dormindo no hotel. Volta cinco para casa, mais vinte em campo de novo. Agora, quando durmo na minha cama, até estranho.

UMA BEIRA NO JEQUITINHONHA












Estava eu andando pelo Sul da Bahia, nessa minha jornada de prefeitura em prefeitura para dar uma olhada nas licenças emitidas para os plantios de Eucalipto. Tenho amado fazer esse trabalho, que na verdade é um pouco chato, mas é necessário e importantíssimo.

Então, entro na cidade de Itapebi.

Escolada em interior da Bahia do jeito que sou, já tendo sofrido muito com as mazelas sociais e ambientais de cada lugar visitado, já tendo chorado e me desesperado ao entrar em dezenas de cidades e me deparar inevitavelmente com o mesmo cenário, somente comprovei o habitual. Cidadezinha pequeninha, pobrezinha, feinha. Brinquei com o motorista, de um modo preconceituoso: "que bom que eu moro em Salvador".... Sendo que eu não acho bom, eu acho Salvador um cocô, imagine se eu morasse nessas cidades onde vou a trabalho... Aí a relatividade das coisas começa a te pegar. Mas não pode deixar pegar muito, senão se conforma com uma vida no meio do mato, como a que eu tive durante alguns anos, e quando vi, estava com uma vida que nada tinha a ver comigo.

Bom, mas voltemos a Itapebi. Como toda cidade, eu entro reclamando, mas na conversa com os Secretários de Meio Ambiente, sinto tanta realização... Tanta coisa a fazer, e em vez de pensar, como antes: "que droga, está tudo errado, que se dane tudo", eu penso, e tenho o discurso "vamos fazer juntos, essa é uma etapa do nosso trabalho". Essa é a diferença de ser sacaneada e de ser valorizada no trabalho. Estou sendo valorizada, e tenho que aproveitar, pois não sei o quanto isso dura.

Depois do trabalho feito, o Secretário foi me mostrar uma matinha onde quer fazer uma UC. Linda, mas o mais surpreendente não é isso. Atrás dela, à beira do Jequitinhonha, existe a cidade velha. Velha porque os moradores foram se mudando para o alto, e poucos ficaram na beira do rio. Uma pena! Ruas de paralelepípedo, praça com (dizem) a maior canoa do mundo, casario merecedor de conservação, um lugar onde dá vontade de andar, conversar com os poucos moradores que restaram, saber porque ficaram, como era antes...

Porque as pessoas se vão? Os lugares morrem, outros mais feios surgem, os que eram belos viram decadentes... Aquilo lá tem que ser revitalizado, virar roteiro turístico... Mas fazer o quê, se a galera que vem para a região (leia-se Porto Seguro) quer encher os cornos de cachaça e dançar axé espremido?

Enquanto isso, vou andando.